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“Estou contente, triste, para cima, em baixo, dentro, fora, lá no céu e cá nas profundezas da terra”: Dylan, por Pedro Mexia

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A entrevista pessoal é um género jornalístico que serve de algum modo para perguntar “quem é você?”. E isso não se pode perguntar a Dylan. Foi o que aprendemos há menos de um mês, num texto que Pedro Mexia escreveu para a revista E do Expresso de 24 de setembro. Agora que Dylan é Nobel, temos de regressar ao que Mexia escreveu

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Bob Dylan deu muitas entrevistas no último meio século, mas não é um entrevistado fácil. Entre outras embirrações, não gosta de confirmar factos, esclarecer mitos, entrar em polémicas, distribuir opiniões avulsas ou fazer-se amado. A entrevista pessoal é um género jornalístico que serve de algum modo para perguntar: “Quem é você?” E isso não se pode perguntar a Dylan. Ele não está sequer preocupado em usar a entrevista como reposição da verdade: “Ninguém me conhece. O que é que as pessoas realmente sabem? Que o nome do meu pai é Zimmerman e que a família da minha mãe é de classe média? Não vou andar por aí a dizer às pessoas que isso é falso... Não vou estar a encobrir o que quer que tenha feito. Não vou voltar atrás com coisa nenhuma, nenhuma declaração nem nada do que tenha feito... Já desisti de tentar dizer às pessoas que estão enganadas no que pensam sobre seja o que for, sobre o mundo, sobre mim, sobre qualquer coisa.”

É conhecido o vasto manancial bibliográfico a que se chama ‘dylanologia’ e que vai da biografia à reportagem, das histórias culturais às análises textuais; mas a pessoa a quem tudo isso menos interessa é ao próprio Dylan. Em conversa com um entrevistador, pôs tudo em pratos limpos: “Não sei se pensa que estou a brincar ou se pensa que é uma fachada. Mas eu honestamente não quero saber — com franqueza, não me interessa mesmo nada — o que as pessoas dizem acerca de mim. Não me importa o que as pessoas pensam sobre mim. Não me importa o que as pessoas sabem sobre mim.” Mas, inquiriu o jornalista, podemos perguntar alguma coisa a Dylan? Ele respondeu: “Não pode perguntar-me como é que durmo. Não pode perguntar-me como é que aguento e não pode perguntar-se o que é que eu acho que ando cá a fazer. Tirando isso, vamos entender-nos bem.” Mas tirar isso é talvez tirar tudo. Talvez não seja indispensável saber como é que ele dorme, como é que ele vive, mas, que diabo, nós queremos que ele diga o que anda cá a fazer, o que andamos cá a fazer. Mas isso ele não aceita. Não por incomunicabilidade ou niilismo, mas por um misto de impaciência e delicadeza: “Não sou pessimista. Se fosse pessimista, nem dizia nada, ficava só no meu canto. Uma coisa que nunca fiz e que nunca vou fazer é impingir às pessoas os meus estados de espírito.” O que nos oferece é mais importante do que isso: imagens, ironias, enigmas.

Um bom exemplo é o “senhor Jones”. Todos nós, os que professam o ‘dylanismo’, ganhámos forças em dias maus detestando uma personagem da canção ‘Ballad of a Thin Man’, um tal Mister Jones, que representa toda a gente que não compreende, que nos impede, que prega sermões, todos os empatas, os fariseus, os contentinhos. Um jornalista perguntou: quem é Mr. Jones? E Dylan só pôde responder isto: “Posso dizer-lhe quem é o Mr. Jones na minha vida, mas, quer dizer, toda a gente tem os seus Mr. Jones, por isso não posso dizer que seja a mesma pessoa para toda a gente.” Dylan deixa as interpretações para os intérpretes e mantém tudo em aberto, como um bom poeta. Mas pede que não usem essa palavra: “Acho que um poeta é alguém que nunca diria de si mesmo que é um poeta... Uma pessoa capaz de dizer que é um poeta simplesmente não pode ser um poeta... Quando as pessoas me chamam um poeta, eu digo: ‘Oh, fixe, que fixe chamaram-me um poeta!’ Mas não me adianta nada. Podem ter a certeza disso. Não fico mais feliz por causa disso.”

Todas estas citações, sarcásticas e maduras, são de uma entrevista que Dylan deu em 1966, aos 25 anos. Já nessa altura estava cansado das patetices dos seus admiradores e dos seus detractores. Quem fosse capaz de o seguir que o seguisse, que continuasse a segui-lo, de baladeiro audaz, trovador esquivo, Rimbaud automático e repórter satírico a cristão born again, gentleman apocalíptico, conservador do museu da canção. Em 1976, aos 35 anos, Dylan, que ainda não tinha sido todos esses Dylans, deu uma explicação astrológica faceta: “O facto de o meu signo ser Gémeos explica muita coisa, acho eu. Leva-me a extremos. Nunca estou bem equilibrado, bem a meio. Vou de um lado ao outro sem ficar em lado nenhum muito tempo. Estou contente, triste, para cima, em baixo, dentro, fora, lá no céu e cá nas profundezas da terra. Não lhe posso dizer como é que o Bob Dylan viveu a sua vida.” Em 2016, com 75 anos, podia reafirmar, com as mesmas palavras, o que disse aos 25 ou aos 35: perguntem-lhe tudo menos quem é Bob Dylan.