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Mandar flechas no escuro

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Manuela Costa

Inaugurou sexta-feira a exposição de Rui Moreira no Pavilhão Branco do Museu da Cidade, em Lisboa. “Os Pirómanos” mostra um conjunto de 13 obras selecionadas de um artista para quem a arte nasce do corpo

"I am a lost giant in a burnt forest." Este é o título da primeira obra da exposição de Rui Moreira em que pousam os olhos ao entrar no luminoso Pavilhão Branco do Museu da Cidade. Um desenho emoldurado que pesa 400 kg e precisou de seis homens para o pendurar na parede. E que nasceu, primeiro, de um incêndio numa montanha em Montesinhos, observado pela janela; conjugado com a leitura de um livro de Roberto Bolaño, "2666"; e com um filme de Herzog centrado numa personagem obcecada em conseguir atravessar um barco por terra, para o outro lado da montanha. Esse fito toma-lhe quatro anos de vida, imerso na selva amazónica, sozinho no seu intuito por todos considerado louco. Mas quando finalmente o atinge, explica como não podia desistir, sob pena de não conseguir voltar a sonhar. "Este quadro tem muito que ver com isso e com a criação artística em geral", assegura Rui Moreira. "Ou se cria para passar por cima da montanha, ou não vale a pena tentar - porque não se conquistam novos territórios."

Foram precisos seis homens para levantar estes 400 kg de quadro e pendurá-lo na parede

Foram precisos seis homens para levantar estes 400 kg de quadro e pendurá-lo na parede

Manuela Costa

Este quadro demorou dois meses a pintar (é guache e caneta, sobre papel) com a ajuda de quatro assistentes – mas a maioria das obras do artista de 45 anos costumam demorar bem mais. Esse é o tempo, lento, amadurecido, de que Rui precisa para a minúcia das suas obras. Para ele, o artista é "uma antena", tem de sentir o que quer fazer "no corpo". A sua criação é intuitiva, não cerebral. "Desenhar, para mim, é como a baba do caracol - não é separável das outras funções fisiológicas da vida." Mas apesar de gostar de usar o tempo nas suas obras, Rui impõe-se um horário. Começa a trabalhar cedo, pelas 8h, e trabalha até à hora do jantar. Por vezes, continua a seguir. "O mais importante é que haja um ritmo", explica. Muitas vezes, pinta ao som de música, tanto pode ser Bach como punk (teve duas bandas punk na adolescência, comenta). Outras vezes, opta pelo som do silêncio.

Percorrendo as 13 obras selecionadas da exposição, uma influência fundamental destaca-se: a do poeta Herberto Helder. "É o meu artista preferido português, entre todos os artistas", partilha. Um dos desenhos da série "Os Telepatas" foi iniciado no dia da morte do poeta, 23 de março de 2015, com base em dois poemas seus. Aquele desenho, sobre a morte, demorou cinco meses – e se em primeiro plano surge uma figura, pés enterrados no mar e mãos engolidas por dois polvos compridos, o fundo é negro, ocupados por fetos ou colunas vertebrais, consoante o olhar de quem vê. Rui Moreira mantém uma ligação "visceral" com os seus quadros. Quando aquele desenho chegou ao fim, fez questão de comer os polvos que comprou para desenhar na forma de um arroz de polvo. Era uma maneira de derrotar a morte.

Ao lado, outro quadro da mesma série faz o reverso: desta vez, o tema é nascimento, vida. Foi criado por ocasião da chegada de Vicente, de 5 anos, o filho do artista, a quem a exposição é dedicada. "Como fui pai tarde, aos 40 anos, tive de tornar-me adulto muito depressa - mas ao mesmo tempo quando se tem um filho, revive-se a infância." Essa dualidade, transmitida no colo que os pais dão aos filhos, mas também nos "filhos que tomam conta dos pais", está bem presente no quadro.

"Os Telepatas" - ou sobre a vida e a morte

"Os Telepatas" - ou sobre a vida e a morte

Manuela Costa

No piso de cima, os desenhos são muito diferentes. Mais claros, mais geométricos, mais antigos na biografia do autor. A base é a arte islâmica, que Rui Moreira considera estar profundamente inscrita no ADN dos portugueses, mas acrescenta-lhe polémica e questões sociais, como acontece na "Nossa Senhora do Aborto", uma mulher velada, com falos como cornos, que sofre em silêncio, com os pássaros de Hitchcock em fundo.

No piso de cima da exposição "Os Pirómanos", as obras têm um estilo totalmente diverso. Mais geometria, às vezes com régua e esquadro, inspirada na arte islâmica

No piso de cima da exposição "Os Pirómanos", as obras têm um estilo totalmente diverso. Mais geometria, às vezes com régua e esquadro, inspirada na arte islâmica

Manuela Costa

Da infância, passada em Trás-os-Montes até aos 4 anos, Rui lembra-se dos "lobos a atravessar a estrada", das "paisagens". Cedo, fazia os seus "filmes", em pedacinhos de papel higiénico, que se encadeavam numa história. Na adolescência, desenhou sempre, fazia pequenas esculturas. Já em Lisboa, frequentou a escola António Arroio, mas foi só quando entrou no Ar.co, aos 18 anos, e conviveu com professores artistas é que percebeu a força do que queria ser. Não tem medo de arriscar, de se atirar para a frente, assegura. Estudou um semestre no Art Institute of Chicago, aprendeu muito "com a loucura dos Americanos", com a sua ausência de medo em errar.

Em Portugal, a primeira exposição aconteceu em 2000, na Fundação Calouste Gulbenkian. Seguiram-se outras, na galeria Miguel Nabinho - Lisboa 20, até que começou a expor no estrangeiro. Primeiro na galeria Jeanne Bucher Jaeger, em Paris, em 2008, depois numa exposição na Alemanha, ou, por fim, no Luxemburgo, no MUDAM, em 2014. Por cá, há 7 anos que não expunha.

É "a inquietude, a insatisfação, a curiosidade, a vontade de descobrir, de não repetir" que leva Rui Moreira a criar. Desenha todos os dias, há mais de 20 anos – e se por algum acaso está algum tempo sem desenhar, começa a "não ficar bem". Sente-se mais vivo diante da arte. Em casa, não tem nenhuma obra sua e não lhe custa desapegar-se das obras que faz. De preferência, gosta que comprem os seus desenhos para os expor num museu de que muitos possam usufruir, mais do que para um particular. "Não crio para mim, crio para os outros. Mando flechas no escuro."

"Os Pirómanos", de terça a domingo entre as 10h00 e as 13h00 e das 14h00 às 18h00. Para ver até 11 de dezembro, no Pavilhão Branco do Museu da Cidade, em Lisboa