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MEDO. Cena de “O Exorcista”, de William Friedkin

Reinaldo Serrano

Tem 88 anos o homem que há 45 escreveu uma das obras mais emblemáticas da chamada literatura de terror; o homem é William Peter Blatty e a obra é “O Exorcista”. Sobre o primeiro diga-se ter nascido em Nova Iorque no primeiro mês de 1928, filho de emigrantes libaneses que viram na sedutora América a possibilidade de um futuro risonho. Ficaram-se pela possibilidade, uma vez que a família, desfeita quando Blatty tinha seis anos (o pai saiu de casa para não mais voltar) foi obrigada a superar com esforço as dificuldades naturais da súbita falta de rumo. Pagar a renda não era fácil e o jovem Blatty, acompanhado pela mui católica mãe, foi obrigado a mudar de casa mais vezes que o desejável.

E, no entanto, as contrariedades não impediram a educação de um petiz com um talento inegável para o mundo académico: primeiro numa escola jesuíta e depois na Universidade de Georgetown, ambas frequentadas graças à merecida generosidade das bolsas de estudo que logrou conquistar. Já na Universidade George Washington, obteve a licenciatura em Literatura Inglesa, provavelmente não fazendo ideia que dela própria faria parte. Antes disso, foi relações públicas, vendeu aspiradores e conduziu camiões carregados de cerveja, entre outros trabalhos que foi encontrando.

Cumpriu o serviço militar na Força Aérea e as letras com a sua assinatura só surgiram a sério depois de várias experiências (bem sucedidas a nível da crítica, diga-se) em romances satíricos ao longo da década de 60 do século passado.

Tudo evoluiria quando William Peter Blatty travou conhecimento com o genial realizador Blake Edwards. A parceria revela os talentos de Blatty como argumentista, assinando os textos de “Um Tiro no Escuro” (1964), “O Que Fizeste na Guerra, Paizinho?” (1966) ou “Minha Adorável Espia” (1970). Mas o mais curioso de tudo isto é que o registo de comédia que tornaria Blatty conhecido entre o público e a crítica norte-americanos daria lugar aos antípodas do género quando, em 1971, a editora Harper & Row publica... “O Exorcista”.

A luta entre o Bem e o Mal, centrada na figura da jovem Regan, possuída por uma força demoníaca que afasta progressivamente qualquer explicação científica para a sua sintomatologia, foi um êxito imediato entre público e crítica, não apenas nos Estados Unidos mas um pouco por todo o mundo. A transposição do livro para o cinema, escassos dois anos depois da publicação, potenciou drasticamente o sucesso de Blatty.

Muito ficará a dever-se ao argumento do próprio, mas também ao notável e inesquecível trabalho de realização de William Friedkin, que tornou “O Exorcista” no “filme mais assustador de sempre”. A frase serviu de promoção ao filme e conquistou depois, por mérito próprio, a categoria de legenda definitiva de um filme a todos os títulos notável.

Ora, a boa notícia de 1971, adaptada ao cinema em 1973, é agora retomada em 2016. Porque a Fox decidiu levar ao pequeno ecrã uma nova versão de “O Exorcista”, “inspirada” na obra de William Peter Blatty. Estreada no passado dia 23 de setembro, posso garantir que os dois primeiros episódios (que aqui vivamente se recomendam) não defraudam as expectativas dos corações que bateram forte quando souberam deste “update” do romance de Blatty e, sobretudo, do filme de Friedkin. Porque as personagens estão devidamente caracterizadas, porque a narrativa é sólida e cuidada, porque o “seriado” (como lhe chamariam os brasileiros) respeita a história original, nela se baseia e sobre ela lança várias piscadelas de olho e, sobretudo, porque é um trabalho sério, que não pretende ser um “remake” suscetível de sucumbir à tentação da cópia facilmente caricaturável e, por isso mesmo, condenável.

Num tempo em que as séries ditas de terror se baseiam em adolescentes a correr na floresta ou em cabanas ou casas abandonadas, é verdadeiramente compensador assistir a um novo produto televisivo que honra um legado muito difícil de igualar. Por último, manifestar a minha surpresa pessoal por um elenco que desconhecia na sua grande maioria e onde, lamentavelmente, não consigo encontrar razão para a escolha de Geena Davis num papel de inequívoco destaque. Mas, enfim... não se podendo ter tudo, demos graças pelo que temos e pelo que é esta amostra do que ainda pode vir da visão de Jeremy Slater da icónica obra de William Peter Blatty. Como diz o último capítulo do livro (pelo menos na versão portuguesa de que disponho, gasta por várias leituras), “que até vós chegue o meu clamor”. É uma citação do Ritual Romano e pode chegar para exorcizar todas as versões que, quer no cinema, quer na televisão, têm tentado igual o que é inigualável há 45 anos.