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Ser ou não ser Elena. “Eu acho nojento o jornalismo que explora a privacidade e trata escritores como membros da Camorra”

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Ninguém sabia quem ela era. Alguns diziam que seria um homem, outros que só podia ser um casal de escritores. A verdade é que os livros de Elena Ferrante tornaram-se best sellers sem um contexto autoral. A força do sucesso esteve todo do lado da literatura até ao dia em que um nome real apareceu

O planeta Literatura sofreu um abalo este fim de semana com um artigo-bomba sobre a verdadeira identidade da autora Elena Ferrante. A publicação de contas e património pessoal de uma escritora que – depois de se ter tornado mundialmente famosa com a tetralogia “A Amiga Genial” – escolheu preservar o anonimato rebentou com toda a força nas redes sociais e fez estalar uma polémica sem fim à vista.

“Eu acho nojento o jornalismo que explora a privacidade e trata escritores como membros da Camorra”. Foi assim que o editor italiano Sandro Ferri reagiu à investigação do jornalista Claudio Gatti, que no dia 2 de outubro identificou Elena Ferrante como sendo Anita Raja, uma tradutora de alemão, de 63 anos, filha de mãe alemã e pai napolitano, casada com o escritor também napolitano Domenico Starnone. Há muito tempo que este fazia parte da “lista de possíveis autores escondidos atrás do pseudónimo Ferrante”, mas os boatos não passavam de especulações meramente literárias.

A grande diferença é que “Aqui está a verdadeira identidade de Elena Ferrante”, título do artigo agora publicado em simultâneo no jornal italiano “Il Sole 24 Ore”, no alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, no site francês Mediapart e na revista norte-americana “New York Review of Books”, revela que Anita Raja tem sido a principal beneficiária do sucesso comercial de “A Amiga Genial”, com elevados honorários pagos pela editora romana Edizioni e/o e identifica ainda o valioso património imobiliário adquirido por Anita e Domenico nos últimos anos. Para o editor italiano de Elena Ferrante e muitos dos seus leitores, este artigo revela uma enorme falta de respeito por uma escritora que desejava manter o anonimato, mas para outros justifica-se com o direito dos leitores saberem quem é o autor por trás de obras que geram tanta paixão e seguidores em todo o mundo.

Elena Ferrante meteu Nápoles no mapa da literatura do século XXI e o sucesso meteórico teve um preço – a sua verdadeira identidade foi perseguida por leitores, editores e jornalistas e o mistério que se instalou à sua volta ajudou a vender milhares de livros. Aliás, este ponto é curioso. A “caverna” em que se escondeu não a prejudicou, só favoreceu.

Numa altura em que os autores de best sellers se transformam rapidamente em celebridades com uma intensa vida social e inúmeros seguidores online, Ferrante era a prova viva de que a literatura faz o seu próprio caminho. A autora acredita que se os livros têm valor literário, encontram os seus leitores e a verdade é que os livros dela encontraram muitos, muitos, muitos, espalhados por todo o mundo. “Deixem-na escrever em paz”, desabafaram alguns fãs nas redes sociais, enquanto outros questionaram: “E agora, acabou o mistério?”. Era preciso confirmar que Elena Ferrante é mesmo uma senhora de meia-idade tal como suspeitávamos que fosse por escrever tão sabiamente, tão intensamente, tão honestamente sobre o universo íntimo das mulheres?

Não, não era preciso, mas se o artigo de Gatti não for desmentido nas próximas horas, o melhor é Anita Raja assumir o pseudónimo e aceitar convites para palestras e conferências sobre a sua obra. Assim acabará o mistério que há muito é alimentado pelas editoras internacionais para aumentar as vendas das obras e ganham os leitores. Aliás, se depois deste texto ainda não sabe de quem estou a falar, vá a correr a uma livraria. Os principais livros de Elena Ferrante estão todos traduzidos em português.

  • Elena Ferrante, a voz que nos persegue

    Elena Ferrante, finalista do Man Booker International, cujo vencedor será anunciado esta segunda-feira, é muito menos conhecida do que os seus livros. Ancorada numa escrita clara, confessional, e numa legião de leitores que compulsivamente fazem passar a sua obra de mão em mão, esta contadora de histórias, de origem italiana e identidade desconhecida, já se tornou uma obsessão, também em Portugal