Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Romance inédito 
de Humberto Delgado sai em fevereiro

  • 333

Primeira página do manuscrito datilografado de “Elsa”, o romance inédito que Delgado escreveu no exílio

ILÍDIO VASCO

Escrita no exílio há mais de 50 anos, a obra revela um cariz “marcadamente autobiográfico”

São 185 páginas datilografadas em folhas de papel A4 que se encontravam no processo de Humberto Delgado depositado no Arquivo Histórico da Força Aérea. No frontispício pode ler-se: “Humberto Delgado” e, mais abaixo, “Elsa — Romance de Costumes Políticos Portugueses”. O manuscrito permaneceu inédito durante mais de meio século, mas vai ser finalmente publicado a 13 de fevereiro de 2017, dia em que se completam 52 anos desde que o ‘general sem medo’ foi assassinado pela PIDE.

Delgado foi o candidato da oposição às eleições presidenciais de 1958, após as quais pediu asilo político na embaixada do Brasil em Lisboa, seguindo daí para o Rio de Janeiro, onde viveu um longo exílio. É nesse período, entre 1959 e 1963 — de acordo com o seu neto e biógrafo Frederico Delgado Rosa —, que escreveu “Elsa”.

Ainda segundo o seu biógrafo, “Elsa” começou a ser escrito em Lisboa, durante os três meses em que Humberto Delgado esteve refugiado na embaixada do Brasil, situada curiosamente na mesma artéria onde estava instalada a sede da PIDE.

Só em 2016 se reavivou o interesse por este romance “perdido”, durante os trabalhos preparatórios da exposição “General da Liberdade e Escritor”, patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). O inédito será dado à estampa pela editora Guerra & Paz.

“‘Já para a cozinha! Estúpida!’ Apontando a porta, insulta a jovem que ri, despreocupadamente, sentada no sofá. Ao increpá-la, tremem-lhe as adiposas curvas de matrona. De olhos parados, Elsa hesita em aceitar o vexame sem reação.” O arranque da obra demonstra a preocupação do autor com a condição feminina e o papel central da mulher, revelando um cariz que Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz, considera “marcadamente autobiográfico”.

“Elsa” narra a relação entre um militar, Armando Dias, e a filha de uma criada, estudante e apreciadora de cinema, mergulhada num ambiente de revolta social e de perseguições por parte da polícia política. Apesar desse cariz pessoal, são óbvias, de acordo com o editor, as referências à situação política do país naquela época.

Humberto Delgado será também o tema central de um documentário, ainda em fase de produção por parte da SPA, que conta com depoimentos do biógrafo, da filha e historiadora Iva Delgado, de António Cartaxo (autor de programas de rádio e do livro “Quase Verdade como São Memórias”) e do editor da revista “Visão História”, Luís Almeida Martins.