Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

É um “luxo” morrer de amor cinco vezes no Teatro Nacional São João

  • 333

Susana Neves

“Cinco Formas de Morrer de Amor”, da intérprete e soprano Catarina Molder, assume-se como um manifesto feminino e mostra que também é necessário ter “Competência para Amar”

André Manuel Correia

É possível alguém morrer de amor? Será o amor um combate? É preciso ter competência para amar? Na opinião de cantora de ópera Catarina Molder, são afirmativas as respostas a todas estas perguntas. A artista leva, esta sexta-feira e sábado, até ao Teatro Nacional São João, no Porto, o espetáculo “Cinco Formas de Morrer de Amor”, no qual dá corpo e voz a cinco mulheres muito diferentes, mas unidas pelo mesmo destino.

A peça questiona a condição de se ser mulher – tantas vezes educadas para serem perfeitas – e acaba também por ser uma metáfora do próprio sofrimento a que o artista é sujeito em palco.

Em “Cinco Formas de Morrer de Amor” tudo é violento, tudo é confrontação e sucumbe-se de forma catártica. A cantar. “Essa catarse da morte de amor é uma das mais emblemáticas da ópera e é aquilo que nos faz querer ir à ópera. Não deixa de ser muito belo alguém que está a morrer de amor e permanece a cantar”, sublinhou, em entrevista ao Expresso, Catarina Molder após um dos ensaios.

O espetáculo tem também a particularidade de fugir ao repertório que se poderia esperar de uma ópera mais tradicional. Ao longo de uma hora, as sonoridades variam desde a obra “Lady MacBeth von Mzensk”, de Shostakovich, até ao tema “Competência para Amar”, dos Clã.

A abertura é feita com “Chanson Perpétuelle”, de Ernest Chausson, passando depois pela composição “Serei só eu”, de António Chagas Rosa a partir de um excerto de Richard Wagner, e inclui ainda uma versão inédita da “Virgem Louca”, de Rimbaud, reinterpretada por Luís Soldado.

Em palco, a intérprete e soprano Catarina Molder faz-se acompanhar por um quarteto de cordas composto por Afonso Fesh (violino), Sara Silva (violino), Trevor McTait (viola) e Vanessa Pires (violoncelo).

Manifesto libertador

O espetáculo dirigido por Lígia Roque é como um “manifesto feminino”, descreveu Cararina Molder, onde o público acompanha os percursos trágicos – e por isso belos – de cinco personagens apaixonadas e apaixonantes.

Era uma vez uma mulher que se lamentou até perder a respiração. Era uma vez uma mulher que recusava o que lhe ofereciam e que um dia se desequilibrou e desapareceu. Era uma vez uma mulher a quem a sociedade não perdoou o excesso. Era uma vez uma mulher que se prende, magoa e não encontra a saída. Era uma vez uma mulher que ensina e sai sem deixar reféns.

“Toda a gente já sentiu, em algum momento da sua vida, as angústias que aquelas mulheres estão a sentir. A sensação de perda, de sufoco, de saudade de alguma coisa que nós nem sabemos bem o quê, são sentimentos que todo ser humano tem”, explicou Catarina Molder.

Morrer e renascer em palco. Sempre por amor. “Eu gosto muito de morrer em palco. Gosto de experimentar este exercício da morte, talvez porque assim vou treinando para o meu fim. E é sempre bom porque é a fingir, portanto posso experimentar várias cambiantes. É um luxo poder morrer cinco vezes numa noite. Não é para toda a gente”, confidenciou, entre risos, a cantora lírica.

É realmente um privilégio para qualquer artista, mas também um sofrimento que fica patente em palco e passa para o público. “Cinco Formas de Morrer de Amor” espelha, em suma, a violência de existir, mas assume um cariz libertário. “É de uma enorme brutalidade, mas também é uma libertação para o artista. E quando o artista se liberta, o mesmo acontece com o público. As pessoas querem ver sofrimento em palco para se libertarem”, explicou Catarina Molder.

O espetáculo que vai estar em palco no TNSJ, esta sexta e sábado, pelas 21h, serve também para assinalar o Dia Mundial da Música.