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A Rainha Santa sabia de ervas de unguentos. Se fosse hoje seria médica

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Isabel de Aragão, Rainha de Portugal, foi beatificada pelo Papa Leão X em abril de 1516, 180 anos após a sua morte. Urbano VIII é o responsável pela sua canonização em 1625

Isabel de Aragão foi muito mais do que rainha consorte. Dotada de um profundo sentido de justiça social e solidariedade com os pobres, a isso se deve ter sido canonizada pela Igreja Católica. À luz da ciência, a explicação para as curas que operou deve-se ao facto de Isabel conhecer o poder curativo das plantas e ter estudado a anatomia do corpo. O novo romance da ex-jornalista Isabel Machado recria a personagem da primeira rainha de Portugal que não abdicou de ter um papel nos assuntos de Estado

Se Isabel Machado, a autora de “A Rainha Santa”, considera Dinis de Portugal e Isabel de Aragão como o “mais interessante casal real” da história do nosso país, a história mostra que formaram uma boa parceria na governação do reino. É preciso recuar ao século XIII, à constante ameaça às frágeis fronteiras dos reinos da Península Ibérica para entender a importância de uma criteriosa política de alianças entre casas reais. Nesse tempo, como nos séculos vindouros, a diplomacia matrimonial firmava pactos entre Estados, e a noção de amor era alheia aos casamentos de príncipes e princesas, educados desde a nascença para defender os interesses do reino que os vira nascer.

Reza a história que Isabel de Aragão, a Rainha Santa Isabel, foi ao campo de batalha para separar as tropas do seu marido D. Dinis que lutavam contra as do seu único filho, o futuro rei Afonso IV. A luta pelo poder não respeitava laços de sangue

Reza a história que Isabel de Aragão, a Rainha Santa Isabel, foi ao campo de batalha para separar as tropas do seu marido D. Dinis que lutavam contra as do seu único filho, o futuro rei Afonso IV. A luta pelo poder não respeitava laços de sangue

BNP

Sobrinha-neta de Santa Isabel da Hungria – cujo milagre mais conhecido é o das rosas que muitos atribuem por mimese a Isabel de Aragão – a filha de Pedro III de Aragão tinha 12 anos quando casou com Dinis de Portugal, selando assim uma aliança dos dois reinos peninsulares contra a ameaça hegemónica de Castela. Pia e devota, a jovem princesa sentia ter recebido de Deus e da sua Santa tia [já canonizada] “a missão de se dar aos mais carenciados de todos, em plena entrega, tocando-lhes e tratando-os no exemplo de aceitação plena de Cristo, sem julgamento”. Muito jovem, e ainda solteira, tinha o hábito de visitar asilos e hospitais, o que constituía uma enorme preocupação para seu pai.

Em termos de saber, Isabel beneficia da imensa curiosidade do seu irmão Jaime [II de Aragão] que se dedica ao estudo dos poderes curativos das plantas e da anatomia do corpo. O príncipe Jaime usufruíra da proximidade com os melhores físicos [os nossos médicos] da época – judeus ou árabes residentes na Península; entre os seus educadores ilustres, contou com o notável filósofo, doutor e poeta Ramon Llull – criador da doutrina do racionalismo místico que seria condenada pelo Papa Gregório XI um século depois e considerada como desvio apóstata.

A proximidade de Isabel com o seu irmão Jaime coloca-a no mundo próximo dos mais importantes debates teológicos e filosóficos do seu tempo, sendo ela que introduz em Portugal o culto do Espírito Santo, cujos festejos se celebram nos nossos dias [este aspeto não é abordado no romance de Machado].

Já em Portugal, Isabel “vai perceber que tem um outro caminho a fazer durante o seu tempo de vida: a paz”, diz a autora ao Expresso, salientando que considera este um dos maiores legados da Rainha Santa a par da criação de casas de abrigo para as prostitutas velhas e doentes, mulheres proscritas por toda a sociedade.

Imagem da capa do novo romance de Isabel Machado

Imagem da capa do novo romance de Isabel Machado

DR

A mulher do rei poeta nunca abdicou da intervenção política e manteve uma correspondência regular com o seu irmão dileto, Jaime II de Aragão, convencendo-o “a ir em pessoa encontrar-se com o rei de Castela, com quem estava em guerra havia anos por causa de Múrcia, com mediação do rei D. Dinis. Foi um acontecimento enorme na História da Península, e reuniu os reis de Portugal, Castela e Aragão”.

Interveio junto do rei de Castela que era casado com uma filha do casal real português; “a paz entre Aragão e Castela foi conseguida em 1304, com influência direta de D. Isabel”, diz a autora que neste livro procura recriar algumas facetas menos conhecidas da Rainha Santa.

Tal como seu pai, Pedro III de Aragão, D. Dinis teve vários momentos em que achou excessivos os gastos da mulher com a caridade. Apesar disso, e da existência de momentos de grande tensão que incluíram a detenção da rainha em Alenquer na sequência das suas tentativas de mediar a disputa pelo poder entre o seu marido e o seu único filho, Isabel e Dinis, deixaram um legado assente na convivência e na existência de afinidades intelectuais, que ditaram a amizade que foi possível e o respeito mútuo entre os esposos.

Cultos, senhores de forte personalidade e determinação, Dinis e Isabel formaram a melhor dupla real da primeira dinastia do reino de Portugal. Mas nem sempre estiveram de acordo nos interesses que defenderam, nomeadamente quando a Rainha pressentiu que Afonso Sanches, bastardo real, poderia disputar a coroa ao legítimo herdeiro que a história batizaria de Afonso IV.

Isabel Machado trocou o jornalismo pelo romance histórico, ou seja a narrativa dos factos concretos pela ficção de personagens, diálogos e alguns acontecimentos. Como ela própria diz, o “o romance histórico é ficção”, não é um relato que tenha de ser sempre fiel às fontes. Mas para que o romance tenha corpo, consistência, credibilidade, “é preciso investigar os elementos disponíveis sobre a época, personagens e ambientes. Na altura da pesquisa trabalho 12 horas por dia, sete dias por semana”, disse ao Expresso a autora do livro “A Rainha Santa”, que é apresentado esta terça-feira ao fim da tarde na livraria FNAC do Colombo.

  • A médica, a Rainha Santa Isabel, e o poder espiritual da cura

    Trabalhou até "cair de exaustão". Aos 43 anos, teve um cancro de mama que a obrigou a parar para tratar de si, e descobriu uma outra forma de fazer medicina. É a história da cardiologista Teresa Gomes Mota, autora do livro Alma de Isabel - de Aragão ao Chiado, que narra a saga de uma outra médica, Clara, que acredita ter sido a Rainha Santa numa outra vida.