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“Estou a rir-me por aquele antipático e caprichoso génio ter ganho o Nobel”: o áudio que Jorge Palma gravou para o Expresso

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A discussão em torno da escolha de Bob Dylan para prémio Nobel da Literatura promete continuar ao longo das próximas semanas ou meses. Jorge Palma, que diz ter uma “comparticipação neste louvor”, prefere não entrar nesta guerrinha de opiniões. O músico português dá os parabéns ao cantor e compositor norte-americano, num texto escrito a partir de uma praia perto de San Diego, na Califórnia, onde também gravou algumas palavras sobre o homem que “mudou toda uma mentalidade”, o “mestre Dylan”, que com este prémio “vai ficar ainda mais empertigado e, eventualmente, aumentar o cachet”

Jorge Palma

Transcrição do áudio

Por acaso estou aqui numa praia ao pé de San Diego, em território norte-americano, território do Dylan, e estou a rir-me de satisfação por aquele antipático e caprichoso génio ter ganho o Prémio Nobel. Estou contente.

E estou a rir-me também um bocado de escárnio, por causa da controvérsia em torno do facto de ter sido um compositor, um escritor de canções, a ganhar o Nobel.

O que acontece é que a poesia é uma forma de arte. E a poesia cantada não deixa de ser poesia. A poesia do Dylan é extraordinária e eu gosto quando é cantada por ele. Mudou toda uma mentalidade e, de facto, o homem merece. Mas há quem não goste, por ter aquela voz bizarra, tipo instrumento de palheta dupla, entre o oboé e o fagote.

Mas a verdade é que ainda há poucos dias, quatro ou cinco, estive a ouvir o homem, e ele canta bem, canta afinado. Mas isso não interessa. É um poeta, um poeta que há muito tempo é estudado nas universidades aí pelo mundo fora, tal como Paul Simon e outros.

Sim senhor, Robert Zimmerman, mestre Dylan. Merece, sim senhor. A poesia dele merece esse prémio. Digo eu, humildemente, Jorge Palma.

“Parabéns Bob, vais ficar ainda mais empertigado”: além do áudio em cima, Jorge Palma também escreveu este texto em baixo

Daniel Kramer

Este ano, atribuíram ao Dylan o Prémio Nobel de Literatura, acabo de o saber dias depois de o ter visto atuar aqui, na Califórnia [Festival Desert Trip], muito pouco comunicativo como sempre.

Muito bem – e daí? O homem merece porque tem sabido elevar como ninguém a canção popular ao seu mais alto nível sociocultural e político, tendo ido buscar a sua força a sindicalistas como Woody Guthrie (seu émulo) e a sua aproximação a poetas da Beat Generation, que teve decerto bastante importância no conteúdo e na forma da sua escrita.

Esta distinção poderia ser dada a muitos outros, mas fico contente por ser Bob o escolhido este ano. Até sinto que tenho a minha comparticipação neste louvor, por desde sempre ter estudado a fundo a sua escrita, intuído o seu alcance e ajudado a difundir a sua obra. Parabéns Bob, vais ficar ainda mais empertigado e, eventualmente, aumentar o teu cachet...

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