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Um bairro claustrofóbico, um porco ciclista e pessoas com medo de tocar o chão

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Susana Neves

A peça de teatro “Bácoro” estreia esta quinta-feira no Teatro Carlos Alberto, no Porto, e é uma espécie de alegoria suína sobre os medos, dores e alegrias do ser humano

André Manuel Correia

Há uma vila onde a claustrofobia impera e onde as pessoas vivem enclausuradas nas suas casas, com medo de tocar o chão. As únicas relações pessoais que se estabelecem são com o vizinho da frente, metáfora para o contacto que atualmente se estabelecem através de uma janela do computador. Tudo muda quando um saltimbanco chega à aldeia, com um porco amestrado a andar de bicicleta, e desafia os habitantes temerosos a descerem dos seus redutos de solidão até ao chão para assistirem a uma apresentação circense.

Este é o mote para a peça de teatro “Bácoro”, encenada por Ricardo Alves e segunda estreia consecutiva do Teatro Nacional São João, no Porto, esta temporada, depois de “Cordel”. O espetáculo tem estreia marcada para esta quinta-feira, no Teatro Carlos Alberto (TeCA), e estará em cena até 16 de outubro, com a particularidade de ser a primeira peça a ser traduzida para Língua Gestual Portuguesa.

Tudo se passa num bairro imaginário, onde não existe espaço público e no qual duas velhas vizinhas, duas crianças e um pescador – velho sábio ou guardião da moral – habitam confinados a pequenos, antigos e opressivos prédios. A chegada do saltimbanco e do seu companheiro suíno é um símbolo ameaçador de liberdade. É, acima de tudo, um embate, marcadamente divertido, entre novos hábitos e receios vetustos que ali coabitam e medram há vários anos.

Um porco ciclista trouxe liberdade com ele. E agora?

Em declarações aos jornalistas, à margem de um dos ensaios da peça, Ricardo Alves afirmou que “os hábitos de cidadania e de coletivo são todos muito dominados por contextos demasiado casuais e específicos. Isso está presente na peça. Vemos personagens que vivem enclausuradas e, de repente, quando chega a liberdade não se sabe o que fazer com ela”.

Mas quais sais são as semelhantes entre porcos e seres humanos? Ambos partilham diversas semelhanças genéticas, como uma pele sem pelos, olhos claros, narizes salientes e pestanas pesadas. O encenador explica que os porcos “são animais bastante similares ao ser humano, mas que nós, apesar de tudo, comemos”. Ricardo Alves denota ainda que “a entrega e a disponibilidade que os animais têm para amizade, para a vida em convívio, e a adaptação que eles possuem têm muito a ver connosco”

Nesta vila onde coexistem personagens de carne e osso, interpretadas pelos atores Ivo Bastos, Nuno Preto e Rui Oliveira, e marionetas manipuladas pelo trio de intérpretes que remetem para um imaginário das histórias infantis, pese embora o enredo não ser destinado aos mais pequenos.

“Eu adoro contos infantis porque eles são terrivelmente sádicos. Não há nada mais sádico do que matar a bruxa e no final fazer uma cama com os ossos dela, que é um dos contos tradicionais portugueses”, começa por explicar Ricardo Alves. “Gosto dessa aprendizagem e dessa convivência com o mal, da forma mais básica e crua. Os contos infantis eram histórias que preparavam. Os contos atuais são muito politicamente corretos para o meu gosto”, considera o criador desta peça.

“Bácoro” aporta também a curiosidade – coincidência ou não – de resultar da colaboração entre um omnívoro, o encenador Ricardo Alves, e uma vegetariana, a escultora e cenógrafa Sandra Neves.

A ideia que serve de base ao espetáculo surgiu há quase dez anos, quando Sandra ainda estava na universidade e que mais tarde se veio a materializar numa obra escultórica, que estará patente no TeCA. “Não é propriamente um espetáculo narrado, mas uma peça em que se pretende que vá despertando emoções e comunicando um pouco ao jeito de uma escultura”, explicou Ricardo Alves.

Em “Bácoro” nenhuma interpretação é fechada e abre-se uma “multiplicidade de leituras”, como frisou encenador, defensor de que “as questões sejam mais levantadas do que propriamente afirmadas de forma panfletária”.

Uma peça eminentemente visual, inclusiva e aberta a todos

A peça eminentemente visual será também a primeira a ser traduzida para Língua Gestual Portuguesa, na récita de 9 de outubro. Em comunicado, o TNSJ realça que “é mais um passo para o Teatro Nacional sublinhar a sua condição de serviço público, ao permitir que a programação esteja acessível a todos os cidadãos”. Também Ricardo Alves acha a ideia “ótima”, embora reconheça que traz uma preparação acrescida.

“Vou ter de inserir mais uma pessoa em palco. Vai-nos exigir alguma adaptação e algum esforço para que seja feito num nível de respeito e partilha que é preciso”, afirmou o encenador. No entanto, destacou que “quanto mais inclusiva for a arte, melhor”.

“Bácoro” é uma coprodução da companhia Palmilha Dentada, Casa das Artes de Vila Nova de Familicão e o TNSJ. O espetáculo pode ser visto à quarta-feira, pelas 19h, de quinta a sábado, às 21h, e ao domingo à tarde, pelas 16h.