Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Bezegol. Retrato do artista sem norma que chamou Rui Veloso para fazer nascer “Maria”

  • 333

Rui Veloso e Bezegol

DR

Aos 43 anos, Bezegol já não é o adolescente que os pais diziam ter voz de “cana rachada”. Humilde e desconcertante fala, em entrevista ao Expresso, das memórias do bairro, do seu quinto álbum e da colaboração com Rui Veloso

André Manuel Correia

Traçar o retrato de Bezegol, um artista que recusa todos os rótulos, em constante “refresh” e para quem “a ausência de fórmulas tem esultado”, é uma tarefa hercúlea. No seu quinto álbum a que chamou “Sete” – divido em três partes que se somam aos quatros registos discográficos já editados – conta com várias participações de outros músicos e amigos, entre os quais Rui Veloso. Juntos fizeram nascer “Maria”, ‘single’ que no espaço de um mês já conta com mais de 400 mil visualizações no Youtube.

Reggae. Funk. Hip-hop. São algumas categorias em que o tentam encaixar, não fossem aparecer pelo meio melodias de guitarra portuguesa e outros elementos que impedem uma categorização. A sua sonoridade passa por muitos estilos, mas não estaciona em nenhum. “Se amanhã me apetecer fazer um álbum com oito fados e dois raps, faço-o”, atira num registo sempre irreverente e descontraído. Bezegol é assim: uma encruzilhada de influências e ideias espontâneas, onde nada é premeditado, tal como tudo aquilo que conseguiu ao longo da carreira.

“Adoro fugir à norma”, confessa o músico portuense, que abriu as portas de sua casa ao Expresso para falar do seu novo álbum. Ainda não foi lançado. Ou melhor, tem vindo a ser disponibilizado. Na era da internet, explica o artista, “deixou de fazer sentido reter os temas em estúdio até todo o processo estar concluído”. Partilhar ‘online’, de forma gradual, as músicas com o público vasto e heterogéneo que conquistou ao longo dos anos é algo que lhe agrada.

“Lá vem aí o Bezegol”, o “puto” com voz de “cana rachada”

Nasceu no bairro da Pasteleira, no Porto, e a humildade ainda está bem patente no seu discurso, apesar de crítico e assertivo. Aos 43 anos, tem opiniões bem vincadas sobre tudo e faz da denúncia do “Sistema” uma marca identitária do seu trabalho. Não se considera um cantor de intervenção, embora tenha crescido a ouvir Zeca Afonso, Fausto ou José Mário Branco. “São gajos que eu admiro e nunca precisei de os ver em revistas cor-de-rosa”, frisa.

Nunca frequentou um conservatório ou uma escola de música. Em casa diziam que o “puto” tinha voz de “cana rachada”, ao passo que os amigos auguravam que iria ser “o gajo mais pesado da rua”. O estranho nome pelo qual é conhecido surgiu no início da adolescência. Com12 ou 13 anos ouvia os mais velhos a falar sobre o ‘bezegol’ [haxixe] e aquilo despertou a sua curiosidade. “Eu via-os falar daquilo com muito interesse. Então comecei a perguntar a toda a gente quem era o Bezegol. ‘És tu o Bezegol? Não? És tu?'”. E assim ficou o nome. Quando passava na rua, todos diziam: “Lá vem aí o Bezegol!”

E vejam onde ele chegou, 30 anos depois e já com um filho maior de idade. Quatro álbuns editados. Conquistou o público e a crítica com um estilo único. Colaborou com algumas das pessoas que muito admira, como Tó Trips [guitarrista dos Dead Combo] ou o alemão Teka que, apesar de não perceber as letras em português, dizia constantemente que o trabalho estava “fucking awesome”. Mais recentemente, partilhou o estúdio com o saxofonista Nanã Sousa Dias e com aquele que é conhecido como o pai do rock em Portugal. “Se há uns anos me perguntassem, eu não acreditava que viria a colaborar com o Rui Veloso”, reconhece.

Conheceram-se pessoalmente em 2013, já depois de Bezegol ter editado o quarto disco de originais, intitulado “S.A.C.A.N.A.”, em conjunto com a sua “Rude Bwoy Banda”. Um amigo em comum contou-lhe que o Rui Veloso tinha gostado do álbum e que andava com ele no carro. Desde essa altura começaram a falar sobre a possibilidade de irem juntos para estúdio trabalhar em algo novo.

“Não pensámos se íamos fazer um reggae, um funk ou uma coisa mais ‘rockada’. À medida que fomos trabalhando, a ideia foi-se desenvolvendo e foi tomando uma determinada direção”, explica Bezegol. “Teve mais a ver com o tentar agarrar o estilo do Veloso e fazer convergir isso com o estilo que eu e a minha banda temos”, acrescenta acerca de um processo que “não foi atropelado” e no qual a experiência de Rui Veloso “puxou ainda mais” pelo som.

Se um dia se cansar de “bater no ceguinho”, volta para as obras

Bezegol não conta com uma máquina propagandística, uma ‘major label’ que lhe dê uma maior exposição mediática, e isso ajuda a explicar os cinco concertos que deu durante este ano. “Nunca gostei de impingir ou de bombardear as pessoas com o nosso som. E é nesse sentido que fico contente com as visualizações que estamos a ter, porque não estão a ser forçadas à audiência”, vinca.

DR

A mercantilização da música aborrece-o. “Nunca me quis tornar mediático por ter comprado um carro ou porque me chateei com este ou aquele. Se um artista aparecer muitas vezes, as pessoas depois já nem querem saber se ele é bom ou mau e acabam por comprar aquilo que ele está a tentar vender”, explica. “Tento não pertencer à onda que olha para o público como um target”, assegura Bezegol.

“Não me considero um cantor de intervenção. Acho que às vezes falta-nos apenas acordar um pouco para as coisas”, afirma. “Estamos a viver esta cultura do ‘Calcitrin’ e do ‘Cogumelo do Tempo’, em que o dinheiro compra a informação e a sobrepõe com conteúdos ignóbeis. É esse sistema que me chateia, porque foi ele que criou esta ignorância geral e faz com que andemos adormecidos”, reforça o músico.

Se um dia esgotar a sua mensagem e começar a “bater no ceguinho”, diz que vai para as obras outra vez trabalhar como soldador, profissão que desempenhou durante dez anos. “Ainda no mês passado estive no Jamor a soldar. São trabalhos em que pagam bem e, ao mesmo tempo, este ano dei pouquíssimos concertos. Isso não dava sequer o ordenado mínimo”, conta. “Sempre gostei de ter mais do que uma opção. Quando era puto andava sempre em cima das árvores, por isso é que hoje sou bom em vários ramos”, brinca Bezegol.

Entre um cigarro e outro, uma hora de conversa esfuma-se e o “Tempo” passa célere. Reconhece que um dia gostava de colaborar com Fausto, mas por enquanto está apenas empenhado em concluir este “Sete”, que lhe dá sorte e muito trabalho. Das três partes que compõem o álbum, ainda falta disponibilizar a última, para depois reunir esse tríptico e fazer uma edição única em vinil.