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Escritaria 2016: Uma cidade inteira para Alice Vieira

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Alice Vieira e Vítor de Sousa, na inauguração da escultura dedicada à escritora, numa das entradas de Penafiel

Em mais uma edição do festival Escritaria, Penafiel acolheu durante quatro dias a escritora Alice Vieira. Homenageou-a, discutiu a obra, espalhou as suas frases pelas ruas e deixou-a exausta, mas “comovida e feliz”

Alice, a personagem inventada por Lewis Carroll, atravessou um dia o espelho, depois de se ter perdido em aventuras no País das Maravilhas. Em vez de atravessar o espelho, Alice Vieira, uma das mais prolíficas e premiadas autoras portuguesas de literatura infanto-juvenil, encontrou-o em quase todos os recantos de Penafiel.

Em painéis na rua, em cartazes suspensos, nas montras das lojas, o seu rosto tornou-se omnipresente, bem como algumas das suas frases. “Isto é algo de extraordinário”, admitiu no sábado à tarde. “Apanharam-me desprevenida com tanta atenção e tanto afecto. Tropeço em mim por toda a parte. E ao andar na rua sinto-me, sei lá, o Presidente da República.” Para logo rematar, sorrindo: “Ou a Rainha de Inglaterra.”

Sempre disponível para o contacto directo com a população local, que acorreu em grande número aos debates, exposições e récitas teatrais (levadas a cabo pelos alunos do concelho), Alice Vieira confessou-se exausta ao fim de cada dia, “como se as jornadas tivessem 48 horas”, mas “muito comovida e feliz” por assistir a tantas demonstrações de interesse e admiração pelo seu trabalho.

Sexta-feira, na presença do Presidente da Câmara, Antonino de Sousa, assistiu ao descerramento de uma escultura com a sua efígie, junto a uma das principais entradas da cidade, junto a um centro escolar – “utilizado por crianças, que são os principais leitores de Alice Vieira”, fez questão de lembrar o autarca.

Os momentos altos dos dois primeiros dias da Escritaria foram as visitas às escolas e a inauguração dos vários espaços de arte pública dedicados à autora. No muro amarelo de um palacete, passou a constar uma frase, escrita em caracteres metálicos: “Há cheiros da infância que não morrem nunca, nem sequer envelhecem como a nossa pele.”

Ao contrário das restantes obras expostas, esta citação permanecerá no corpo da cidade, como uma tatuagem literária, à semelhança das frases deixadas pelos oito anteriores homenageados pela Escritaria: Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge e Mário Cláudio.

Sexta-feira à noite, foi lançado o mais recente livro de Alice Vieira, “Diário de um Adolescente na Lisboa de 1910” (Texto Editores), exemplo perfeito da sua escrita fluida, em que a História com ‘h’ maiúsculo, neste caso os últimos meses da monarquia, com ameaças quase diárias de revolução, se cruzam com a vida familiar, os dilemas juvenis e os espantos de um rapazinho de 14 anos, a quem o pai, livreiro e republicano, oferece um diário, incentivando-o a registar os seus dias, datando as prosas, porque “sem a data, nunca saberás quando as coisas aconteceram”.

A apresentadora do livro, Sílvia Alves, uma contadora de histórias a quem Alice Vieira chama “a minha bruxinha”, esteve também presente na conferência sobre a vida e obra da homenageada, que decorreu no Museu Municipal de Penafiel, na tarde de sábado. A sessão abriu com uma mensagem do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, que não pôde estar presente mas destacou a pertinência da homenagem a “uma grande amiga”, de que “todos somos devedores”.

Vítor de Sousa, que tinha um comboio para apanhar, pediu para abrir o período de intervenções e falou do hábito de trocar postais com Alice, lendo de seguida alguns dos seus poemas, bem como de outros poetas que ambos admiram (Tolentino Mendonça, Ruy Belo e Mário Castrim).

Carla Nazareth, uma das ilustradoras com quem Alice Vieira mais vezes trabalhou, falou da “facilidade” desse trabalho e recorreu às palavras da escritora para descrever a sua viagem até Penafiel.

Numa intervenção humorística, Fernando Alvim exaltou a figura de uma escritora que marcou a sua geração, considerando que o nome de Alice Vieira devia ficar perpetuado em Penafiel, não apenas com uma estátua, mas também no nome do estádio de futebol ou de um bolo da doçaria local.

Num tom mais sério, Leonor Riscado, professora universitária e especialista em literatura para a infância, destacou a qualidade da prosa “sem gelhas” de Alice Vieira, o talento, o rigor e a inteligência emocional das suas obras, bem como o seu trabalho excepcional enquanto mediadora de leitura, “criando sucessivas gerações de leitores, da vida e para a vida”.

Por seu lado, o realizador Jorge Paixão da Costa mostrou-se “impressionadíssimo” com a dimensão cultural da Escritaria, dizendo que se devia fazer um festival com características semelhantes, mas para a área do cinema e audiovisual. Além de recordar histórias em torno do seu projecto falhado de adaptação do livro “Rosa, Minha Irmã Rosa” a série televisiva, falou ainda como amigo próximo, afirmando que Alice Vieira é “um potentado da vontade de viver”.

Dessa “vontade de viver”, que já a levou a vencer sucessivos problemas graves de saúde, Alice Vieira nunca abdicou. E por isso gosta tanto de se encontrar com os leitores e de falar com eles sobre os seus livros. Ou de falar apenas, pelo puro prazer da conversa. “Conversarmos uns com os outros parece ser agora um desporto fora de moda”, lembrou. Mas não em Penafiel. Não na Escritaria, que fechou a sua nona edição justamente com uma longa conversa entre a homenageada e o jornalista Luís Osório.