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O efeito Miró

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MIRÓ Depois de muita polémica e de muita luta, as obras de Miró ficam na Casa de Serralves, no Porto. Na imagem, “Mujer y pájaro", 1959.

MIRÓ Depois de muita polémica e de muita luta, as obras de Miró ficam na Casa de Serralves, no Porto. Na imagem, “Mujer y pájaro", 1959.

FOTOS FUNDAÇÃO DE SERRALVES

Há uma sublime ironia contida no tremendo sucesso de público suscitado pela apresentação na Casa de Serralves das 85 obras assinadas por Juan Miró pertencentes ao Estado português. De rejeitadas e menosprezadas pelo Governo PSD/CDS, acabam em glória, valorizadas por muitos que lhe eram indiferentes, e colocadas num espaço de grande visibilidade nacional e internacional.

Acontece, porém, que, se recuarmos um pouco na história, percebemos como parece haver no pintor catalão uma fatal atração pelas crises económicas e financeiras. Foi a sequência e desenrolar de uma crise financeira que colocou os quadros na rota do imaginário português e levou o Governo de Passos Coelho à desastrada sequência de acontecimentos que poderiam ter culminado na sua venda em leilão numa casa londrina.

O paradoxo maior está em perceber como se estabelece aqui um arco temporal de que resulta a ligação a uma outra crise, antiga de décadas, mas que, em última análise, poderá ter constituído o passo inicial até a chegada dos quadros a solo português.

"El canto de los pájaros en Otoño”, 1937

"El canto de los pájaros en Otoño”, 1937

Nos anos de 1930 a França, como grande parte do mundo, passou por graves dificuldades económicas e financeiras. Eram ainda as sequelas da famosa Grande Depressão de 1929, responsável por astronómicos prejuízos na economia mundial, falências sem fim, suicídios sem conta.

Preocupado com quanto se passava e ciente das crescentes dificuldades de colocação da sua obra no mercado francês, Juan Miró vira-se para os Estados Unidos da América e procura aí uma nova oportunidade. Encontra em Nova Iorque um importante negociante de arte. Trata-se de Pierre Matisse, filho do célebre pintor francês Henri Matisse. Os dois constituem uma importante parceria, ao ponto de a galeria de Pierre ter organizado um total de 37 exposições com obras de Miró.

“Personage”, 1960

“Personage”, 1960

Com o tempo, o filho de Matisse acaba por reunir uma muito relevante coleção de obras assinadas pelo catalão. Após a morte do galerista, parte daquele espólio é vendido à Aquavella-Gallery, uma subsidiária da leiloeira Sotheby’s. Como insondáveis são os caminhos da arte, passados tempos, muitos “Mirós” aparecem na posse de um outro negociante de arte francês, Claude Kechicihian, para reaparecerem mais tarde no museu Tokoyama, do Japão, após terem sido compradas pelo empresário Kazumasa Katsuta, proprietário da Galeria K, da Suíça. E é graças a Kazumaza, escrevia-se há dias no jornal espanhol La Vanguardia, que a Fundação Juan Miró, de Barcelona, exibe agora 23 obras do pintor.

Como isto anda tudo ligado, não se sabe ainda que parcela das obras agora exibidas na Casa de Serralves provém de algum destes lotes. Mas sabe-se como apareceram no BPN. Tinham chegado como dação em pagamento de uma dívida não cobrada por três sociedades “off-shore” da Sociedade Lusa de Negócios.

Avaliadas em €35,9 milhões, as obras passam para a posse do Estado português após a forçada e apressada nacionalização do BPN antes que, dizia-se, provocasse uma queda generalizada do sistema financeiro português.

O resto da história contém todos os elementos reveladores da miséria e grandeza suscitada por um mesmo acontecimento. Primeiro foi o espetáculo deplorável e deprimente proporcionado por um governo para quem tudo não passava de uma questão de números. Com a proverbial elegância do seu discurso, Passos Coelho garantia, há dois anos, que a manutenção das obras em Portugal não era uma hipótese. “É preciso um bocadinho de realismo”, proclamava.

“Escritura sobre fondo rojo”, 1960

“Escritura sobre fondo rojo”, 1960

Depois, há a parte que convém recordar quando em nome da festa tudo parece esbater-se no tradicional porreirismo nacional, como se nada antes tivesse acontecido. Nenhum dos discursos feitos há oito dias o assinalou, mas a muito relevante obra de Miró colocada na Casa de Serralves, passível de, nos circuitos internacionais de arte constituir um interessante triângulo com Barcelona e Palma de Maiorca, está em Portugal ao despautério não respondeu o silêncio. Porque se constituíram movimentos cívicos. Porque, a partir de dezembro de 2013, começou a ouvir-se o clamor de quantos se indignavam com o que estava a passar-se. Porque foram recolhidas mais de dez mil assinaturas contra a sua venda. Porque houve procuradores da República com coragem para não desistir. Porque insistiram em colocar providências cautelares que acabaram por impedir, em definitivo, a saída das obras do nosso país. Porque houve luta. Porque houve resistência. E, para lá de todos os valores históricos e culturais, essa é a maior homenagem que, enquanto portugueses, podemos fazer a Juán Miró. Ele próprio um homem para quem a intervenção cívica e política eram um valor. Por se imporem como uma forma de ser e estar.