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A mesma ideia de beleza

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Berlim. Rodrigo Leão e Scott Matthew juntam-se na cidade alemã para falar do álbum que reúne o trabalho dos dois

luís barra

Cinco anos depois do primeiro encontro, Rodrigo Leão e Scott Matthew consumam uma velha união artística num trabalho de maior fôlego. “Life Is Long”, o álbum que sai na próxima sexta-feira e que a dupla apresentará em novembro em diferentes locais do país, é o resultado de uma intensa cumplicidade

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

fotos, em Berlim

Fotojornalista

Berlim queima. 30 graus Celsius debaixo de um sol rasteiro e de uma humidade que obstinadamente se cola à pele. Os carros, as pessoas, e em particular as bicicletas, às centenas, cruzam as ruas em desvairada vertigem. A tarde é de sexta-feira. Ainda não vai a mais de meio, mas o movimento é já o de quem corre freneticamente para o fim de semana. O dia que parece anunciar o fim do verão, e antecede a noite do nascimento da última grande lua antes do equinócio de outono, serve também para conhecer o processo de criação do último álbum de Rodrigo Leão e Scott Matthew.

No pátio do hotel Michelberger, não muito longe da orla do rio Spree, o compositor português e o cantautor australiano, a viver em Nova Iorque, reúnem-se para dar a conhecer a história de “Life Is Long” (Universal Music, à venda dia 30). E se é verdade que podemos recuar cinco anos para iniciar a narrativa, durante a conversa com os dois músicos surgem mais longínquas hipóteses de começo, como aquele que nos leva de regresso às origens de Scott Matthew.

Filho de mãe nascida no Sri Lanka e de pai australiano com origens irlandesas e escocesas, o músico australiano, de 45 anos, com cidadania norte-americana conquistada há apenas duas semanas, é o último de três filhos e o único rapaz. O pai, músico, abandona a carreira artística com o nascimento da segunda filha para exercer uma profissão que lhe permita sustentar a família. Não perde, porém, o gosto pelas guitarradas em família, e é com ele que Scott, exposto à música, aprende os primeiros acordes. Além dessas recordações e da memória do agradável convívio passado com a família da mãe (muito menos fria do que a do pai, “o típico branco australiano”), Scott Matthew pouco ou nada traz dessa vida australiana, passada numa zona rural de Queensland, para a música. Aos 25 anos, altura em que ruma a Nova Iorque, está já decidido a esquecer tudo, incluindo as bandas punk e pop alternativas que tivera na Austrália e nas quais dera os primeiros passos: “Sempre gostei de baladas, e nunca tive coragem de explorar esse lado. Tive de sair da Austrália para começar a escrever baladas.” O vírus da melancolia infetara-o, mesmo vivendo num país “sem uma cultura aberta a qualquer tipo de nostalgia”: “Desde criança que não gostava da Austrália. Foi um sítio horrível para crescer. É um país recente, sem grande história, sem qualquer tradição de música melancólica. Voltei lá há dois anos, depois de ter estado cinco anos fora, e fiquei muito espantado com as mudanças que tinham ocorrido. Embora continuem a existir questões importantes por resolver, o ambiente já não é tão homofóbico nem racista... houve coisas que melhoraram ao ponto de ser capaz de me sentir seguro sendo eu próprio...”

luís barra

Viagem. Rodrigo Leão e Scott Matthew não gostam de intelectualizar, mas de deixarem as suas ideias fluírem

Viagem. Rodrigo Leão e Scott Matthew não gostam de intelectualizar, mas de deixarem as suas ideias fluírem

luís barra

Feitas as pazes com o país, Scott Matthew reencontra-se nesse regresso com uma família que agora já não questiona a sua homossexualidade: “A boa coisa acerca dos meus pais é que eles são espetaculares, não pararam de mudar. Reformaram-se e têm uma vida muito agradável e divertida. A minha mãe pensa que sou famoso e fica feliz e o meu pai orgulhoso, porque imagino que também tenha desejado chegar na música a algo semelhante.” É, porém, nessa distante Austrália que Scott se cruza pela primeira vez com uma canção portuguesa, que por sinal é também um trabalho de Rodrigo Leão: “Cresci a ouvir The Smiths e The Cure e é até estranho ter acabado a viver nos Estados Unidos, tendo em conta que as minhas influências vinham de Inglaterra... Mas há uma cassete, uma espécie de compilação, que não sei como me veio parar às mãos, que ouvia até à exaustão, fechado no meu quarto, e que que incluía ‘O Pastor’ dos Madredeus...”

“A VOZ QUE ME FALTAVA”

Rodrigo Leão, por sua vez, só descobrirá a voz do cantor australiano, muitos anos mais tarde. Durante a preparação do álbum “A Montanha Mágica” (2011), o compositor começa à procura de uma voz masculina: “Foi no verão, quando estava no Alentejo, em Avis, que surgiu o tema ‘Terrible Dawn’. O álbum é quase todo instrumental, mas eu queria ter alguns temas cantados. O meu irmão tinha-me enviado uns três anos antes umas músicas de Scott. Conhecia-lhe a voz, mas nessa altura voltei a ouvi-lo. Um amigo, o João Pedro Dinis, enviou-me sugestões de dois ou três cantores, entre os quais estava o Scott. Na primeira canção que ouvi dele, ‘White Horse’, impressionou-me a música, a voz, tudo... Scott correspondia a um tipo de voz com que sempre pensara trabalhar. Uma voz que me lembrava o universo do David Bowie, do David Sylvian ou mesmo do Peter Gabriel. Pensei em entrar em contacto com o agente dele para saber se estaria disponível para trabalhar comigo.” No regresso do e-mail, o amanhecer não foi terrível como no título da canção. Antes iniciou uma longa e descomplicada colaboração entre os dois artistas.

Scott Matthew encontrava-se, na altura, em Berlim para uma série de concertos. Gostou do que ouviu e respondeu à música com uma letra. Gravou-a pouco depois num estúdio berlinense, ainda sem conhecer o compositor português. Situação, aliás, que se prolongou por mais algum tempo. O frente a frente entre os dois aconteceria muito tempo depois, com a participação de Scott Matthew em alguns concertos de Rodrigo Leão, nos Coliseus do Porto e de Lisboa, onde também estavam Neil Hannon (The Divine Comedy) e Beth Gibbons (Portishead). Nascia então o desejo mútuo de prosseguirem um caminho ao qual pudessem acrescentar novas colaborações, até porque ‘Incomplete’, tema que se seguiu e que entrou no álbum “Songs”, lançado por Rodrigo Leão em 2012, já tinha reforçado neles essa convicção. O compositor português conta que nos concertos se entusiasmava com a forma como Scott colocava a voz, usava o tempo, entrava e saía da música: “Já tinha colaborado com muitos músicos, durante muitos anos, e até mais próximos, mas depois desses concertos ficou a vontade de fazer qualquer coisa juntos.” O tempo e a proximidade não alteraram, porém, o processo simplificado e intuitivo que marcou a criação de ‘Terrible Dawn’, que agora também aparece incluído no álbum “Life is Long”. A tal ponto que a primeira coisa que ocorre responder a Scott Matthew quando questionado sobre o que o une a Rodrigo Leão é dizer, entre risos, que o segredo do sucesso da relação entre os dois está no facto de não falarem, consciente que ambos partilham uma indiscutível timidez. Já a sério, Scott corrige: “Acho que o que nos une passa sobretudo pela mesma sensibilidade e a mesma ideia de beleza.” Rodrigo remata: “Temos um grande sentido de humor [o que, aliás, se revela várias vezes ao longo desta conversa] e vemos alguma beleza na melancolia e na tristeza.” Um território comum que faz com que Scott escreva as letras, e às vezes a melodia, depois de receber a música por e-mail no seu pequeno apartamento de Brooklyn sem necessidade de discutir o que quer que seja com o compositor português ou de “enveredar por intelectualizações”. Rodrigo explica: “Eu faço as ‘demos’ em casa, e envio algumas ideias, e não falamos sobre elas. Ambos gostamos dessa forma intuitiva de fazer as coisas. Acho que no princípio ainda tentámos falar, mas acabámos por perceber que as coisas apareciam por si só.”

luís barra

‘Terrible Dawn’. O primeiro tema que fizeram foi gravado em Berlim por Scott Matthew sem que os dois músicos tivessem tido oportunidade de se conhecerem pessoalmente

‘Terrible Dawn’. O primeiro tema que fizeram foi gravado em Berlim por Scott Matthew sem que os dois músicos tivessem tido oportunidade de se conhecerem pessoalmente

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Não é, por isso, de estranhar que o álbum “Life Is Long” tenha nascido, tal como ‘Terrible Dawn’, de uma troca de e-mails, neste caso mantida de forma despreocupada ao longo de um ano, que terminou com a gravação do disco, em Lisboa, há dois anos. Rodrigo acha que o processo resulta bem sobretudo porque o entendimento entre os dois é grande: “Sempre foi como se estivéssemos os dois a pintar um quadro. Eu pinto a primeira parte, e ele depois pinta o resto, sem usar uma cor que destoe. Nunca há um choque. A minha parte é sempre muito mais abstrata, enquanto a do Scott é muito mais concreta. Quando componho não estou a pensar em nada de específico, e é interessante perceber o que ele sente perante a música que lhe envio. Ele escreve muito bem. E canta o que escreve, o que é bem diferente de cantar letras de outros e isso acrescenta uma certa intensidade que me agrada bastante. Torna tudo mais real.”

Incapaz de não tornar tudo pessoal, mesmo quando se apropria de velhas canções, como faz no álbum de covers “Unlearned”, Scott Matthew admite que as suas letras são invariavelmente românticas, quase sempre desesperadas, ainda que em certos momentos espreite uma réstia de esperança. Há uns anos perdeu a voz, e o facto serviu-lhe de lição: “Agora percebo que naquela altura estava inconsolável e que pela primeira vez na vida me sentia envergonhado do meu próprio estado. Lembro-me vividamente de ter dito aos meus amigos: ‘Eu acho que não gosto de fazer isto. E não quero continuar’. Parecia-me humilhante continuar a cantar em frente às pessoas acerca do meu desgosto amoroso. Mas quando cheguei a palco e descobri que não tinha voz vivi um momento tenebroso. Fiquei louco. Dei por mim a rezar para que a voz voltasse... E voltou alguns dias depois. A partir desse momento passei a acreditar que se o meu papel na terra é cantar canções tristes então tenho de me permitir fazê-lo. Não interessa o que é que outras pessoas possam pensar. Até podem concluir que sou depressivo, mas eu não vivo a vida dessa maneira. Não vivo em estado de desespero. Mas é a esse lugar que sempre volto quando escrevo. E é a ele que vou continuar a voltar. Descobri que a melancolia, independentemente do que possa ser, cria uma ligação ao que sentimos. Através de uma canção, as pessoas podem relacionar-se com o seu interior e com o que sentem. Era o que as canções me faziam quando era criança, e é o meu objetivo fazer o mesmo com as minhas canções às outras pessoas.”

Não sendo conhecido, por isso, pelo seu “alegre cantar”, como o próprio diz a brincar, Scott Matthew não opta por um caminho diferente em “Life is Long”. O álbum abre com um tema em jeito de balada infantil, ‘The Child’, que Scott escreveu em Lisboa. O modo é simples e a canção fica reduzida a voz e a piano. Depois o álbum termina com a afirmação de que a vida é longa, o título que escolheram para o álbum. Para Scott Matthew é uma ironia, mas também a história de um velho amor, que já tinha inspirado vários temas em discos anteriores, como o seu terceiro álbum “There Is an Ocean that Divides...”: “Há uma história por de trás desta canção e não é uma história feliz. Eu tive uma relação amorosa. E ele, que vivia na Bélgica, costumava dizer-me sempre que nos separávamos, para eu voltar a Nova Iorque: ‘Não te preocupes. A vida é longa.’ O que acabou, porém, por acontecer é que ele me partiu o coração deixando-me com esta longa vida... de solidão [risos] Agora, a sério, sempre apreciei as pessoas que dizem a vida é curta, mas também gosto do ‘não te preocupes, a vida é longa’ e do seu lado positivo.”

Conncerto. Scott Matthew faz uma performance intimista no Atelier Oblique, espaço de um amigo. Rodrigo Leão, na audiência, filma uma passagem

Conncerto. Scott Matthew faz uma performance intimista no Atelier Oblique, espaço de um amigo. Rodrigo Leão, na audiência, filma uma passagem

luís barra

A melancolia atravessa todas as canções, à exceção, acha o próprio Scott Matthew, daquela que foi escolhida para single, ‘That’s Life’ (nome que por uma coincidência que só descobriram mais tarde também é a de uma canção de Frank Sinatra). “É uma canção muito positiva, onde se aprecia o estar apaixonado, retirando a parte gratificante dessa experiência.” Rodrigo Leão, que há alguns meses estava a trabalhar na banda sonora do filme do realizador catalão Marcel Barrena, “100 metros” (no qual se conta a história de um homem com esclerose múltipla e onde entram Maria de Medeiros e Ricardo Pereira), acabou mesmo por vê-la ‘fugir’ para o filme depois de a ter mostrado a Tino Navarro, que é um dos produtores. ‘The Fallen’, a segunda, que é uma das preferidas de Rodrigo Leão, leva-o para o território que não costuma fazer, antecedendo a chegada de ‘Enemies’, “uma música mais rock, que lembra o universo de Bowie e dos Clash, que já fizemos ao vivo”, sublinha Rodrigo Leão.

Unidos num universo nesse mesmo sentido beleza de que os dois começam por falar, nenhum dos músicos perde identidade em “Life Is Long”. É fácil reconhecer a distinta presença de cada um deles no álbum ainda que se notem algumas pequenas diferenças, que podem passar pelo facto de Rodrigo Leão se sediar por completo na estrutura da canção pop ou por Scott Matthew abandonar um registo vocal que já não subordina os instrumentos. Desta vez música e voz estão sempre lado a lado. Rodrigo acrescenta bateria, trio de sopros, e quarteto de cordas, oferecendo uma outra e grande massa sonora que parece atenuar o tom de lamento que normalmente caracteriza a obra do cantautor: “O objetivo da colaboração é fazer qualquer coisa que normalmente não se faz sozinho. Penso que há uma similaridade, temos um traço comum entre aquilo que já fizemos antes e este disco. Ao fazê-lo juntos aparecem apenas pequenas versões de nós mesmos. Costumo fazer coisas mais acústicas, mas sempre tive um sonho secreto de fazer um disco com mais instrumentos. É um disco mais orquestrado quando comparado com os que fiz anteriormente. E isso é uma alegria!” Os arranjos e a mistura foram feitos em Lisboa, pelos colaboradores habituais de Rodrigo Leão, Pedro Oliveira, Tiago Lopes, João Eleutério e Carlos Tony Gomes (responsável pelas cordas e sopros), e a masterização realizada em Berlim.

Para os que se apaixonam

Mais tarde, com a lua já alta, Berlim ainda ferve. No Mitte, bairro situado do outro lado da cidade, Scott canta para duas ou três dezenas de amigos e conhecidos no Atelier Oblique, uma loja/galeria que um dos seus mais próximos amigos acabou de abrir ao público. O amigo, explicará carinhosamente Scott, é também aquele que assina o design dos seus álbuns: Mário Lombardo. O ambiente é informal, descontraído, e quase todos se conhecem entre si. Sentado a um canto do ateliê num banco alto e acompanhado à guitarra por um dos músicos que costuma entrar nos seus álbuns, Jürgen Stark, Scott apresenta também Rodrigo Leão, na audiência, e escolhe alguns temas das músicas que colocará no álbum que pretende lançar no próximo ano. Ao cantar, porém, regressa quase sempre ao mesmo lugar, esse sítio onde deposita todo o desespero. Na t-shirt que tem vestida (pintada por um amigo nova-iorquino a quem escreveu uma canção no primeiro aniversário de uma relação que quebrou vários anos de infeliz solidão) pode-se ler “Feel no Pain; See no Evil”. Mas quando os joelhos se juntam, as mãos se contorcem, a emoção toma conta de tudo, e as lágrimas nos olhos de Scott acabam por cair. Um casal, que conheço no fim, tem porém motivos para festejar a forma como uma canção (‘The Wonder of Falling in Love’) de Scott lhe abriu os corações para alegrias do amor.

O Expresso viajou a convite da Universal Music

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016