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Parece que o Nobel é um tabu para o próprio Dylan

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Bob Dylan não só não apareceu em conferência de imprensa para comentar a atribuição do Nobel, como é habitual fazerem os escritores galardoados, como não pronunciou uma única palavra sobre o assunto no concerto que deu quinta-feira à noite em Las Vegas. O que irá Dylan fazer? Dizer “não”, não e não, como disse Jean-Paule Sartre em 1964? Aceitar e agradecer o prémio? Aliás: irá Dylan, sequer, falar alguma vez sobre a decisão da Academia Sueca?

Helena Bento

Jornalista

Dos 113 escritores galardoados com o Nobel da Literatura desde que o prémio foi atribuído pela primeira vez, em 1901, apenas dois o rejeitaram: Boris Pasternak, em 1958, e Jean-Paul Sartre, em 1964. À atribuição do prémio este ano a Bob Dylan não só motivou grandes discussões, dividindo jornalistas, comentadores, escritores e críticos – de um lado, os furiosos, e do outro, os que muito festejaram a decisão –, como levantou uma importante questão: irá Dylan, que nunca esteve nem aí para grandes mediatismos e para o forrobodó de todas as academias deste mundo aceitar o prémio, ele que sempre quis ser “apenas um músico” e nem sequer comentou ainda a escolha da Academia Sueca? Ou irá, por outro lado, tornar-se o 3.º escritor, e o 1.º músico, a rejeitar o Nobel da Literatura?

Jean Paul-Sartre e a carta endereçada à Academia

“De acordo com certas informações de que tomei hoje conhecimento, eu teria, este ano, algumas hipóteses de conseguir o Prémio Nobel”, escreveu Jean Paul-Sartre numa carta endereçada a Nils Stahle, que era então diretor da Fundação Nobel, depois de ler sobre as intenções da Academia no “Le Figaro Littéraire”, nesse ano de 1964.

Era a 8.ª vez que o nome do romancista e dramaturgo francês aparecia entre os favoritos à atribuição do Nobel da Literatura. Na missiva, Sartre avisava a Academia Sueca de que não tencionava aceitar o galardão, caso este lhe fosse atribuído. Parco em explicações, dizia apenas que “não”. Não e não. “Não desejo figurar na lista dos possíveis laureados e não posso nem quero – nem em 1964, nem mais tarde – aceitar esta distinção honorífica”.

Numa declaração pública posterior, o autor de “Náusea” explicava os motivos pelos quais se recusava a aceitar o eventual Nobel. “Um escritor que adopta posições políticas, sociais ou literárias deve agir apenas com os meios que detém – ou seja, a palavra escrita. Todas as honras que possa receber expõem os seus leitores a uma pressão que não considero desejável”. Assinar Jean-Paul Sartre “não é o mesmo que assinar Jean-Paul Sartre, vencedor do Nobel”, dizia ainda, não se coibindo de deixar algumas críticas ao comité, que acusou de atribuir o prémio “apenas a escritores do Ocidente ou aos rebeldes de leste”.

“Hoje em dia, a única batalha possível na frente cultural é a batalha pela coexistência pacífica entre duas culturas, a do leste e a do ocidente. […] As minhas simpatias vão inegavelmente para o socialismo e aquilo a que se chama Bloco de Leste […] é por isso que não posso aceitar uma honra concedida por autoridades culturais, nem as ocidentais nem as de leste”, afirmou Sartre, que não conseguiu, apesar dos seus esforços, evitar que o Nobel da Literatura lhe fosse atribuído naquele ano (e não a Samuel Beckett, Nabokov ou W. H. Auden, que também estavam entre os favoritos). Obviamente recusou, sugerindo à Academia que entregasse o prémio ao Movimento Anti-Apartheid, por exemplo. “Não se pode pedir a ninguém que, por 250 mil coroas, renuncie aos princípios que não são apenas seus, mas partilhados por todos os seus camaradas”, disse.

Em 1958, o russo Boris Pasternak, autor de “Doutor Jivago”, recusara igualmente o Nobel – que lhe fora atribuído “pelo seu importante feito tanto na lírica poética contemporânea como na área da grande tradição épica russa” –, mas por razões diferentes. Fora forçado pelas autoridades do seu país a fazê-lo. Muitos anos antes, em 1925, George Bernard Shaw, escritor e dramaturgo inglês, também começara por declinar o prémio, mas em negociações com diplomatas suecos acabou por aceitá-lo.

De Dylan, nem uma única palavra (ainda)

Bob Dylan foi distinguido na quinta-feira pela Academia sueca por “ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana”. A decisão abriu brechas que, não sendo insanáveis, deram origem a autênticos motins nas redes sociais. De um lado, estavam aqueles que não tinha ponta de queixa ou crítica a fazer à escolha, admiradores fervorosos de Dylan dispostos a aceitar a viragem de rumo radical do comité, e, do outro, aqueles que consideraram a decisão, no mínimo, espatafúrdia, usando argumentos como: com tantos escritores por aí muito mais merecedores do prémio e a precisarem de ser lidos, numa altura em que os livros e a leitura foram relegados para um lugar bem lá na cauda da lista de interesses de uma maioria, por que raio foi a Academia escolher Dylan? Basta olhar para os títulos de artigos publicados na “New Yorker” e no britânico “The Guardian” para perceber esta bipolaridade que se instalou nos media: “Porque é que Bob Dylan não merecia o Nobel”, “Porque é que Dylan merece o Nobel”. Um “porque é que Dylan” isto e aquilo que começou no opinador comum e se estendeu a críticos alegadamente entendidos no assunto.

A Academia sueca já previa isso, o que pode explicar o atraso inédito no anúncio do vencedor do prémio e o que explica as declarações da secretária permanente da Academia, Sara Danius, após ser anunciado o nome de Dylan. “Talvez os tempos estejam mesmo a mudar”, disse, comparando as canções do músico às obras de Homero e Safo, que, tal como o Dylan, “escreveram textos poéticos destinados a ser representados”. “É óbvio que ele merece o prémio. É um grande poeta - um grande poeta na tradição da grande literatura de língua inglesa. Durante 54 anos de carreira, ele foi capaz de se reinventar constantemente, criando novas identidades”, acrescentou a secretária.

A verdadade é que, no meio desta enxurrada de análises e pseudo-análises e confrontos mais ou menos pacíficos e mais ou menos esclarecidos, e educados, de opiniões, Bob Dylan ainda não se pronunciou sobre o assunto, nem mesmo na quinta-feira à noite, quando subiu ao palco do Chelsea at The Cosmopolitan, em Las Vegas, para mais um concerto. Irá ele dizer “não”, não e não? Ou irá, por outro lado, aceitar o prémio? Aliás: irá ele, sequer, falar alguma vez sobre o Nobel?