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Nobel de Literatura: vai uma aposta?

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A medalha do Nobel

FOTO D.R.

No dia em que ficamos a saber quem ganha o Nobel de Literatura de 2016, o mundo das letras entrega-se às habituais especulações sobre os candidatos mais fortes. Se for confirmada a tendência para que o vencedor saia do lote de favoritos da casa de apostas Ladbrokes, o triunfo pode ir para o queniano Ngugi Wa Thiong'o ou para o poeta sírio Adónis. Mas há outsiders a ter em conta, como Don DeLillo e Javier Marías

Esta quinta-feira, pelas 12h de Lisboa, todas as dúvidas ficarão dissipadas. À porta de um dos salões da Academia Sueca, em Estocolmo, a secretária permanente Sara Danius anunciará ao mundo o novo Prémio Nobel de Literatura, pondo fim a semanas de especulação em revistas, sites e blogues literários.

Os 18 membros da Academia trabalham no mais absoluto secretismo, sem anúncio prévio de finalistas ou shortlists de candidatos (os documentos do processo só são tornados públicos ao fim de 50 anos, pelo que só em 2066 saberemos que nomes estiveram este ano efetivamente em cima da mesa).

Rumores desmentidos

O adiamento do anúncio, que costuma ser feito logo na primeira quinta-feira de outubro, é interpretado por muitos como sinal de que a decisão foi mais difícil este ano, ou de que não haveria consenso entre os académicos, mas um representante da Academia veio desmentir esses rumores.

O certo é que a suposta imprevisibilidade da atribuição do Nobel de Literatura está a ser posta em causa, nomeadamente por uma casa de apostas britânica, a Ladbrokes, que revelou recentemente uma análise aos dados relativos à última década. Desde 2006, o favorito da Ladbrokes, no momento em que as apostas são suspensas, acabou por ser o vencedor em quatro ocasiões: em 2008, ano do francês J.M.G. Le Clézio; em 2009, com a consagração da alemã Herta Müller; em 2011, quando o Nobel ficou em casa, nas mãos do poeta sueco Tomas Tranströmer; e em 2015, ao distinguir a jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich. Mais impressionante ainda é verificar que sete dos dez últimos vencedores estavam nos três primeiros lugares na lista da Ladbrokes, no momento em que as apostas foram suspensas.

Atenção ao “indicador Ladbrokes”...

Estes resultados levaram muitos analistas e comentadores a olhar para o 'indicador Ladbrokes' (chamemos-lhe assim) com mais atenção, monitorizando não apenas os nomes que se mantêm semanas a fio no topo das escolhas dos apostadores, mas também aqueles que registam descidas súbitas nas 'odds' (quanto maior a probabilidade de vitória, menor a 'odd' e o retorno da aposta). Segundo a referida análise de dados da Ladbrokes, em 91% dos casos, o eventual vencedor tinha uma 'odd' de 10 para um, ou menor. E quem ganha decresce, em média, as suas 'odds' cerca de 32% durante a semana anterior ao anúncio.

Tendo tudo isto em conta, a menos de 24 horas do anúncio do vencedor, o que podemos então concluir? Bom, se este tipo de análise fosse uma ciência exata, haveria desde já um vencedor: o queniano Ngugi Wai Thiong'o. Citado há vários anos nesta lista, ele ultrapassou durante esta semana o japonês Haruki Murakami, alcançando o topo ao baixar as suas 'odds' de 10/1 para 4/1 (uma descida superior a 32%).

O escritor queniano Ngugi Wai Thiong'o

O escritor queniano Ngugi Wai Thiong'o

Getty Images

A ajudar às suas pretensões, está ainda o facto de o Nobel não ser atribuído a um escritor africano negro há precisamente três décadas (o último foi o nigeriano Wole Soyinka, em 1986). Bastante razoáveis são também as hipóteses do poeta sírio Adónis, um eterno favorito, que volta a estar no top 3, e que pode beneficiar do impacto da situação vivida atualmente no seu país. As decisões da Academia Sueca têm muitas vezes uma leitura política, ao abrigo da perspetiva humanista explicitada por Alfred Nobel no seu testamento. Quanto a Murakami, é muito improvável que venha a ser distinguido, por falta de perfil. O facto de ser presença regular no topo da lista de apostas diz mais da abnegação dos seus admiradores (que investem em massa no japonês) do que das reais possibilidades de receber o prémio das mãos do rei da Suécia.

O poeta sírio Ali Ahmad Said Esber, mais conhecido pelo seu pseudónimo, Adonis

O poeta sírio Ali Ahmad Said Esber, mais conhecido pelo seu pseudónimo, Adonis

Getty Images

Em muitos casos, o vencedor acaba por ser um 'outsider' que se destaca na reta final. Convém por isso olhar para aqueles nomes que repentinamente disparam, emergindo dos confins da lista para os primeiros lugares. É o caso de Don DeLillo, o grande romancista americano, que acaba de ver publicada em Portugal a sua obra mais recente (“Zero K”, edição da Sextante). Em pouco tempo, a sua 'odd' passou de 66/1 para 14/1.

O norte-americano Don DeLillo

O norte-americano Don DeLillo

Getty Images

Da mesma forma, o espanhol Javier Marías, um dos maiores escritores vivos de língua castelhana, passou de 66/1 para 33/1, e depois para 16/1. Tanto um como o outro são nomes maiores. E podem pôr fim a longos jejuns das respetivas literaturas. O último Nobel para os EUA foi em 1993 (Toni Morrison). O último para Espanha remonta a 1977 (Vicente Aleixandre).

O espanhol Javier Marías

O espanhol Javier Marías

Getty Images

Apesar da consistência dos palpites, nada garante que os académicos suecos não se decidam por um autor obscuro, ou mesmo desconhecido, de uma literatura marginal. Já aconteceu várias vezes. Pode perfeitamente acontecer de novo. Esta quinta-feira, ao meio-dia em ponto, com transmissão em direto pela internet, que pode seguir AQUI (www.nobelprize.org), ficaremos a saber.