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Houve um tempo antes de Clinton e Trump

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SURPRESAS. Dado como perdedor à partida, Harry S. Truman foi eleito em 1948. Chegou a haver jornais a fazer manchete com a sua derrota no dia seguinte às eleições

A mês e meio das presidenciais nos EUA, eis um convite a recordar histórias de campanhas passadas

Estamos a mês e meio do grande duelo. No ringue entram dois veteranos, ela da política, ele dos negócios. De um lado o sistema, de outro o antissistema. E, como de cada vez que os Estados Unidos da América escolhem um Presidente, o mundo assiste, preocupado. Desta vez mais, porque há Donald Trump. Ou – dependerá do ponto de vista – porque além dele só há Hillary Clinton.

A eleição de 2016 tem sido rica em histórias. As mais recentes, à data em que escrevo, são a pneumonia mal disfarçada da opaca candidata democrata e o reconhecimento, pelo histriónico aspirante republicano, de que afinal Barack Obama nasceu mesmo em solo americano. Antes disso, houve os e-mails do Departamento de Estado que Clinton poderá ter querido ocultar, as altercações de Trump com os pais de um soldado muçulmano americano e uma miríade de faits-divers.

O momento parece adequado, por isso, para recomendar “Whistlestop”, livro recém-publicado pelo jornalista John Dickerson, que reúne histórias de campanhas presidenciais passadas. O subtítulo é “as minhas histórias preferidas da história das campanhas presidenciais”. Intrigado pela natureza alegadamente singular da contenda deste ano, o editor de política da CBS quis perceber o que caracterizara as corridas anteriores.

Segundo “The New York Times”, um denominador dos casos evocados é o caráter imprevisível das disputas pela Casa Branca. “Se há uma constante na história das campanhas americanas é que as elites não são capazes de prever o futuro muito bem”, escreve o autor, que apresenta o programa “Face the Nation”. “As notícias são o que nos surpreende, daí que a imprensa política tenha sempre notícias: os eleitores estão sempre a desfazer as nossas certezas.” Nunca melhor dito…

Cidra e filhos bastardos

Em “linguagem simples com apartes hilariantes”, segundo o jornal, o autor narra momentos que, podendo não ser dos mais edificantes, são dos mais divertidos da democracia. Falam-nos de um ator de Hollywood que agarrou num microfone no Novo Hampshire, em 1980, para se tornar um improvável Presidente Ronald Reagan; da voz rouca do falhado pré-candidato democrata Howard Dean, em 2004; ou dos dias em que Harry Truman (1948) ou Andrew Jackson (1824) foram considerados “perdedores anunciados” (ambos viriam a vencer).

Dickerson, que foi correspondente da revista “Time”, não crê que estes momentos – que, alerta o jornal, não incluem novidades escaldantes – possam alterar o curso de uma campanha, mas tampouco está interessado em teorizar, preferindo o prazer de contar histórias, afinal de contas ofício do jornalista. Por vezes, elas fazem-nos erguer o sobrolho. Veja-se a seguinte citação: “Eles mentem quando fazem sondagens. Estão a tentar forjar uma opinião pública neste país e as sondagens profissionais pertencem a interesses abastados da Costa Leste, e mentem. Estão a tentar aldrabar a eleição”.

Proferida pelo segregacionista George Wallace, que concorreu sem partido em 1968, correspondem quase ipsis verbis ao discurso de Trump. E esta (prometo que é a última)? “O establishment republicano está desesperado por me derrotar. Não suportam ter alguém que não conseguem controlar.” Foi Barry Goldwater que disse isto em 1964. E, de novo, creio ter ouvido coisas muito parecidas nas primárias deste ano.

Outras são menos habituais, frisa o jornal “The Christian Science Monitor”: da cidra distribuída nos comícios de William Henry Harrison (eleito Presidente em 1840) ao filho ilegítimo de Grover Cleveland (o único homem que foi chefe de Estado em duas ocasiões separadas, tendo sido eleito em 1884 e recuperado a Casa Branca em 1892, após derrota na eleição de 1888). “O processo de investigação foi tão divertido! São histórias que nos aparecem à frente. E não dá para acreditar nalgumas partes da História da América”, disse o autor àquele jornal de Boston.

Whistletop. Autor: John Dickerson, Editora: Twelve; Páginas: 464; Preço: $17,97 (16€) na Amazon

Whistletop. Autor: John Dickerson, Editora: Twelve; Páginas: 464; Preço: $17,97 (16€) na Amazon

“The New York Times” teme que a organização por temas, e não cronológica, possa confundir o leitor. Elogia, porém, o “ritmo relaxado” da obra, sem a considerar ligeira. É “inquisitiva, generosa, profunda e pensada”. E uma boa forma de fugir à deprimente campanha que se vai desenrolando, e cujos momentos mais baixos ainda devem estar por acontecer. Como diz Dickerson: “É um problema toda a gente ser muito mais sectária hoje em dia”.