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O tom maior 
de Carminho

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Beleza. Carminho no pontão da lagoa Rodrigo de Freitas, onde, na década de 40/50, quando morava na vizinha Ipanema, Tom Jobim costumava nadar

rui duarte silva

A cantora portuguesa abraça o mestre da bossa nova num álbum dedicado à obra de Tom Jobim e é acolhida pela trupe dos músicos brasileiros

Plínio Fraga (texto) e Rui Duarte Silva (fotos), no Rio de Janeiro

As cantoras Carminho e Marisa Monte saíram do estúdio com sorrisos de cumplicidade. Sentaram-se lado a lado no sofá de estofo vermelho. A casa ampla no Jardim Botânico, bairro do Rio de Janeiro encravado numa montanha coberta pela Mata Atlântica, abriga o estúdio Biscoito Fino. É o preferido de artistas brasileiros como Chico Buarque e Maria Bethânia.

Carminho e Marisa pareciam abençoadas, leves, extasiadas. Após três horas de parceria, intimidade e entendimento pleno, concluíram a gravação de ‘Estrada do Sol’ — uma das 14 faixas do álbum “Carminho Canta Tom Jobim”.

As duas tinham a uni-las naquele instante o silêncio da obrigação cumprida. De costas para as cantoras, o engenheiro de som Gabriel Pinheiro não percebeu que elas relaxavam no sofá a dois metros dele. Decidiu reproduzir, na potente mesa de som do estúdio Biscoito Fino, a versão de Carminho para ‘Sabiá’, parceria de Tom Jobim e Chico Buarque, uma das canções mais fortes do novo disco.

A voz poderosa preencheu todo o espaço. A interpretação é dramática, como exige a canção, que fala da dor do exílio. Marisa Monte fechou os olhos, como se assim pudesse concentrar os cinco sentidos na vivência daqueles minutos. Sem se voltar para Marisa, Carminho também cerrou as pálpebras, como se estivesse irmanada em pensamento com ela. “Vou voltar, sei que ainda vou voltar para o meu lugar”, cantava Carminho. Marisa apoiou o queixo com a mão direita e sorriu com charme, ainda de olhos fechados. Permaneceu assim por quatro minutos, imersa na interpretação da cantora portuguesa. No final, suspirou, abriu os olhos e disse, baixinho, apenas uma palavra em direção a Carminho: “Lindo!”

A primeira semana de setembro marcou o final das gravações do álbum de Carminho, integralmente composto de canções do maestro, compositor e cantor brasileiro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994), a ser lançado no fim de novembro em Portugal.

São 14 faixas, sendo que três delas contam com as participações especiais de Marisa Monte, Chico Buarque e Maria Bethânia. Carminho é acompanhada no álbum por integrantes da Banda Nova. Foi o último grupo a tocar com Tom Jobim, composto por Paulo Jobim (violão e direção musical), Daniel Jobim (piano), Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Paulo e Daniel são filho e neto de Tom Jobim, respetivamente.

Aos 66 anos, Paulo Jobim atuou como músico e arranjador em discos de Milton Nascimento, Chico Buarque, Sarah Vaughan, Astrud Gilberto e Lisa Ono. Entre 1985 e 1994, cuidou dos arranjos dos discos do pai e acompanhou-o em espetáculos. Daniel, de 43 anos, tinha 21 quando o avô morreu. Participou na produção do seu último disco e tornou-se integrante do Quarteto Jobim Morelenbaum, que sucedeu à Banda Nova após a morte de Tom. Parceiro e amigo de Sean Lennon no tempo em que viveu em Nova Iorque, sempre namorou com o pop, mas estudou com afinco e exibe memória prodigiosa sobre as mais de 300 canções do avô.

Coube a Paulo formalizar o convite para que Carminho abraçasse o repertório de Tom Jobim. Estavam num jantar em casa do empresário Vinicius França, que cuida da carreira de nomes como Chico Buarque, quando a família Jobim ouviu Carminho interpretar canções de Tom, a partir de um songbook com as partituras e letras do maestro.

O projeto desenvolveu-se até Paulo Jobim apresentar a Carminho uma lista de canções de Tom. Algumas ela nem sequer conhecia, esquecidas no meio do espólio de antigas parcerias. “Convidaram-me a fazer parte deste universo e a escolher o repertório que eu queria cantar. Dando-me total liberdade. Escolher o que canto é algo que se impõe antes de tudo. Essa liberdade me foi dada generosamente. Não teria de ser assim. Não teria. Mas também não consigo cantar aquilo que não entendo. Eles deixaram o repertório em aberto”, recordou-se ela.

O critério foi, primeiro de tudo, escolher canções que Carminho gostasse muito de cantar. “Canções que respeitassem o meu sotaque de Portugal. A naturalidade teria de ser uma obrigatoriedade. Sinto-me uma intérprete, e eu tinha de interpretar as canções”, explicou.

Um dos critérios de Carminho foi excluir canções em que os versos usassem o pronome de tratamento ‘você’. “Tornava-se impossível a missão de interpretar, se eu não usasse as palavras que a música utilizaria, como ‘você’. Nós não dizemos ‘você’. Nós dizemos ‘tu’, ‘tu queres’, com o pronome conjugado com a sua figura verbal definida. Por isso teriam de ser canções na segunda pessoa. Ou descritivas, ou com outras temáticas.”

Carminho explicou a restrição ao ‘você’ brasileiro. “Fica uma coisa fantasiada. Não é natural. Fica meio caricaturada, como se quisesse fazer uma caricatura da canção brasileira. Quero que as pessoas, mesmo aquela única pessoa que vive na terrinha, numa aldeia, e não conhece a obra de Tom Jobim, pensem que é uma canção natural. Não que é uma canção brasileira cantada no português de Portugal.”

Em dois momentos, Carminho driblou a restrição que ela própria se impôs. Em ‘Retrato em Branco e Preto’, parceria de Tom com Chico Buarque, pediu que o próprio autor fizesse pequenas alterações nos versos para que ficassem na segunda pessoa. “Era uma das primeiras canções que eu tinha na cabeça. Tinha na ideia que não havia nenhum ‘você’ na letra. Quando comecei a reler, achei um ‘você’ e a risquei da lista. Arrependi-me. Pedi então ao Chico para fazer a adaptação. Chico aceitou. Foi um daqueles pedidos loucos. Se ele dissesse não, aceitaria, claramente. Mas decidi arriscar: ‘Chico, dá para trocar esse ‘você’ por ‘tu’?’ Ele trocou.” E Carminho canta: “Eu trago o peito tão marcado de lembranças do passado e sabes a razão.”

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O segundo drible na própria regra foi com ‘Por Causa de Você’, parceria de Tom e Dolores Duran. Carminho gravou a versão em inglês, com o título ‘Don’t Ever Go Away’, lançada em 1965 por Frank Sinatra. “Tom Jobim e Sinatra estão na minha memória de infância. Tenho um vinil do Tom Jobim com o Sinatra. Foi numa altura do Jobim que me marcou muito. Esta canção é uma das minhas favoritas. Como tinha o ‘você’ em ‘Por Causa de Você’, eu retirei a canção. Fiquei tão triste que fui buscar a versão em inglês. Driblei-me a mim própria. É para ver como estou ficando carioca”, divertiu-se ao explicar.

Carminho evitou limitar o novo álbum a um trabalho exclusivamente bossa novista. “Tom é Tom. Não dá para ser engavetado numa etiqueta musical. Não é jazz, não é música brasileira. É Tom. Não é, mas é, sendo enfim tudo isso. É um expoente máximo da música brasileira. Não existe uma gaveta suficientemente plural para justificar ele estar lá confinado.”

A cantora revelou uma das facetas que mais a atraem na música brasileira. “Para os brasileiros, até a tristeza é em tom maior. Para os portugueses, até a alegria é em tom menor. Estou a falar da personalidade da música. O fado é mais melancólico. Mesmo falando de alegrias, é em tom menor. Os brasileiros, mesmo falando de tristezas, cantam em tom maior. Grandes tristezas em tom maior. E sempre com um sorriso, apesar do verso triste.”

AOS PÉS DO REDENTOR

Um ano depois do encontro com a família Jobim, em 5 de setembro passado, Carminho desembarcou no Rio de Janeiro. Havia atuado em França com António Zambujo no fim de semana, passara algumas poucas horas em Lisboa e correra de volta para o aeroporto. As viagens ao Brasil tornaram-se habituais para a cantora desde que aportou no Rio pela primeira vez, em 2004, a bordo de um cruzeiro para o qual fora contratada para cantar fados. Tinha 19 anos. A sua primeira impressão da cidade veio da baía de Guanabara, onde o morro Cara de Cão a saudou com a sua imponência, exatamente como fizera em 1565 com os primeiros portugueses que lá chegaram.

Na terra firme do Rio de Janeiro, Carminho tomou a cidade para si. Ganhou críticas elogiosas com as suas atuações no espetáculo “Alma”, em 2012, tornando-se então mais uma carioca por adoção. Carioca daquele tipo que conhece o garçom do bar Jobi, dá dicas sobre passeios invulgares como visitar o mirante do Leblon e indicar “um lugar giro para o pequeno-almoço”, como a escola de artes visuais do Parque Lage. Carioca descolada, como se define por aqui.

Pode dizer-se que Carminho recebeu o seu passaporte carioca da atriz Fernanda Montenegro. Depois de assistir à sua versão de ‘Sabiá’ (Tom Jobim/Chico Buarque), Fernanda foi até ao camarim da casa de espetáculos em que Carminho se apresentava. Pediu para conhecê-la. “Sua interpretação devolveu dramaticidade à canção. Dramaticidade que está presente no poema que a originou”, disse Fernanda.

‘Sabiá’ foi inspirada no poema ‘Canção do Exílio’, escrito em 1843 pelo poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864). O que poucos sabem é que o poema foi escrito na temporada que Gonçalves Dias passou na Universidade de Coimbra, quando amargou sentimentos de solidão e exílio. Assim, a interpretação de Carminho insere na canção o ambiente português em que nasceu o poema. Carminho pediu a Fernanda Montenegro que interpretasse ‘Canção do Exílio’, no clipe de divulgação de ‘Sabiá’, para o lançamento do disco.

CHICO E BETHÂNIA

Carminho precisava de gravar quatro canções para terminar o disco. Em viagens anteriores ao Rio, colocara voz em outras dez. Conseguira tirar Chico Buarque, de 72 anos, do seu refúgio para que cantasse com ela ‘Falando de Amor’. Tom a compôs em 1979 e escondeu uma referência indireta ao amigo Chico num dos versos: “Quando passas, tão bonita, nessa rua banhada de sol, minha alma segue aflita e eu me esqueço até do futebol.”

Tom divertia-se em apontar o futebol como razão para Chico, aficionado pelo desporto, fugir dos seus compromissos. Numa visita ao Brasil, em 1988, o músico argentino Astor Piazzolla preparou um arranjo que imaginara que poderia ter versos de Chico Buarque. No dia marcado para a gravação, Chico não conseguira sequer um esboço para a letra. Coube a Tom aplacar a fúria de Piazzolla: “Ele é assim mesmo. Vai jogar futebol e deixa a gente sem música.”

Na gravação com Carminho, Chico comentou, entre risos, os versos de Tom. “Para ele, era fácil esquecer-se do futebol. Ele nunca assistiu a uma partida inteira de futebol!”

“Chico é indescritível. É um artista que não tem tamanho, em todas as vertentes, porque é um artista supercompleto. Um homem vivido, cheio de experiência. Tem uma forma, uma facilidade, um talento para explicar aos outros as tuas experiências e as dos outros. Por isso é que ele é o poeta das mulheres, a voz das mulheres. Porque ele entende aquelas experiências que as próprias mulheres não conseguem descrever”, elogiou Carminho.

A cantora portuguesa maravilhou-se com a simplicidade de Chico, com quem partilhou algumas atuações. Uma delas foi num dos palcos com a vista mais deslumbrante que conhecera. Em maio de 2016, Chico levou Carminho para participar num espetáculo surpresa em comemoração dos 75 anos do morro do Vidigal, favela que se ergueu nas encostas da Avenida Niemeyer, com vista para o mar de São Conrado e do Leblon, na zona sul do Rio. A apresentação não foi anunciada com antecedência, choveu e faltou a luz durante mais de uma hora. Tantos contratempos fizeram com que os moradores da comunidade pobre mal acreditassem quando ouviram João Bosco, Chico Buarque e Carminho cantando exclusivamente para eles.

“Chico tem uma clarividência e ao mesmo tempo uma suavidade no trato, uma tranquilidade, uma serenidade que passa às pessoas à sua volta, com um senso de humor incrível. É uma pessoa cheia de graça, que a mim me faz crer que só essas pessoas muito, muito talentosas, com essa grandiosidade, conseguem essa simplicidade. A simplicidade dos humildes, dos grandes, dos que são generosos. Ele deu-se a mim neste momento do show, como outros mais atrás, como quando gravou comigo ‘Carolina’”.

Outro momento que Carminho esperou com ansiedade foi ouvir a gravação que Maria Bethânia, de 70 anos, fizera para ‘Modinha’. “Essa canção é muito dramática. Podia ser um fado ou um tango. Acho que a leitura com a emissão portuguesa, com o sotaque e a intenção de uma cantora portuguesa, é completamente diferente da nossa. É sempre bom entender uma música de outra maneira”, disse Bethânia. Cada uma gravou a sua parte separadamente, sendo as interpretações depois mixadas. Carminho gravou primeiro e enviou-a para Bethânia. Dias depois, pôde ouvir a interpretação dela para os versos pujantes de Tom e Vinicius de Moraes (“Não pode mais meu coração viver assim dilacerado, escravizado a uma ilusão”).

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“Maravilhosa. É uma intérprete incrível, que dá às palavras aquilo que merecem. Intérprete de alma pura aberta, ferida aberta. Uma mulher que não tem medo das palavras, que não tem medo dos temas que canta. Talvez os temas tenham medo da intérprete que ela é, porque de facto se tornam pequenos para tanta emoção”, disse Carminho.

Em janeiro, Carminho participou num espetáculo com Maria Bethânia em favor da escola de samba Mangueira, que homenageou a cantora brasileira no Carnaval deste ano. “Tivemos a chance de partilhar alguns momentos juntas. É uma mulher intensa, o que fez com que me sentisse privilegiada, porque é assim que se aprende. Como no fado. É estar perto das pessoas que admiramos e que têm mais experiência que nós. É ficar observando um bocadinho para captar o porquê. Cada um tem uma sensibilidade. Eu tenho uma sensibilidade de intérprete. Vou olhar para coisas que vão ao encontro da necessidade que tenho de interpretar e de querer ser melhor”, rememorou Carminho.

OS DIAS DE GRAVAÇÃO

A viagem do começo de setembro emocionava Carminho por significar a conclusão do disco dedicado a Tom Jobim. A família do maestro recebeu-a num almoço caseiro, naquela segunda-feira de clima ameno no Rio, a deixar claro que, além de carioca, poderia também dizer-se jobiniana. Paulo Jobim e a mulher abriram as portas de casa e o baú com as partituras originais da obra de Tom. Paulo fez pessoalmente a revisão de todas as anotações do maestro para tocar cada canção como o pai havia criado.

Ao final da tarde, mesmo cansada após 11 horas de voo entre Lisboa e Rio, Carminho chegou alegre e animada à Rua Sarapuí, no Jardim Botânico, sede da gravadora Biscoito Fino. “Se eu não tiver saúde agora, vou ter quando?”, comentou, fazendo troça dos parcos 33 anos.

A casa da Sarapuí tem como atração as janelas. De quase todas pode ver-se o Cristo Redentor, amigavelmente de braços abertos, em cima. A região está tão em baixo de um dos braços do Redentor que um grupo de moradores do Jardim Botânico criou o bloco de Carnaval Sovaco de Cristo, uma referência geográfica galhofeira que o bairro assumiu para si.

O estúdio fica no pavimento térreo da casa, voltado para um jardim, com palmeiras e muitas plantas e flores. Uma área tão silenciosa que poderia até ser desnecessário que a porta do estúdio fosse fechada. Mas os técnicos de gravação são rigorosos e alertam que rondam por ali os mico-pretos, também conhecido como macacos-pregos, notórios ladrões de frutas, pães e pequenos objetos.

A porta fechou-se. Na antessala do estúdio, do qual se separa por vidros, está a imensa mesa de equalização e edição de som. Sentaram-se ao redor dela Carminho, Paulo e Daniel Jobim, o baterista Paulo Braga, o empresário Vinicius França e Paulo Miranda, da gravadora Warner Portugal. O engenheiro Gabriel Pinheiro colocou a gravação de ‘Modinha’, já com as vozes de Carminho e Bethânia mixadas, para a apreciação conjunta.

Carminho bateu palmas no final.

— Está lindo. Muito simples, mas lindo!

Daniel Jobim afirmou que tinha de fazer algumas correções e acréscimos no piano. Disse que deixou espaço para que Bethânia cantasse livremente e que pretendia agora fazer ajustes numa nova gravação. Voltou ao estúdio e reinterpretou ‘Modinha’ ampliando detalhes musicais, como uma sofisticada e curta citação a ‘Anos Dourados’, outra canção de Tom.

— Você pôde soltar mais o piano - comentou Carminho para Daniel. - Como o seu approach com Bethânia foi mais contido, o resultado final ficou dinâmico.

— Ficou dinâmico — concordou ele.

— Acho que ficou bonito.

Daniel insistiu em que queria fazer nova gravação, ainda para corrigir pequenos erros que identificara.

— Mas não precisas de refazer tudo. Podes corrigir na picagem — sugeriu Carminho.

Os brasileiros sorriram sem disfarce. Confusos à procura da palavra adequada para uma versão local de ‘picagem’. Montagem, corte, edição, sugeriram. No português do Brasil, picagem é o ato de picar, assim como em Portugal, mas ‘pica’ é mais comummente associada ao órgão sexual masculino.

— A picagem não é um termo ortodoxo aqui — percebeu Carminho.

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— O que é picagem? — perguntou Paulo Jobim.

— Picagem é para fazer um ‘consertinho’ na gravação — tentou explicar Carminho.

— É a edição — resumiu o engenheiro Gabriel.

— Editar, certamente — concordou Daniel. — É melhor do que mixar, que é a mistura.

Alguém explica que a picagem tem origem nos antigos gravadores de rolo, quando os cortes e a edição eram feitos picando-se e remendando-se as fitas magnéticas fisicamente. Era um trabalho artesanal de cortar e emendar uma gravação na outra.

— Eu gosto de picagem, porque mostra a bagunça que a gente faz. Escancara tudo — disse Paulo Jobim. — Temos de refazer uma coisa ou outra, mas ajustamos na picagem — disse, divertido.

— Não há uma expressão aqui como essa? — surpreendeu-se Carminho.

— Quer mexer neste piano agora ou fica para mais tarde? — perguntou Paulo a Daniel.

— Temos de mexer agora, para mandar para a Bethânia. Vamos terminar a faixa — respondeu.

— Então, vamos.

— O piano pode ficar mais junto da voz dela sem assustar ninguém. É para emendar na outra gravação, certo? — perguntou Daniel.

— Sim. É a picagem — gracejou Paulo.

Depois de mais uma tentativa e outra ‘picagem’, estava enfim pronta a versão final de ‘Modinha’ que seria enviada em CD para a aprovação de Bethânia.

O OUTRO MAESTRO

A porta da antessala do estúdio abriu-se. O maestro e violoncelista Jaques Morelenbaum aproximava-se a passos tímidos e lentos, carregando o seu instrumento. Dava a impressão de que abraçava alguém, mas era só o compartimento do violoncelo.

Poucas famílias podem ser mais musicais do que a de Jaques. É filho de um maestro e de uma professora de piano. A irmã é clarinetista de orquestra; o irmão é maestro, arranjador e instrumentista. É casado com a cantora Paula Morelenbaum.

Jaques, de 62 anos, iniciou a carreira artística como um dos integrantes do grupo musical A Barca do Sol, banda de rock alternativo dos anos 70. Entre 1984 e 1994, participou na Banda Nova de Tom Jobim, atuando em espetáculos e gravações, como no CD “Antônio Brasileiro”, vencedor de um Grammy. Além de tocar com Jobim, gravou, dirigiu e fez arranjos em discos de inúmeros artistas brasileiros, como Caetano Veloso, Gal Costa, Milton Nascimento e Chico Buarque, num total de mais de 400 gravações. Em 2002, lançou, com Paula Morelenbaum e o músico japonês Ryuichi Sakamoto, o CD “Casa”, gravado na casa de Tom Jobim, autor de todas as músicas registadas no disco.

— Maestro! Que bom! — recebeu-o Carminho com um abraço.

— Vocês já estão aqui há tempos? — assustou-se ele, com a certeza de que os trabalhos estavam a pleno vapor no estúdio.

FOTOGRAFIA DE LÉO AVERSA

— Chegámos uma hora antes para emendar uma gravação — respondeu Vinicius França, o empresário.

— Como está? — perguntou a Carminho.

— Aqui só posso dizer que estou ótima. Como está Paula [Morelenbaum]?

— Está ótima também.

— Vamos fazer show, maestro? — abordou Carminho, de pronto.

— Vamos! Se isso acontecer, será incrível.

— Quem sabe podemos ir até ao Japão! Seria um sonho. Eles adoram música brasileira.

— Fui ao Japão a primeira vez com o Tom, em 1986.

— Eu tinha dois aninhos, mas já gostava da música do Tom — gracejou Carminho.

— Nós ficámos impressionados, porque foi a primeira vez que ouvimos uma plateia acompanhar bossa nova com palmas e no ritmo certo!

A conversa seguiu amistosa e tranquila, com um assunto puxando outro. Paulo Jobim aproveitou para alertar Carminho.

— O fado não vai deixar-te em paz, não — disse.

— Eles já estão a dizer: “Volta, Carminho! Não nos deixes!”

Daniel Jobim divertiu-se com a possibilidade de os portugueses reagirem mal ao sequestro da cantora de fado pela bossa nova.

— Olha, Carminho, nós vamos apresentar-nos lá e receber uma vaia tremenda dos portugueses. O que estamos fazendo aqui? Vamos parar com isto — disse Daniel.

Todos riram da cena absurda. Com a chegada do maestro Jaques Morelenbaum, a conversa segue para arranjos dos discos de Tom e de outros compositores brasileiros. Curiosa, Carminho quer saber da relação com nomes consagrados que trabalharam com Tom.

— Como é o nome daquele arranjador poderoso que está exilado numa ilha, não sai de lá e fez os arranjos do disco com o João Gilberto?

— Claus Ogerman! Ele vivia numa floresta, recluso — identificou Paulo.

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— Parece que morreu — disse Daniel. — Há uns seis meses.

— Este ano? Morreu? Ninguém sabe? — surpreendeu-se Carminho.

— Estivemos na Europa, e a Paulinha [Morelenbaum] ficou tentando entrar em contacto com ele. Sempre que íamos lá, nós o procurávamos. Ele nunca aparecia, mas mandava sempre um presente. Uma vez foi uma garrafa de champanhe. Foi o máximo de Claus Ogerman que conseguimos. Ele morava perto de Munique. Telefonávamos, mandávamos recado.

— Ele não era casado com uma cantora conhecida?

Ninguém sabia responder. O arranjador alemão Claus Ogerman, aos 86 anos, parece ter conseguido o intento de preservar-se ao máximo. No meio musical brasileiro, com conexões ao meio jazzístico norte-americano, dá-se como certo que morreu este ano. Mas ninguém sabe quando, onde e como. Também ninguém confirma ou desmente oficialmente a informação.

Carminho estava entusiasmada em tocar com a Banda Nova, que acompanhava Tom Jobim.

— Eu vou ter uma banda nova. Literalmente, vou ter uma Banda Nova! A banda antiga pergunta muito subtilmente se vai ter show. Eles dizem: “Vais desaparecer.” Eu digo que não vai ser tanto assim. Serão só alguns poucos shows...

Jaques comentou que Carminho tinha uma agenda lotadíssima.

— Este ano vou completar 150 shows. Acho maravilhoso.

— Fazer show é o menos. O que dá trabalho é fazer mala, ir para aeroporto, essas coisas...

— Essa é a parte mais difícil — concordou ela.

— O Marcelo Costa, baterista nosso amigo, é que diz que fazer show a gente faz de graça. O cachê é para aturar aeroporto.

Jaques sugere que Carminho passe mais tempo no Brasil.

— Talvez venha no princípio do ano, fazer férias.

Neste momento, Daniel Jobim está no estúdio dedilhando o piano. Toca alguns acordes de ‘Beat It’, de Michael Jackson.

— Esta é a grande paixão do Daniel, Michael Jackson! Daniel é muito musical, que pianista! O conhecimento dele é impressionante. O que o piano tem de mais complicado que o violão é que no violão você desce a mão sem dificuldade. No piano, o mesmo acorde, você desce meio tom, muda toda a geografia. E ele tem uma facilidade para isso — disse Jaques.

A VISÃO BRASILEIRA

A interpretação de Carminho renovou a obra de Tom Jobim, no avalizado entendimento do próprio filho. “Dá uma novidade na canção. Você ouvir aquilo falado em português de Portugal. Não fica mais triste. Está na linguagem dela, do fado, nas canções mais lentas. Dá um barato, porque vira outra coisa. Eu adoro Portugal e esse cantar”, declarou Paulo Jobim.

Jaques Morelenbaum avaliou que as versões de Carminho estão longe de serem tristes, em contraposição à obra de Jobim, sempre associada ao Rio solar. “O que está acontecendo é um intercâmbio de emoções. Acho que a maneira que a Carminho tem de ver essas canções é um pouco diferente do que estamos habituados, mas isso acaba estimulando a gente a descobrir outras cores da canção. A gente fica muito encantado com a liberdade que ela tem para improvisar e acrescentar novidade a essas canções que a gente toca há tanto tempo”, disse o maestro.

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O trabalho estendeu-se até o começo da madrugada. Todos cansados, lembraram que tinham nova sessão no dia seguinte e despediram-se. Carminho, apesar da exaustão, decidiu passar no bar Jobi, a poucos metros do hotel em que estava hospedada. Tomou um chope e comeu um sanduíche de filé com queijo, fatiado em tiras.

O Jobi integra o património cultural do Rio e dos boémios do Leblon. Os proprietários do pequenino bar são portugueses. Tem poucas mesas no salão e na varanda. Na parede, o que se destaca é um quadro de Nilton Bravo (pintor conhecido como “o Michelangelo dos botequins cariocas”): uma lagoa plácida onde nadam patos graciosos. Não poderia ser mais anos 50, década da fundação do bar (1956).

Carminho senta-se numa mesa ao fundo, em local discreto. Mas não tanto que não fosse reconhecida por um português, que acompanhou com atenção a conversa da mesa até decidir partir e identificar-se: “Parabéns pelo novo disco, Carminho!”

A IRMÃ PORTUGUESA

Na terça-feira, 6 de setembro, Carminho recebeu Marisa Monte para gravarem juntas ‘Estrada do Sol’, parceria de 1958 de Tom e Dolores Duran. Marisa chegou sozinha ao casarão da Rua Sarapuí. Dirigia o próprio carro. Passava das 19h. Cumprimentou todos com simpatia. Repassou a letra com Carminho e foram para o estúdio descobrir na prática como fariam o dueto. Carminho começou a cantar: “É de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar...” Marisa improvisou alguns vocalizes, mas arrependeu-se logo.

— Espera aí. Eu atropelei-te? Achei que dava para improvisar um pouco aqui. Se a gente não gostar, tira depois — disse Marisa.

Começaram de novo. Cantaram durante mais alguns minutos procurando a melhor forma de dialogar. Interpretaram os versos da canção de forma intercalada. Não havia partes rígidas. Uma completava a outra. Enquanto uma cantava, a outra improvisava com a voz um colchão musical com vocalizes suaves. A divisão era complexa, não tendo sido ensaiada. As duas tentavam ajustar-se enquanto cantavam. Ao completarem a primeira sessão, o maestro Jaques Morelenbaum aprovou.

— Ficou muito legal.

Marisa ainda tinha ressalvas.

— Vamos gravar mais ‘umazinha’. Com a gente se olhando mais, Carminho. Acho que funciona.

Frente a frente no estúdio de gravação, Carminho e Marisa cantaram olhando-se nos olhos. Trocaram sorrisos, emocionaram-se, entregaram-se à música e uma à outra. No final, quando cantavam “me dê a mão e vamos sair para ver o sol”, davam a impressão de estarem a levantar-se do estúdio em direção ao nascer do Sol, a leste da Mata Atlântica.

— Vamos fazer mais uma vez — propôs então Carminho.

— Mas guardem essa versão para ouvir, porque vão surpreender-se — comentou Jacques.

— Algumas coisas foram boas? — perguntou Carminho.

— Foram, sim.

— Mas para mim não estava valendo muito. Não coloquei muita energia. Vamos fazer uma vez mais.

— Vocês podem fazer uma agora valendo de verdade — propôs Jaques.

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Carminho e Marisa acertaram então o verso final, em que agudizam ao máximo a palavra ‘sol’. Ensaiaram uma, duas vezes. Retomaram a gravação desde o início. O começo de ‘Estrada do Sol’ é suave, com uma bossa lenta, quase descomprometida. A música cresce a partir do momento em que as cantoras se envolvem, elevam o tom, prolongam as sílabas, num saudável embate de vozes. “Vamos sair por aí, sem pensar no que foi que sonhei, que chorei, que sofri. Pois a nova manhã já me fez esquecer”, cantam Carminho e Marisa como se fossem uma só.

— Bonito? — perguntou Marisa para Jaques.

— O começo todo e o final ficaram lindos, lindos. Houve uns momentos fantásticos. Altas inspirações.

A proximidade entre Marisa e Carminho começou em 2013. Atuaram juntas, viajaram juntas. Encontraram afinidades. “A amizade nasceu da admiração mútua. Este é o primeiro passo. Depois a vontade de se encontrar, de trocar informações musicais. Naturalmente foi surgindo um diálogo por meio da música. A gente identifica-se, temos muitas coisas em comum”, definiu Marisa.

A cantora brasileira disse que Carminho cantando Jobim não é fado nem bossa nova. “Esses traços estéticos são subliminares. Não são tão explícitos. Estão na alma da gente. Ela é uma pessoa formada no ambiente do fado, como eu sou formada no samba. Mas não é que tudo o que ela vá fazer seja explicitamente fado e tenha de ter fado em tudo o que faz. É uma coisa subtil. Tem uma coisa meio moura, ibérica, lusa no seu canto. Tem a presença de uma informação cultural diferente, mas não é fado. É Carminho. Carminho é Carminho. Carminho tem a marca dela. Ela liberta-se de qualquer estilo. O que ela fizer será Carminho. Não vai ser fado. Será Carminho. O fado faz parte do pacote. Vai trazer toda essa beleza para a gente.”

Carminho definiu a amizade com Marisa como elo geracional, apesar de, aos 49 anos, a brasileira ser 16 anos mais madura. “É uma pessoa com quem tenho uma relação de amizade, de cumplicidade, de parceria. Construímos essa amizade.”

Trabalho encerrado, Carminho e Marisa deixaram o estúdio e sentaram-se no sofá vermelho sob o Cristo Redentor. Combinaram encontrar-se no dia seguinte para fazer ginástica numa academia do Leblon. Carminho disse que ainda tinha faixas com voz para colocar, mas que Marisa podia ir, se quisesse. “Vou ficar mais um pouquinho”, disse, carinhosa.

Jacques Morelenbaum aproximou-se para se despedir. Carminho agradeceu por tudo, porque Jacques gravara já toda a sua participação. Mas o maestro disse-lhe que se encontrariam no dia seguinte. “Vais malhar comigo?”, perguntou Carminho. “Não. Passo aqui para a acompanhar no resto da gravação.”

São exemplos de como Carminho se entrosou com a trupe musical brasileira. “Eles acolheram-me. Senti-me completamente acolhida. Houve um momento em que fiz uma nota que era totalmente diferente e o Paulinho Jobim disse-me: ‘Carminho, você vai ter de mudar essa nota.’ ‘Não gostou da nota?’, perguntei. ‘Não é isso. Não queremos saber dos puristas, mas as outras cantoras vão dizer que você errou!’ É assim que eles me vão orientando dentro do universo do Tom.”

O Expresso viajou a convite da Warner Portugal

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016