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Arturo Pérez-Reverte: “Escrevo romances para ser feliz”

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joão lima

Com “Homens Bons”, o escritor espanhol assina um livro de ideias e aventuras ambientado no século XVIII mas com os olhos postos no século XXI

Ao descobrir, na biblioteca da Real Academia Espanhola (onde ocupa a cadeira T), os 28 volumes da “Enciclopédia” de D’Alembert e Diderot, Arturo Pérez-Reverte soube de imediato que teria de contar a história daqueles cartapácios. Como chegaram até ali? Quem os foi buscar a Paris, num tempo — o final do século XVIII — de luta entre a razão iluminista e a fé religiosa? As respostas, ficcionadas a partir de factos históricos, surgem no seu romance “Homens Bons”, que acaba de ser lançado em Portugal com a chancela da ASA.

Na página 130 de “Homens Bons”, podemos ler: “Nada é parecido com o impulso de inocência original, o princípio, a génese primeira de um romance, quando o escritor se aproxima da história por contar como de alguém por quem acabasse de se apaixonar.” Como foi, no caso deste livro, o processo de enamoramento?
Como romancista, parto sempre de três elementos: o que vivi, o que li, e o que imagino. Trago comigo um mundo de histórias que me acompanham, à espera de se materializarem. Depois, um dia, acontece qualquer coisa: pode ser uma música escutada na rádio, um tom de voz, uma rapariga bonita que passa na rua. Então algo dispara. O mundo de uma certa história toma forma. E eu só tenho de contá-la. É esse o melhor momento. Porque o ato da escrita, em si mesmo, é aborrecido, é desagradável. Na verdade, detesto a fase da escrita. Mas a fase de imaginar é maravilhosa. E eu escrevo romances para viver esses momentos. Escrevo romances para ser feliz.

Foi feliz com este “Homens Bons”?
Fui. Estava na biblioteca da Real Academia Espanhola, vi numa prateleira os 28 exemplares da primeira edição da “Encyclopédie”, e começou logo a formar-se esta história na minha cabeça. Sabia que ela estava à minha espera.

É uma daquelas histórias demasiado boas para não serem contadas?
Sem dúvida. É como quando vemos a tal rapariga bonita a passar na rua. Podemos saber que não há hipóteses nenhumas de a seduzir, mas pelo menos temos de tentar, temos de lhe dizer “olá”. Há romances que nos pedem para ser escritos. Foi o caso deste.

Como é que ninguém se lembrou antes de narrar as aventuras e desventuras dos dois académicos espanhóis que foram a França buscar a “Encyclopédie”?
Não sei. Pela mesma razão que ninguém pensou, antes de Umberto Eco, na história de “O Nome da Rosa”. Mas convém ter presente uma coisa: não há nada para inventar ou descobrir. O novo é apenas aquilo que já foi esquecido. Nós, os homens modernos, somos tão estúpidos que acreditamos que fazemos coisas novas, mas não. Tudo já foi feito. Quando um escritor lê o teatro de Sófocles, de Eurípedes, de Aristófanes, está tudo ali. O adultério, o enigma, a viagem. Tudo. O que acontece é que, nos distintos momentos da humanidade, os artistas tomam para si os temas eternos e vão-lhes dando uma forma adequada ao seu momento histórico. E assim renovam esses grandes temas. Os génios, de uma forma genial. Os medíocres, de forma medíocre. Mas os temas essenciais estão sempre aí.

O que há, de outros autores, neste romance?
Muita coisa. Quase tudo. Inspirei-me no estilo de Cervantes, nos seus diálogos. E nas ideias dos enciclopedistas. Fui à procura dos grandes temas daquela época e tentei que neles ecoassem questões atuais. Este é um romance sobre o século XVIII que nos fala do século XXI. Este tempo em que se vive uma crise de valores, com a Europa, essa magnífica criação de Homero, Platão, Dante, Camões, Cervantes, Voltaire, a correr o risco de ir por água abaixo. Achei que era um bom momento para recordar aos leitores que a cultura é a única salvação possível.

A Academia escolheu dois “homens bons” para a tarefa de ir buscar as Luzes a França. Hoje em dia é mais difícil encontrar homens bons?
É muito mais difícil. Mas eles existem. Um amigo perguntou-me: e quem são agora os homens bons? Pensei um pouco e respondi: talvez os professores. Os professores são, para mim, os homens bons neste momento. Os que mantêm a luz do conhecimento.

Há um carácter melancólico no livro. As suas personagens têm fé no futuro, acreditam que a “Encyclopédie” pode iluminar a Espanha e trazer um novo tempo. Mas nós, que estamos no futuro deles, sabemos que isso não aconteceu.
É verdade. Não aconteceu porque interveio a condição humana. A suja condição humana. A revolução que ia mudar o mundo terminou na guilhotina. Mais tarde, a revolução russa acabou em Estaline. Mas na época dos meus heróis ainda havia inocência. A palavra “revolução” ainda estava limpa, era qualquer coisa de puro. Quis mover-me no terreno dessa ingenuidade. Uma ingenuidade humanista.

O século XVIII, com as mudanças que se desenhavam e não se cumpriram, foi uma oportunidade perdida?
Foi a grande oportunidade perdida. Depois houve outra, quando aconteceu a invasão francesa da Península Ibérica. Napoleão Bonaparte devia ter vencido essa guerra. Infelizmente, os espanhóis e os portugueses preferiram lutar para defender, por um lado, os ingleses e a sua monarquia, a mais reacionária do mundo e, por outro lado, a Igreja Católica e os privilégios feudais. Ou seja, ficámos nas mãos dos padres, dos reis, dos poderosos. A Portugal e a Espanha fez falta a guilhotina. No sentido simbólico. Faltou uma revolução que abrisse as janelas e fizesse entrar ar novo.

A estrutura do romance alterna entre a viagem atribulada dos dois académicos e uma espécie de descrição metaliterária da própria escrita do livro. O que o levou a criar este mecanismo narrativo?
Utilizei-o por razões práticas, não estéticas. Eu tinha um problema. Se contasse a viagem passo a passo, ela tornar-se-ia muito entediante. Então decidi introduzir alguns segmentos em que o narrador explica o seu ofício, possibilitando elipses e saltos na história, muito úteis para resumir em duas linhas o que teria necessitado de páginas e páginas de explicações.

Qual foi a maior dificuldade com que se deparou na escrita de “Homens Bons”?
O mais difícil foi conseguir que a prosa não ficasse pesada, que tivesse peripécias, que fosse ágil. Este é um romance de ideias, mas não quis abdicar da aventura e da ação que caracterizam os meus livros. Por isso criei a figura de Pascual Raposo, o mau, figura que vai dando um toque canalha à história.

Quando acaba de escrever um livro, como se certifica da sua qualidade? Entrega-o logo ao editor ou dá a ler o manuscrito a amigos de confiança?
Não. Nunca confio em absolutamente ninguém, a não ser em mim mesmo. Sei que o livro está como deve ser, quando sinto que está como deve ser. É uma questão de instinto.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016