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Charles e Ray Eames: 
mestres do século XX

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FOTOGRAFIAS CORTESIA FUNDAÇÃO EDP

Viveram quatro décadas a revolucionar o design. Explodiram com regras e máximas e criaram os móveis que ainda hoje queremos ter em casa

Inovar é o último recurso que nos resta”, diziam com frequência Charles e Ray Eames. Fizeram-no desde que se conheceram em 1940, na Cranbrook Academy of Art, no Michigan, nos Estados Unidos, uma ano antes de se tornarem marido e mulher. E fizeram-no seguindo uma filosofia muito particular: fazer do mundo um lugar melhor. Com uma curiosidade e uma necessidade de conhecimento fora do comum, uma alegria de vida espantosa e uma atenção particular ao ser humano, foi logo entre 1941 e 1943 que se envolveram no primeiro projeto de grande monta. A II Guerra Mundial fazia cada vez mais feridos e os dois mais importantes designers americanos do século XX meteram mãos à obra para produzir em massa talas em madeira laminada em três dimensões que minorassem o sofrimento dos soldados. A técnica que desenvolveram foi precisamente aquela que viriam a utilizar em todo o mobiliário que os tornaria célebres, antes de voltarem a inovar com a utilização recorrente da fibra de vidro, resina plástica ou malha de metal, em formas ainda hoje icónicas em cada casa que decoram.

Cadeiras de descanso, cadeiras de trabalho, chaises longues, cadeiras e mesas de trabalho, de cozinha, de sala de jantar, um manancial de mobiliário funcional, minimal e esteticamente revolucionário que mudou por completo o interior das casas americanas na década de 50 e contagiou o mundo até hoje — a maior parte dos seus móveis continua a ser produzida em massa quer pela Herman Miller quer pela empresa Vitra — é de facto o rosto mais visível do seu trabalho que atravessou quatro décadas (Charles morreu em 1978 e Ray dez anos mais tarde), mas o seu projeto de vida foi muito mais amplo.

Eames Chaise Longue

Eames Chaise Longue

A fotografia, a arquitetura, a comunicação, o cinema, a educação e as exposições foram parte integrante de uma forma de partilha rara que exploraram até à exaustão, numa associação constante com a ciência e a matemática. “O processo de trabalho era incansável, utilizavam o método try and error, queriam melhorar constantemente o produto, fazer com que durasse mais tempo e com que fosse acessível ao maior número de pessoas possível. E viram sempre a ligação existente entre a ciência, a matemática, a arquitetura e o design. No fundo, para eles design significava resolver um problema. Por isso é que desenhar uma fábrica, uma casa, uma cadeira, um objeto, um filme ou um programa de educação era igual”, conta Eames Demetrios, neto dos designers. “Um dos meus exemplos preferidos é a Eames Lounge Chair. Um dos primeiros exemplares da cadeira foi feito com cabedal de luvas, muito suave, exatamente como as luvas de senhora. Era muitíssimo confortável, mas eles repararam logo que não ia ser suficientemente forte para resistir a 30 anos de uso. E mudaram de cabedal. Não receberam nenhuma chamada da fábrica Herman Miller [na altura a empresa que produzia os seus trabalhos], ninguém lhes ligou a dizer que o produto não estava a funcionar bem, que o cabedal não era suficientemente forte. Não. Eles é que estavam sempre a melhorar o que faziam. Às vezes mesmo dois anos depois do produto já estar em produção”, continua o neto de Charles e Ray.

Para Catherine Ince, comissária da exposição que o MAAT agora traz a Lisboa, os dois designers “exploraram a tecnologia como ninguém, uma consequência da sua espantosa curiosidade sobre a génese dos materiais, mas também sobre temas e problemas sociais, sobretudo, no que respeita à questão de como podemos viver juntos nesta sociedade. O design para eles era um forma de pensar, viam o que faziam num contexto global. Conseguiam ver a relação entre objetos, pessoas e ideias, tudo se relacionava. Isso era o que mais os motivava”. Eames Demetrios vai mais longe e põe-nos ao corrente daquilo a que Charles e Ray chamavam a “relação entre o anfitrião e o hóspede”. Eles acreditavam que o papel do designer era ser um bom anfitrião, concentrado nas necessidades do hóspede convidado, explica Eames. “É claro que respeitavam máximas como menos é mais, a função é mais importante do que estética, etc. Mas nessa relação entre anfitrião e hóspede, eles punham sempre o ser humano no centro do processo de design. Não tinham uma ideologia que lhes dissesse que as coisas tinham que funcionar de uma determinada maneira. Esta é uma ideia muito interessante, sobretudo, porque é transcultural. Nunca conheci ninguém no mundo que tivesse tanto respeito pela cultura do outro, do convidado”, revela e acrescenta: “é claro que se pusermos a relação entre o anfitrião e o hóspede no centro de todo o processo, temos muito mais hipóteses de fazer algo universal”.

A famosa Eames House, na Califórnia, onde Charles e Ray viveram a partir de 1951

A famosa Eames House, na Califórnia, onde Charles e Ray viveram a partir de 1951

De facto, perante a questão: como se desenha uma cadeira para outra pessoa? Charles e Ray respondiam sempre que tinham de desenhá-la para eles próprios, mas que o complicado nesse processo de design era pôr de lado tudo o que em nós não era universal. “Quando nos focamos nessa ligação universal o objeto vai funcionar, e não falo do ponto vista da estética, nem da ergonomia, nem do marketing”, acrescenta Eames Demetrios.

Viajados pelo mundo inteiro, com uma paixão especial pela Índia, onde montaram todo um programa educacional de design que ainda hoje vigora no Instituto de Design Nacional, Charles e Ray nunca distinguiram vida e trabalho. As duas coisas conviviam pacificamente no seu ateliê de Venice, na Califórnia. Lá, cada objeto tinha algo a dizer e todos os colaboradores tinham direito a opinião, um desejo de partilha, que sempre os acompanhou. Por ali passaram nomes tão importantes como Henry Beer, Foy, Don Albinson, Deborah Sussman, Harry Bertoia ou Gregory Ain. E ali foram pensados e postos em prática projetos tão importantes como “The Case Study House #8”, patrocinado pela revista “California Arts and Architecture”, a famosa Eames House construída em 1951, e que viria a ser a casa de família daí em diante. Fabricada com material industrial e usando apenas três estruturas a que podemos chamar arquitetura tradicional, a casa multicolor, multiusos e decorada com todos os seus objetos favoritos, peças provenientes de todo o mundo e muitos brinquedos, pelos quais eram apaixonados, tornou-se um símbolo do modernismo mundial. Já a sua Lounge Chair fazia parte do património do MoMA, em Nova Iorque, museu com que viriam a colaborar variadíssimas vezes. O pavilhão da IBM, mostrado na Feira Mundial de Nova Iorque em 1964-65, a primeira viagem de muita gente ao mundo dos computadores foi outras das suas glórias, ao lado de projetos de casas prefabricadas, ou do filme “Powers of Ten”, uma ficção científica que explica a relação entre as grandes dimensões e as mais pequenas, realizado em 1969, mas lançado apenas em 1977.

Vários protótipos de cadeiras tanto em madeira laminada moldável

Vários protótipos de cadeiras tanto em madeira laminada moldável

“Acho que estavam demasiado conscientes de que tinham criado algo com muito impacto. Acho que sabiam que iam ultrapassar a barreira do tempo. Mas por outro lado, não estavam satisfeitos, queriam continuar a melhorar as coisas. É por isso que todo o seu trabalho é tão dinâmico e chega com tanta força aos dias de hoje”, termina Eames Demetrios. Verdade seja dita, agora ainda é realmente difícil entrar numa casa que se diga minimal ou modernista, ou que pretenda denotar um certo statu sem encontrar uma peça desenhada pelo casal que gostava de brincar a aprender tal como as crianças. Podem ser imitações, também é factual, há-as por todo o lado, mas estão lá.

The World of Charles and Ray Eames
MAAT, Central 1, em Lisboa, de 5 de outubro a 9 de janeiro de 2017

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016