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Um escritor imprudentemente poético “sem paciência para dar confiança às agruras da vida”

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Rui Duarte Silva

“Homens imprudentemente poéticos” é o título do novo romance de Valter Hugo Mãe. “O tempo não tem respeito. É um malcriado. Deve haver algum bicho que come dias, mas, ao mesmo tempo que fui roubado, sinto que estou no momento mais harmonioso e apaziguado”

André Manuel Correia

“Homens imprudentemente poéticos”, o mais recente romance do escritor Valter Hugo Mãe, chegou esta segunda-feira às livrarias de todo o país. O pré-lançamento foi feito este domingo na Casa da Música, no Porto, entre amigos e centenas de leitores que se deslocaram até lá para conhecerem um pouco mais acerca da obra que nos conduz até uma floresta labiríntica no Japão.

O evento, que contemplou atividades relacionadas com a obra do escritor durante todo o dia, serviu sobretudo para assinalar os 20 anos de carreira literária. Na sessão de apresentação, a amiga e jornalista Teresa Sampaio juntou-se ao escritor numa conversa sempre espontânea. Valter Hugo Mãe, com 45 anos completados esta semana, é assim: imprudentemente poético. Por vezes a fazer o público soltar gargalhadas e noutras com momentos de profunda introspeção.

Embora diga não ser muito dado a efemérides, encontra algo de “obsceno” na passagem dos anos. “O tempo não tem respeito. É um malcriado. Deve haver algum bicho que come dias, mas, ao mesmo tempo que fui roubado, sinto que estou no momento mais harmonioso e apaziguado”, afirmou o escritor, nascido em Angola mas que adotou as Caxinas como o local onde pertence.

Ainda durante a infância, imaginou e convenceu-se de que iria morrer aos 18 anos. “Mas não deu.” Agora que já está “cotinha”, confessa-se nostálgico, mas garante que não fica em casa “a ouvir música para cortar os pulsos” e diz que o tempo o fez “desimportar” de muita estupidez. “Perdi a paciência para dar confiança às agruras da vida, que vão acontecendo a ver se nos tramam. Há coisas que acontecem para que eu sofra e eu não sofro. Não tenho paciência”, disse, motivando um aplauso geral.

Valter Hugo Mãe tem “muito lucidamente a ideia de que não vamos conseguir ser aquilo que sonhamos ser”, mas “eventualmente a vida dá-nos outras coisas que superam o que poderíamos ter esperado”. Procura meditar sobre a morte e tenta convencê-la a ser menos cruel. “Mas ela continua a ser uma besta.”

Do divino tem uma conceção muito própria e considera que a “espiritualidade não tem de ser uma miséria”. Se se cruzasse com Deus na rua, acredita que só o cumprimentaria, apesar de ter “a sensação de que ele já foi comer arroz de caril lá a casa muitas vezes”.

“Os livros são o caminho para dentro da escuridão”

Sobre o novo romance, editado pela Porto Editora, conta que surgiu da vontade de “regressar à vertigem da descoberta e de um momento inaugural”. Quase como se estivesse a escrever o seu primeiro livro, embora saiba que “nenhum regresso é inteiro”, porque “regressar é assumir que algo se suspendeu e se perdeu”, frisou Valter Hugo Mãe.

O método de escrita mudou e é muito “aflitivo”. “Ao invés de ficar a corrigir coisas dentro do corpo do texto, eu simplesmente afasto-o e começo-o outra vez”, explicou acerca do seu processo criativo. Pretende que a obra tenha “uma pulsão tão espontânea quanto possível” e acredita que os livros são feitos daquilo que o escritor pressente e que está oculto. “Os livros são o caminho para dentro da escuridão”, sintetizou Valter Hugo Mãe.

E o seu mais recente trabalho é a prova disso mesmo. Trata-se de uma incursão até a um Japão profundo e até a uma floresta labiríntica, situada no sopé do Monte Fuji. É conhecida como a “Floresta dos Suicidas” e no livro fica a sensação de se estar a entrar num lugar tumular e sagrado, onde a beleza e o grotesco coabitam.

“No Japão um suicida não é visto como um fraco ou um desistente. É visto como alguém que entendeu a sua vida por completa e entendeu estar preparado para se entregar à natureza”, explicou o escritor.

“Homens imprudentemente poéticos” é um livro onde residem pessoas cansadas das ideias e aborda temas como a memória, a gestão da felicidade, a luta entre o bem e o mal e, por fim, a redenção. As duas personagens centrais são dois vizinhos: Ítaro, um artesão, e Saburo, um oleiro. Nutrem um pelo outro uma inimizade crescente, mas respeitam-se. “São inimigos de boa-fé”, explicou o romancista.

Toda a gente chorou

A conversa entre Valter Hugo Mãe e a jornalista Teresa Sampaio teve início pelas 17h30, mas muito tempo antes a sala de espetáculos portuense já estava repleta de admiradores da obra do escritor.

Através de livros como “O Remorso de Baltazar Serapião”, da época em que Valter ainda assinava com minúsculas e que José Saramago o classificou como um “tsunami literário”, ou, mais recentemente, “A Desumanização”, que transporta os leitores até a uma Islândia solitária e mágica, o escritor tornou-se ao longo do tempo um dos autores de Língua Portuguesa mais acarinhados.

Em 2011 conquistou o Brasil, quando marcou presença na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Ao ler um texto escrito no ‘smartphone’, conseguiu emocionar uma plateia inteira. O Expresso encontrou na Casa da Música uma leitora brasileira, Julia Guttler, também ele de parabéns por completar 31 anos. Acompanhada da mãe, nas mãos segurava três livros do escritor, para ela e para oferecer.

Em 2011, Julia estava na FLIP e recordou esse momento. Toda a gente chorou. Foi muito emocionante. “Ele leu um texto da relação dele com o Brasil e, desde então, ficamos encantadas com o Valter Hugo Mãe”, contou a leitora natural do Rio de Janeiro.

“É um dos autores portugueses mais queridos no Brasil”, assegurou ao Expresso. “Ele tem uma forma de comunicar extremamente fértil. É uma pessoa que nasceu para a expressão em todas as formas”, enalteceu Julia Guttler.

Várias foram as figuras ilustres que se juntaram a esta homenagem a Valter Hugo Mãe. O realizador Miguel Gonçalves Mendes, a cantora Teresa Salgueiro, Adolfo Luxúria Canibal, entre muitos outros. Em declarações ao Expresso, o vocalista dos Mão Morta contou que é amigo do escritor há vários anos e que não tinha como não aceitar o convite para ali, na Casa da Música, recitar publicamente um excerto do novo romance. “Ele tem uma escrita muito poética. Gosto muito da forma como ele trabalha a Língua Portuguesa, a forma como ele a transforma, desdobra e cria novos sentidos.”

No próximo sábado, dia 8, o livro será apresentado no Teatro São Luiz, em Lisboa.