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“Mira!” Os “fantásticos monstros” de Miró chegaram ao Porto

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Vista esta sexta-feira pela primeira vez em Portugal, depois de chegar ao Porto, a coleção Miró reúne mais de oitenta obras pertencentes ao Estado e estará exposta em Serralves até final janeiro. O Expresso mostra-lhe um pouco dos “fantásticos monstros” do pintor catalão

André Manuel Correia

A coleção Miró chegou ao Porto, cidade onde ficará permanentemente, como já foi anunciado por António Costa. E ficará em Serralves, adiantou ao princípio da noite Rui Moreira, lugar onde está exposto o conjunto de 80 obras do pintor catalão. Na manhã desta sexta-feira, a mostra “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”, comissariada por Robert Lubar Messeri, foi dada a conhecer à comunicação social, enquanto ainda se realizavam os últimos trabalhos de instalação e preparativos para a inauguração. marcada para as 18h30. O Expresso esteve presente e revela-lhe um pouco daquilo que poderá ver a partir de sábado e até 28 de janeiro no museu de arte contemporânea.

Esta é a primeira vez que o conjunto de obras do pintor surrealista Joan Miró, propriedade do Estado após a nacionalização do BPN em 2008, será exposto em Portugal. Anteriormente, já tinha viajado até Londres, na época em que o executivo liderado por Pedro Passos Coelho equacionou a venda da coleção avaliada entre 35 e 54 milhões de euros.

Antes ainda de fazer uma visita guiada pela exposição, o curador Robert Messeri, lembrou o momento em que, há três anos, foi contactado pela leiloeira Christie’s para avaliar a coleção. “Recordo-me de entrar na galeria e pensar: ‘Porquê? Porque é que Portugal vai deixar escapar esta bela coleção?”, contou o especialista na obra do pintor catalão.

Em seguida, iniciou-se a incursão surreal pelas “Materialidades e Metamorfoses”. Ou, para simplificar, pelo complexo universo mental de Joan Miró, feito de sonhos e pesadelos pungentes que se entrecruzam. Contemplar o conjunto de oito dezenas de trabalhos que incluem desenhos, pinturas, colagens e trabalhos em tapeçaria é embarcar numa viagem de seis décadas, de 1924 até 1981.

Prepare-se para ficar a conhecer os diferentes períodos, estilos, influências e cambiantes patentes na carreira de um dos maiores nomes do movimento surrealista. A mostra, com projeto expositivo de Siza Vieira, debruça-se sobre a transformação das linguagens pictóricas que Miró desenvolveu e aborda as suas metamorfoses, onde rótulos como expressionismo, cubismo, abstracionismo e surrealismo perdem a validade e dão lugar a algo novo, numa simbiose de elementos de correntes diversas.

No conjunto de oito dezenas de obras podem ser encontradas pinturas – executadas nos mais variados e improváveis suportes – em tinta-da-china, seis tapeçarias, uma escultura ou um mural de cinco metros. Ter o privilégio de ver de perto as obras deste pintor surrealista, que ao contrário de outros se distanciou das representações figurativas, é decifrar um vocabulário de signos, inscritos numa linguagem metafórica e simbólica. É, em suma, conhecer os “fantásticos monstros que mostram a mente de Miró”, explicou Robert Lubar Messeri.

A beleza de uma arte agressiva

Ao percorrer a exposição o público é confrontado com uma violência estética desconcertante, que pode ser pictórica ou residir na própria escolha de materiais menos convencionais. “São trabalhos agressivos”, sintetizou o curador enquanto mostrava deliciado cada uma das obras expostas em Serralves.

Na opinião de Robert Lubar Messeri, esta exposição é como um filme. “Há aqui personagens principais e outras secundárias, mas igualmente importantes e que dão sentido ao enredo”.

Também presente nesta apresentação à comunicação social esteve a presidente do conselho de administração de Serralves, Ana Pinho, que agradeceu ao Governo o “apoio, entusiasmo e confiança depositada” no museu de arte contemporânea.

A diretora do museu, Suzanne Cotter, definiu Miró como “um dos artistas mais importantes do séc.XX” e frisou que Serralves “está maravilhado por inaugurar esta exposição e poder apresentá-la ao público português e aos visitantes estrangeiros”.

A inauguração contou com as presenças do Presidente da República, do primeiro-ministro e também do chefe do governo espanhol Mariano Rajoy, que se juntaram a Rui Moreira, autarca da cidade. A exposição ficará patente ao público a partir deste sábado.