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Guimarães vai ao cinema

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A primeira edição do festival internacional “Cinema Som” arranca esta sexta-feira e durante uma semana para dar visibilidade ao papel desempenhado pelo som na sétima arte

André Manuel Correia

O Centro Cultural Vila Flor serve de berço para o nascimento de um novo festival internacional de cinema: o “Guimarães Cinema Som”. O parto ocorre esta sexta-feira e é quase um “milagre”, como explicou o realizador João Viana, mentor do projeto. O orçamento foi reduzido e o preço de aluguer das cópias dos filmes exorbitante, uma fez que o festival aposta num conceito menos comercial e mais diferenciador. “Os filmes devem ser 80% som e 20% imagem”, afirma o cineasta e programador em entrevista ao Expresso.

O “Guimarães Cinema Som” apresenta, até 15 de outubro, uma programação tripartida entre uma mostra de filmes não competitiva, uma diversificada oferta formativa e também uma secção competitiva com 30 curtas-metragens, representativas de mais de 20 países.

Os filmes concorrem a três prémios, um deles atribuído por um júri internacional e os outros dois decididos pelo público. Nenhum dos prémios possui valor monetário, porque, como refere João Viana, o festival ainda é uma “semente a brotar”.

Uma estranha semente que deve ser escutada, mais do que vista. “O ser humano, ainda antes de nascer, passa muitos meses a ouvir na barriga da mãe. Acredita-se mais no som do que na vista. Tudo isso contribui para que no cinema essas duas componentes tenham funções diferentes”, explica o realizador português.

“Os filmes presentes no festival foram selecionados por terem um som estruturante, que fosse trabalhado da mesma maneira ou ainda mais do que a imagem”, acrescentou João Viana.

A programação estende-se a diferentes momentos com propostas musicais. Em “Mudam-se os Tempos”, o público vai ter a oportunidade de assistir a algumas obras de referência da cinematografia mundial com acompanhamento musical ao vivo, ao som da Orquestra de Guimarães e da Orquestra do Norte.

Também a Academia de Música Valentim Moreira de Sá aceitou o desafio de criar “Molduras Sonoras” para um filme mudo de Charlie Chaplin. A 13 de outubro, pelas 21h45, de Nova Iorque chega o pianista Renato Diz, acompanhado do contrabaixista Sérgio Tavares, para ilustrar musicalmente o filme “O Inquilino Sinistro”, de Alfred Hitchcock.

O festival procede igualmente a uma retrospetiva da obra cinematográfica do documentarista holandês Rob Rombout e esta sexta-feira, pelas 21h45, é apresentado, em estreia mundial, o seu filme mais recente (“On the Track of Robert Van Gulik”). A propósito do realizador, João Viana explica que “é alguém que está permanentemente a viajar pelo mundo todo” e a fotografia “é muito de viajante e de ‘road movie’.

O próprio Rob Rombout marcará presença no “Guimarães Cinema Som”. Não apenas como convidado, mas sobretudo para orientar seminários e ‘master classes’ para os amantes da sétima arte. António de Sousa Dias, Sérgio Dias Branco e Daniel Moreira são outros especialistas que garantem a qualidade da oferta formativa.

50 mil euros de orçamento

O mentor e programador descreve o surgimento do festival como algo “na ordem do milagre”. Apenas 50 mil euros de orçamento e um custo médio de aluguer de cada filme a rondar os 2800. Nada de intransponível graças à boa-fé de alguns artistas e ao trabalho de muitos voluntários.

O “Guimarães Cinema Som” chega assim com vontade de se afirmar e a todo o vapor. “Para quem ama o cinema e vive para ele era preciso pô-lo nos carris e acho que Guimarães tem essa capacidade de pôr as coisas nos trilhos”, frisou o responsável.

A sensação nesta primeira edição “é vertiginosa, porque tudo é possível ” e, nesse sentido, já se pensa na segunda edição, garantiu o programador.

Um dos objetivos para o futuro é duplicar o orçamento, conseguir mais apoios (nomeadamente do ICA, a partir da terceira edição) e incluir também longas-metragens na secção competitiva, uma vez que o “Guimarães Cinema Som” não pretende afirmar-se como uma mostra de curtas.

O festival é organizado pela produtora Papaveronoir e conta com o apoio da Câmara Municipal de Guimarães, do Centro Cultural Vila Flor e da agência Central de Informação.

A programação completa pode ser consultada AQUI.