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As raízes da América continuam sujas de sangue?

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EXPULSÃO. Nos últimos meses de 1912, no condado de Forsyth, no estado da Geórgia, teve lugar a maior expulsão da comunidade afroamericana na história dos Estados Unidos da América

Em 1912, a comunidade negra do condado de Forsyth, Geórgia, foi perseguida e expulsa. Passaram mais de 100 anos, mas as questões raciais continuam latentes nos Estados Unidos da América.

“Southern trees bear a strange fruit / Blood on the leaves and blood at the root / Black bodies swingin' in the Southern breeze / Strange fruit hangin' from the poplar trees”

É a primeira estrófe do poema “Strange Fruit” que o professor norte-americano, comunista, Abel Meeropol (sob o pseudónimo Lewis Allan) escreveu em 1937, como forma de protesto contra os linchamentos de afroamericanos que, por aqueles dias, se multiplicavam nas regiões mais sulistas dos Estados Unidos. Eram pendurados nas árvores e enforcados, nos parques públicos. Em 1939, Billie Holiday transformou o poema numa das suas interpretações mais celebradas, transformando-a num hino contra a América segregacionista.

Patrick Phillips, poeta norte-americano publicado (a sua obra “Elegy for a Broken Machine” foi um dos finalistas do National Bool Award, no ano passado), toma as palavras do segundo verso do poema, “Blood at the Root”, para titular o seu mais recente livro, o único que não é feito de poemas.

Phillips, que nasceu em 1970, é branco, tem olhos claro. Isso não interessaria nada se o autor não tivesse passado parte da sua infância e adolescência no condado de Forsyth, no estado da Geórgia. Ali, até há pouco tempo, décadas depois da abolição das políticas de segregação, não viviam negros. Apenas brancos. E foi assim que o poeta e tradutor cresceu. Praticamente sem indagar os porquês. Porque sim, sempre fora assim.

Ainda hoje, apenas 4% da população deste condado é afroamericana. E isto também não interessaria nada se não estivéssemos em 2016 e, do outro lado do Atlântico, por estes dias, a palavra “racismo” não fosse tão utilizada. Não interessaria nada se não houvesse polícias que matam negros; se não houvesse manifestações de milhares, brancos e negros, que saem à rua para condenar aquilo que consideram racismo; se não houvesse atiradores negros que matam polícias, como aconteceu em Dallas; se não houvesse negros que matam brancos e brancos que matam negros. Se não houvesse um ambiente de crispação e de violência latente.

Mas tudo isto existe. E é por isso “Blood at the Root” é uma história de ontem, mas também é uma história de hoje.

Um crime, um condado e uma comunidade perseguida

Quando a família de Patrick Phillips, que vivia na capital da Geórgia, Atlanta, se mudou para o condado de Forsyth, há muito que os acontecimentos se haviam dado. Numa manhã de setembro de 1912, e uma adolescente branca, de 18 anos, Mae Crow, foi encontrado numa floresta da região. Violada e espancada, não resistiu aos ferimentos. Apenas um dia depois, os alegados suspeitos do crime, três jovens negros, entre os 15 e os 17 anos, foram capturados. Um deles foi enforcado apenas 48 horas depois do Mae Crow ter sido encontrada, às mãos de uma multidão; os outros dois foram enforcados pelo Estado, dois meses depois do julgamento. Os suspeitos confessaram os crimes, mas mais tarde soube-se que as confissões foram arrancadas sob tortura.

FUGA. Mais de mil habitantes daquele condado da Geórgia, depois de pilhadas e incendiadas as suas casas, foram obrigados a abandonar os seus pertences e terras

FUGA. Mais de mil habitantes daquele condado da Geórgia, depois de pilhadas e incendiadas as suas casas, foram obrigados a abandonar os seus pertences e terras

O que se seguiu nos dias seguintes está pouco documentado, mas Patrick Phillips tem o mérito de vasculhar os documentos à época, sobretudo jornais, com minúcia. Pela distância temporal dos eventos, a impossibilidade de falar com os intervenientes naqueles acontecimentos, tornou a tarefa ainda mais dura, mas ficaram os descendentes para contar a história.

E a história que fica, e que se diferencia de todas as outras histórias de sangue, violência e racismo que proliferaram naquela época nos Estados Unidos, é a da expulsão de toda uma comunidade da sua casa. Todos os afroamericanos a residir naquele condado, e eram 1.098, do mais rico ao mais pobre, do pastor ao agricultor, foram, em poucas semanas, expulsos das suas casas por uma horda de gente armada, que pilhou e incendiou o que encontrou pela frente.

Nas décadas seguintes, já muito depois destes acontecimentos, muito depois do movimento de luta pelos direitos civis dos afroamericanos, Forsyth permaneceu completamente branca. E ao contrário de outras regiões norte-americanas, onde nas décadas de 1950 e 1960, sinais alertavam que naquele café “apenas brancos” podiam entrar, ou que daquela fonte pública “apenas brancos” podiam beber, em Forsyth tal nunca existiu. Eram todos os brancos. Esta foi a maior expulsão de afroamericanos na história dos Estados Unidos, imitado nos anos seguintes por grande parte dos condados vizinhos. E Forsyth ficava apenas menos de 70 quilómetros de Atlanta, onde se situava o quartel-general do ativista dos direitos humanos, Martin Luther King. Forsyth sobreviveu ao século XX.

“O livro de 302 páginas de Phillips não é uma mera coleção de histórias de agressão da América sulista e branca, mas uma análise profunda de como a tradição, a indignação e as políticas raciais de uma determinada época possibilitou que um condado e as suas cidades se tornassem terras que o tempo (e o progresso) esqueceu”, escreveu o “Chicago Tribune”.

Os censos populacionais, as fotos de arquivo e as notícias publicadas na época são as fontes de Patrick Phillips, assim como os relatos dos filhos e dos netos daqueles que foram expulsos e dos relatos dos filhos e dos netos daqueles que ficaram. Apesar da dificuldade em conseguir obter informações mais próximas e de a história dos afroamericanos não estar bem documentada, Phillips consegue dar profundidade e grande detalhe às personagens que, naquele tempo, assumiram protagonismo, pelos melhores ou piores motivos, como escreve o “The New York Times”. Como o pastor negro Grant Smith, espancado em setembro de 1912. Ou o de Bill Reid, produtor de milho e de suínos, membro do Ku Klux Klan, que se tornou xerife do condado e que desapareceu misteriosamente depois de uma multidão ter invadido a cadeia e enforcado um prisioneiro negro.

“Blood at the Root — A Racial Cleansing in America”, de Patrick Phillips, W. W. Norton & Company, 302 páginas, €18,90 (preço na Amazon)

“Blood at the Root — A Racial Cleansing in America”, de Patrick Phillips, W. W. Norton & Company, 302 páginas, €18,90 (preço na Amazon)

Em 1987, no 75º aniversário dos acontecimentos de 1912, um grupo de ativistas tentou desfilar em Cummings, a cidade mais importante de Forsyth, mas foram recebidos por um grupo de 2500 brancos, com bandeiras da Confederação (união política formada entre 1861 e 1865, entre seis estados sulistas — Alabama, Carolina do Sul, Flórida, Geórgia, Louisiana e Mississipi — agrários e esclavagistas, depois o abolicionista Abraham Lincoln ter vencido as eleições presidenciais de 1860). Empunhavam cartazes com “Keep Forsyth White” e entoavam “Go home, nigers”.

Mais de 100 anos passaram sobre os acontecimentos de 1912, mas as questões raciais continuam latentes. Forsyth ainda é o presente da América.