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Uma barrigada de arte no bairro da boémia

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No "Bairro das Artes" o público deambula durante uma noite por inúmeras inaugurações que têm lugar na sétima colina

d.r.

Esta quinta feira à noite, a sétima colina será palco de dezenas de inaugurações e acontecimentos culturais. Alimento para os olhos e para alma que pode conhecer a pé, de mapa e copo na mão. Uma mostra que se prolonga por um mês

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

TEXTO

Jornalista

Se está em Lisboa e não tem programa para a noite desta quinta feira, aproveite para palmilhar a sétima colina de mapa na mão –entre galerias, ateliês, livrarias, museus, salas de espetáculo e uma sala de cinema – para ver o que mais de estimulante está a pulsar na arte contemporânea.

É a sétima edição do Bairro das Artes, que marca a rentrée cultural desta zona da capital, onde a boémia e as artes há muito brindam juntas. Este ano a programação promete, mais uma vez, diversidade, originalidade e boas surpresas na área da pintura, fotografia, gravura, desenho, escultura, instalação, arte de rua, design, ilustração, joalharia, música e cinema. Largue a Netflix, a TV e dê uma chance ao que aqui lê.

O evento, constituído por dezenas de inaugurações, finissages, visitas guiadas, conferências, instalações ou lançamentos de livros, arranca às 19h e prolonga-se em horário alargado até às 23h, com entradas gratuitas. A rota deste Bairro das Artes convida a uma boa caminhada e pode conhecê-la neste link. Vai desde o Largo do Rato ao Cais do Sodré, passando pelo Bairro Alto e Chiado.

A ideia é deambular, cruzando espaços, e cada um fazer as suas escolhas do que quer conhecer e fruir. O pintor, escultor e fotógrafo francês Edgar Degas, fundador do impressionismo, terá dito um dia: "A arte não é o que se vê, mas o que faz os outros verem". Um mérito da associação Isto Não É Um Cachimbo, que está a trazer novos públicos para as galerias e a abrir novas rotas e espaços para a arte contemporânea. Ganha o público, ganham os artistas, ganha Lisboa.

"É a vitória do público. Que com a sua crescente participação e interesse nos últimos anos tem feito com que cada vez mais espaços, galerias e artistas se associem a esta celebração da arte contemporânea", afirma Ana Matos, diretora artística da Galeria das Salgadeiras e uma das organizadoras deste evento. E deixa o conselho: “Não queiram ver tudo. Até porque emocional e fisicamente é impossível verem tudo o que há para ver numa só noite. Não é isso que se pretende. O facto de se concentrarem muitas inaugurações no mesmo serão não é para as pessoas andarem a correr para chegarem a todo o lado. Para isso já basta a vida e o quotidiano de trabalho que todos temos. O importante é escolher bem, encontrar amigos, desfrutar de uma noite agradável, conhecer os artistas e curadores. Não tenham a ânsia de querer ver tudo, como numa viagem de ‘tuk tuk'."

O artista e organizador Cláudio Garrudo acrescenta ainda outra sugestão: “Façam um percurso descontraído e descomprometido. Guardem o mapa e o livro da programação que se encontra disponível nos vários espaços. Porque a maioria dessas exposições vão estender-se por mais um mês.”

OS ANOS 80 QUE ELE TÃO BEM DESENHA

"Eu sei das coisas que eu sei", de Filipe Cerqueira

"Eu sei das coisas que eu sei", de Filipe Cerqueira

D.R.

Destaque para exposições como “Eu sei tudo das coisas que eu sei”, de Filipe Cerqueira, onde o jovem artista, que tem autismo, nos faz revisitar através das suas ilustrações o mundo dos anos 80. Cruzam-se os Beach Boys com Mickey Mouse, o inspetor da Pantera Cor de Rosa com a voz de Snoopy. “Sou especial porque sei muito sobre os desenhos animados e filmes antigos. Especialmente sobre a Hanna Barbera, sobre o Bucha e Estica, sobre os Três Estarolas e as pessoas que fazem as vozes dos desenhos animados. Gosto de ver o Bucha e Estica e os Três Estarolas antes de dormir, porque me animam e relaxo-me antes de adormecer”, conta Filipe. Delicioso. Abysmo, rua da Horta Seca, 40 R/C.

FÓNIX, A MARGEM SUL

Fónix, de Nuno Saraiva

Fónix, de Nuno Saraiva

D.R.

Quanto ao Fónix, do ilustrador Nuno Saraiva, leva-nos a conhecer por dentro a Casa da Imprensa agora transformada em sala de exposições para o traço crítico e bem-humorado do artista. Esta obra, criada para a Festa da Ilustração em Setúbal, mostra, pela primeira vez, um conjunto de trabalhos que permite perceber que todas as margens sul vivem paredes-meias com o centro desta cidade. "No fundo, é isto: saímos à rua e as coisas surgem-nos indistintas, como se habitássemos um triste nevoeiro. Mas logo alguém nos ultrapassa para desenhar o contorno do que vemos. Como se fôssemos todos ceguetas, pitosgas, que tudo mora no bairro da oftalmologia." Casa da Imprensa, Rua da Horta S, 20 R/C

A TRADIÇÃO PARA INGLÊS VER

"Very Typical", de Tiago Casanova

"Very Typical", de Tiago Casanova

D.R.

Tiago Casanova aborda a Lisboa recriada para turistas e a tradição plastificada ‘para inglês ver’ 'que de tão massificada se esvazia de significado. (...) Porque a arte, na sua abordagem mais etnográfica, pode contribuir para uma reflexão sobre a contemporaneidade e os problemas que ao Homem se colocam. (...) ‘Very Typical’ é o reflexo de uma atitude crítica, sendo um ato de revolta a tentar sugerir alguma ordem no caos, para que Lisboa continue a ser nossa, de todos, ‘menina e moça’." Para uma cidade melhor. Galeria das Salgadeiras, Rua da Atalaia, 12 a 16.

JÓIAS DO OUTRO LADO DO MUNDO

Artistas da Ásia

Artistas da Ásia

D.R.

A Galeria Tereza Seabra, que há mais de vinte anos tem morada no Bairro Alto com joias de autor, estreia-se este ano no Bairro das Artes com as obras de 6 artistas da Ásia: Jun Knonishi, Michiiro Sato, Seugli Kown, Kazumi Nagano, Ritsuko Ogura e San Tho Duong. A joia como forma de expressão artística. Oportunidade para conhecer ou regressar a esta loja-ateliê onde as joias tanto contam e inspiram. Tereza Seabra Joalharia, Rua da Rosa, 162A

JORGE SILVA MELO EM FILME

Jorge Silva Melo

Jorge Silva Melo

Antonio Pedro Ferreira

"Ainda não Acabamos, como se fosse uma carta" é um filme autobiográfico, em que Jorge Silva Melo se põe a si mesmo no centro da ação como protagonista. "Como se fosse uma carta, ou como se fosse um autorretrato." Um filme sobre o Silva Melo de hoje, mas também sobre as memórias que transporta e sobre o que tem para deixar, o seu legado. Cinema Ideal, Rua do Loreto 15/17, com sessão às 23h.

POESIA E AVANT-JAZZ

Concerto na Galeria Zé dos Bois

Concerto na Galeria Zé dos Bois

D.R.

Antes de se entregar à música e à dança na ZDB, percorra os antecedentes da poesia concreta portuguesa em obras literárias de Jaime Salazar Sampaio e Alexandre O´Neill. Verbivocovisual centra-se no período 1959-1974 e na primeira geração de poetas experimentais portugueses. A mostra integra publicações e trabalhos de autor e coletivos, cruza diapositivos, impressões gráficas, obras de arte e gravações àudio. Esta pode ser uma forma de acabar a noite em festa. O trabalho de guitarra elétrica de Tom Carter mais o duo de Chris Corsano e Rodrigo Amado (dois dos maiores vultos do avant-jazz europeu) reencontram-se em Lisboa no final desta edição do Bairro das Artes. Tempo para dançar. Concerto às 22h. ZDB, Rua da Barroca, 59, Lisboa.