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De mansinho

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O facto de ser irmã de Beyoncé já não a intimida. Solange Knowles acaba de subir ao Olimpo

“A Seat at the Table” não é o primeiro álbum de Solange, mas após mais de uma década com a carreira em lume brando a mais nova das irmãs Knowles — tem 30 anos, menos cinco que Beyoncé — sai finalmente da sombra para conquistar o merecido lugar ao sol. E fá-lo, delicadamente, com uma coleção de canções que parecem querer embalar-nos, apesar de serem tão socialmente urgentes quanto alguns momentos de “Lemonade”. Tal como o registo da irmã, “A Seat at the Table” está a recolher rasgados elogios e a escalar tabelas de vendas (liderou a americana na semana de lançamento)... As comparações ficam por aí. O timbre de Solange pode até aproximar-se do de Beyoncé, mas as identidades vocais são bem distintas. Não há explosões e malabarismos aqui. Também não há grandes pontos em comum com “Sol-Angel and the Hadley St. Dreams” (2008), o anterior longa-duração, nem com o magnífico EP “True”, editado há quatro anos com a colaboração de Dev Hynes (Blood Orange).

“Sempre senti orgulho em ser negra. Nunca quis ser outra coisa”, defende a mãe de Solange e Beyoncé, em ‘Interlude: Tina Taught Me’, e essa é provavelmente a frase que melhor define um disco que, além de óbvia homenagem aos progenitores (Matthew Knowles ouve-se em ‘Dad Was Mad’), é uma viagem, partilhada por muitos, pela história da luta da comunidade negra. Canta o direito à revolta em ‘Mad’, com a colaboração de Lil Wayne, e à afirmação em ‘F.U.B.U’ (“all my niggas in the whole wide world made this song to make it all y’all turn for us”), mas mesmo o metafórico e belíssimo ‘Don’t Touch My Hair’ (com Sampha) vem imbuído de carga política. Também há aqui, claro, nos enternecedores ‘Cranes in the Sky’ e ‘Don’t Wish Me Well’, histórias de amores e desamores. Prova maior da determinação da artista é o facto de a lista imbatível de colaboradores — Raphael Saadiq, produtor executivo, à cabeça, mas também Questlove, The-Dream, André 3000, Kelela ou Rostam Batmanglij figuram nos créditos — nunca lhe ofuscar o protagonismo.

No trabalho mais consistente do seu percurso, Solange parece ter percebido que, para vencer, só tem de fazer aquilo de que gosta. O conforto desconfortável destas 21 novas canções (e interlúdios) assim o denota. b
mrvieira@blitz.impresa.pt