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Marionetas espalham-se pelo Porto com estilhaços de Pessoa

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Jose Caldeira

O Festival Internacional de Marionetas do Porto realiza-se entre 13 e 23 de outubro e traz, entre muito mais, estilhaços de Fernando Pessoa que não cortam e fazem sonhar. Um evento em que o cruzamento interartístico tem lugar privilegiado

André Manuel Correia

Arranca a 13 de outubro a 27.ª edição do Festival Internacional de Marionetas do Porto (FIMP) e este ano a programação conta com nove peças, um concerto, quatro ‘workshops’, uma livraria itinerante proveniente de Évora e ainda a secção “Work in Progress” com três apresentações de projetos artísticos em desenvolvimento na cidade.

No evento estarão em cartaz criações teatrais de cinco países, nomeadamente da Alemanha, Inglaterra, França, Brasil e Portugal. Os espetáculos terão lugar, até dia 23, em salas como o Rivoli, Campo Alegre, Mosteiro de São Bento da Vitória, Teatro de Ferro e o Palácio do Bolhão.

Em 2016, o FIMP – realizado desde 1989 – surge com propostas densas e desafiantes, mexendo as cordas certas para levar o público a pensar e sentir. A programação, anunciada esta quinta-feira no Teatro Rivoli, tem também a particularidade de sair dos espaços mais convencionais e espalhar-se por locais públicos da cidade, como a estação da Trindade ou a Associação de Moradores do Bairro da Pasteleira.

Em conversa com o Expresso, o diretor artístico do FIMP e fundador do Teatro de Ferro, Igor Gandra, explicou que “há o desejo de chegar a franjas mais largas de público e trazê-lo para esta reflexão”. Na opinião do responsável, o festival assume-se como um “pretexto” para pensar a arte e o mundo; “pensar o que nos rodeia e nos inquieta”.

Imaginar o presente e o futuro

O festival tem início a 13 de outubro, no Palácio do Bolhão, com a apresentação da peça “Não Sei o que o Amanhã Trará”, uma criação da companhia Limite Zero e que tem como ponto de partida a vida e obra de Fernando Pessoa. No texto de apresentação do espetáculo, a dramaturga Cecília Ferreira escreve que “Pessoa é um espelho partido” e que na peça “estão apenas alguns estilhaços”, que “não cortam, mas podem magoar… e fazem sonhar”.

A 14 de outubro, no Teatro Campo Alegre, procura-se pelo escritor polaco Stanislaw Lem. Numa peça criada pela companhia Teatro de Ferro tenta-se dar a conhecer, de forma divertida e ao mesmo tempo perturbadora, um autor publicado em todo o mundo e paradoxalmente desconhecido. “À Procura de Lem” é igualmente uma forma distinta de “imaginar o mundo (atual e futuro) através do teatro e das suas máscaras”, lê-se na sinopse.

No mesmo dia (14), no Rivoli, é revelado “O Segredo de Simónides – Coleção de Colecionadores”, uma criação de Raquel André, colecionadora e artista, que venceu a segunda edição da Bolsa de Criação Isabel Alves Costa, uma iniciativa promovida pelo FIMP. Neste espetáculo, que conta com música de Noiserv, “coleciona-se o outro e guarda-se o que não dá para guardar”.

Muito mais há para ver no Festival Internacional de Marionetas do Porto, como as peças “Pulling Strings” e “Cabaret Berlinn”, dos alemães Eva Meyer-Keller e Peter Waschinsky, respetivamente. Dia 22, o Teatro Rivoli acolhe “A Convenção dos Ventríloquos”, uma criação da francesa Gisèle Vienne.

As restantes peças que completam a programação são “Assim não vais longe”, de Gustavo Sumpta, “Kitsune”, do Teatro de Marionetas do Porto, e ainda o clássico e inevitável “Capuchinho Vermelho”.

Também a 22 de outubro, no Rivoli, pelas 22h30 sobe ao palco o músico Peter Rehberg, mais conhecido por “Pita”, com mais de uma dezena de álbuns editados e dono de uma extensa variedade de estilos de música experimental.

Pese embora o Festival Internacional de Marionetas do Porto pôr em evidência o que de melhor e mais atual se faz no teatro de marionetas e formas animadas, o evento serve também para fomentar um diálogo multidisciplinar e interartístico. O teatro confunde-se com a performance e as artes visuais dançam com a música. “Temos a ideia de que a marioneta é, ela própria, uma ferramenta de excelência para a transversalidade. É uma forma de combinar elegantemente as artes do tempo e do espaço, como a artes plástica e performativa”, destacou Igor Gandra.

Esse cruzamento entre diversas expressões artísticas resulta, em vários casos, na obtenção de espetáculos menos convencionais e mais heterogéneos. “Alguns entram no campo do inclassificável. Não são exatamente teatro, podem ser performance. São espetáculos híbridos e essa hibridização, esse esbatimento de fronteiras que se tornam maleáveis, interessa muito no FIMP”, frisou o diretor artístico.

O programa pode ser consultado na íntegra aqui.