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Dario Fo, o Nobel que ‘pediu desculpa’ a Saramago

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AFP

O satirista italiano Dario Fo, falecido esta quinta-feira aos 90 anos, era um dos autores teatrais mais populares do mundo

Luís M. Faria

Jornalista

“Extremamente afortunada”. Era assim que Dario Fo descrevia a sua vida. O ator, dramaturgo, encenador e ativista italiano morreu esta manhã com 90 anos em Milão. Quando recebeu o Nobel da Literatura em 1997, telefonou a José Saramago a dizer, talvez como quem pede desculpa, que lhe tinha “roubado” o prémio (os dois eram finalistas nesse ano; Saramago venceria em 1998).

Nessa altura muita gente em Itália se indignou, pois Fo estava longe de ser uma figura consensual. A Igreja Católica, em especial, não perdoava a abordagem satírica desse ateu confesso. Na sua justificação, a Academia sueca explicou que o distinguia “porque, seguindo a tradição dos bobos medievais, ele zomba do poder restituindo a dignidade aos oprimidos".

Filho de um chefe de estação ferroviária e de uma camponesa, Fo nasceu a 24 de março de 1926 em Varese. A família mudou-se várias vezes enquanto ele crescia, e chegou a viver em Porto Valtravaglia, no Norte de Itália, onde havia uma colónia de sopradores de vidro, muitos dos quais morriam ou enlouqueciam prematuramente. A variedade de loucos existentes na cidade tê-lo-á marcado para sempre, e à sua obra.

Durante a guerra, Fo inscreveu-se no exército fascista. Explicou mais tarde que o fez para disfarçar o facto de a sua família colaborar com a resistência. Ele o pai salvaram refugiados, soldados aliados e cientistas, disfarçando-os de camponeses e ajudando-nos a passar para a Suíça. Finda a guerra, Fo retomou os seus estudos na Academia de Brera, em Milão, e estudou arquitetura. Mas teve um colapso nervoso e não concluiu o curso. Em vez disso, dedicou-se à pintura e ao teatro, começando a apresentar monólogos no estilo improvisado a que mais tarde ficaria associado.

“Não se paga não se paga”

Convidado a atuar num espetáculo de variedades em 1950, desenvolveu o seu estilo particular de humor, com efeito imediato sobre o público. Seguiu-se um convite da RAI, a emissora pública italiana, para apresentar uma comédia a solo aos sábados. Fo aproveitou para criar 18 monólogos satíricos, uns sobre a Bíblia, outros com personagens de Shakespeare, que se revelaram suficientemente escandalosos para o espetáculo ser cancelado.

Ele passou-o então para o teatro ao vivo. Não muito depois, iniciou a sua atividade com autor de canções. E teve o encontro mais decisivo da sua vida ao conhecer a atriz Franca Rame, de uma família teatral, com quem se casou em 1954.

Ao longo das décadas seguintes, trabalhou em cinema e em programas televisivos, bem como em companhias teatrais por ele criadas. Os eventos de maio de 1968 levaram-no a fundar um coletivo teatral, Associazione Nuova Scena, que atuava em centros comunitários e outros lugares com a ajuda do Partido Comunista. Nunca se filiou pessoalmente, mas muitas das suas peças têm um forte conteúdo político, até ao fim da sua carreira. Algumas das mais conhecidas levam por título “Mistério Buffo”, “Morte acidental de um anarquista”, “Não se paga não se paga”.

Boicotado na RAI e impedido de visitar os EUA durante anos por causa da sua ligação ao Partido Comunista, Fo chegou a candidatar-se a presidente da Câmara de Milão em 2005, ficando em segundo lugar. O seu envolvimento com o Movimento 5 Estrelas, de Beppe Grillo, tornou-se próximo na velhice. Mas Fo praticou o seu estilo inconfundível de humor, que não era redutível à mera política. Uma cena das suas peças, por exemplo, mostra um ladrão que está a roubar uma casa quando o telefone toca. Ele atende, e diz irritado à mulher para não lhe telefonar quando ele está no trabalho.

A sonhar com a mulher falecida

Ao receber o Nobel em 1997, fez uma homenagem à mulher: “Permitam-me que dedique uma boa metade da medalha que me oferecem a Franca. Franca Rame, a minha companheira na vida e na arte que vocês, membros da Academia, recordam nas motivações para o prémio como atriz e autora, que comigo escreveu mais que um texto do nosso teatro”.

Rame morreu em 2013. Numa entrevista do ano passado, Fo disse que continuava a sonhar com ela: “Sonhos sempre diferentes. Sonho com ela em rapariga. Ou que um espetáculo saltou e estudamos uma solução alternativa. Ou a fazermos belas viagens, mas a seguir já não a encontro. Procuro-a e não está. Infelizmente, funciona sempre assim: Franca aparece e no final desaparece. Um tormento trágico que me faz acordar com dor: Franca morreu”.

Agora foi a vez dele. Tinha saído recentemente do hospital após um internamento de doze dias, por problemas respiratórios. O primeiro-ministro italiano Matteo Renzi já o saudou: «Con Dario Fo, a Itália perde um dos grandes protagonistas do teatro, da cultura, da vida civil do nosso país. A sua sátira, a busca, o trabalho na cena, a sua poliédrica atividade artística permanecem na herança de um grande italiano no mundo”.