Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Oliver Stone: “A NSA tornou-se uma ciberameaça para o mundo”

  • 333

JAVIER ETXEZARRETA

Em entrevista ao Expresso, o realizador fala de “Snowden”, o filme que dedica ao ex-colaborador da NSA e que estreia esta quinta-feira em Portugal

Luís M. Faria

Jornalista

Oliver Stone tornou-se famoso com “Platoon” (1986), um extraordinário filme baseado nas suas experiências de combatente no Vietname. Da mesma altura e não menos poderoso, “Salvador” fala da guerra civil no país homónimo. A América Latina é um dos seus focos de interesse, e em anos recentes Stone defendeu personagens controversos como Hugo Chávez. Mas as suas obras mais diretamente políticas costumam ocupar-se de figuras norte-americanas: “JFK”, Nixon”, “W” (sobre George W. Bush). Agora dedica um filme ao jovem analista da NSA que revelou a extensão das atividades de vigilância de cidadãos públicos e privados nos EUA e no mundo inteiro. “Snowden”, hoje estreado em Portugal, conta a evolução do seu protagonista desde uma passagem falhada pelo exército até os eventos dos últimos três anos, mostrando as experiências profissionais que os despoletaram. O EXPRESSO falou com Stone via Skype.

Como vê a figura de Edward Snowden? Um herói americano?
Bom, você viu o filme, certo? Acho que fala por si. Não ligo muito a etiquetas, herói, patriota, essas coisas que se usam em peças curtas sem pensar muito. Francamente, ele fez o que fez, e é isso que o filme mostra, tanto quanto sei. É a história principal. O julgamento fica para quem vê.

Mas se alguém chamasse herói a Snowden, discordaria?
Não. Sei que ele não é de certeza um traidor. Nenhum traidor passaria toda aquela informação aos jornais de graça. Parece ser motivado inteiramente por convicção e patriotismo.

O que lhe diz a teoria, ultimamente pouco ouvida, de que ele estaria a trabalhar para a Rússia?
Não faz sentido. Ele não tinha nada a dar aos russos. Conforme o filme mostra, apagou a informação depois de a dar aos jornalistas. Não sei quais poderiam ter sido os seus motivos. Ele quer regressar a casa. É a pátria dele. E tem criticado a Rússia, como aliás outros países, pelas suas atividades de vigilância. Mas tanto quanto sei, e no meu íntimo acredito que é assim, ele não quer negociar nada com eles.

O que ganha a Rússia por o acolher?
Ele ficou ali retido. O seu passaporte foi revogado quando ia em pleno voo. Esteve numa zona de trânsito durante 30 e tal dias. Agora vejamos. A Rússia há muito que tentava negociar um acordo de extradição com os Estados Unidos. Os Estados Unidos recusavam. Os russos estavam interessados em deitar a mão a criminosos, financeiros e outros, que roubaram dinheiro na Rússia. Os Estados Unidos protegiam essas pessoas. Não havia nenhuma obrigação de entregar Snowden. Se o tratado de extradição existisse, tê-lo-iam feito. Porque, com franqueza, Putin respeita a lei e apelou várias vezes a tratados internacionais. Não tenho os pormenores todos, mas é para isso que eles servem.

O senhor foi à Rússia falar com Snowden e filmá-lo…
Fui ter com o Snowden verdadeiro para a sequência final, sim.

Como foi a experiência?
Tínhamos acabado de fazer um filme esgotante. Estávamos satisfeitos de termos conseguido o que queríamos em lugares como a Alemanha, o Havai, Hong Kong... Sentíamo-nos exaustos. Fizemo-lo num único dia, num sítio secreto. Ele estava nervoso, pois não é um ator. Fala de forma muito direta. Como o vemos em conferências é como ele é. Foi um esforço para ele. Precisámos de vários takes para obter o que queríamos.

Houve algum aspeto digno de nota nessa viagem, alguma precaução particular…?
Não. Eu já lá tinha estado antes, nove vezes. Conhecíamos toda a gente que precisávamos de conhecer para nos ajudarem. Correu muito bem.

Tem alguma ideia sobre o que vai acabar por acontecer a Snowden?
Não sou profeta. Se as coisas mudarem no mundo, se houver mais acordos no sentido da paz, é inevitável que ele regresse aos EUA. Se as leis sobre vigilância mudarem ou forem mitigadas, haverá um bom fim para o senhor Snowden. Mas ele é perfeitamente capaz de tratar de si e de sobreviver na Rússia. Como o filme mostra, a sua namorada Lindsay Mills foi ter com ele lá. Estão juntos há nove anos.

E quanto à possibilidade de um perdão presidencial?
Há esperança. Se o senhor Obama tivesse um pouco de compaixão, fá-lo-ia. Porque o senhor Snowden contribuiu para as reformas que foram feitas nos Estados Unidos – as poucas reformas que se fizeram. E continua a defender cibertratados, e uma melhor proteção do país. Não é o único. Muitos críticos têm dito que a NSA desperdiça imenso dinheiro em coisas que não lhe competem. Devia fazer ser mais competente nas suas tarefas próprias, que consistem na busca de sinais. Percebe? É essencialmente um esforço de defesa. Mas há muitos anos que se lançaram à ofensiva, pervertendo o sentido da NSA. Originalmente, era uma agência de segurança, mas tornou-se uma ciberameaça para o mundo.

Quando Obama foi eleito, havia muitas expectativas de que seria um presidente diferente nas questões de transparência, entre outras. Acha que essa ideia era ingénua?
Ele é que o disse. Uso no filme algumas das suas frases em 2008. Não mais escutas ilegais, diz ele, queremos transparência. Tudo isso foram as promessas suas de uma nova era para o país. Acabar com as políticas de Bush. Mas não mudaram de todo. Pelo contrário. Obama foi além de Bush.

Sendo o senhor alguém que fez vários filmes sobre governos e o exercício do poder, sob uma forma ou outra, o que acha que lhe aconteceu?
Algures entre ser eleito e assumir o cargo, ele foi transformado pelos órgãos da segurança nacional (national security state). De certeza.

Porquê? Por haver tantas tarefas urgentes onde precisava deles que não teve realmente escolha?
Talvez seja isso. Talvez ele não tivesse a força necessária para enfrentar esse establishment. Ou talvez o governo dos Estados Unidos esteja mesmo fora de controlo e não haja maneira de o segurar.

Ou ele no fundo terá sido sempre assim?
Bem, há quem diga isso. Que em Chicago [onde Obama foi ativista e senador antes de ser eleito presidente] ele não confrontava as pessoas, fugia sempre de as contestar. Era um suavizante.

Falando agora do filme, quão próximo da realidade se encontra, ao nível dos pormenores?
Bastante próximo, segundo Snowden. Em assuntos com implicações políticas, está o mais próximo que um filme pode estar. Não usamos um dispositivo de documentário, mas sim cenários de filme, atores. Há sentimentos entre ele e a sua namorada que não fomos buscar a nenhum jornal. Não sabemos como foi exatamente. Mas falando com ele e com ela, acho que conseguimos dar um retrato muito parecido ao que foi.

Quanto a certas atividades da NSA, por exemplo quando eles estão a espiar aquela mulher muçulmana que se despe em casa [à distância, através da câmara do seu portátil, que a mulher não percebe estar a filmá-la], sabe de casos reais em que isso aconteceu?
Oh sim, houve muitos casos de pornografia. É quase inevitável na NSA. Eles são trinta mil. Não sei quantos estão em determinadas mesas ou departamentos, mas foi noticiado que houve ações ilícitas, e esta pode ter sido uma delas. E mais. Até sexo.
Além disso, temos de compreender que estamos a lidar com uma questão de vigilância maciça. Maciça. Neste momento, eles escutam o mundo inteiro. Cabos submarinos no Atlântico e no Pacífico. Satélites gigantescos, a 3500 quilómetros no espaço, com antenas do tamanho da Torre Eiffel. E também novo computadores cada vez mais rápidos. Diz-se que estão a trabalhar naquilo a que chamam computadores quânticos. Palavras-passe são quebradas, mas a melhor solução, tanto quanto sabemos, ainda é a encriptação poderosa.
Também há a questão da ciberguerra que Snowden levanta. No Japão, andam a plantar malware ofensivamente nas portas traseiras de sistemas em países que são nossos aliados, não inimigos – aqueles que definimos como inimigos. É uma situação confusa. A ciberguerra está para ficar. Começou por ser defensiva, agora é ofensiva. É um problema grande. Pode facilmente dar origem a uma guerra.

Durante a rodagem, alguma vez se sentiu espiado?
Não. Tomámos algumas precauções. Tentámos estar o maior tempo possível offline. Não usar a internet. Encriptação, quando tínhamos de enviar scripts. Cortávamos o script em bocados. Nunca estaria todo no mesmo lugar ao mesmo tempo. Fizemos um esforço extra para estarmos seguros. Mudámos as filmagens para a Alemanha. A Alemanha tem uma longa história de vigilância. Apoiaram Snowden mais. As sondagens mostram que povo alemão não quer este tipo de superestado.

Espera que o filme tenha algum efeito?
Isso é consigo. Já é suficientemente cansativo tentar contar a história da forma mais exata possível. Não sou um ativista nesse sentido, sou um dramaturgo.

Mas um dramaturgo com um ângulo. Podem-se tirar conclusões sobre as suas inclinações políticas a partir de filmes.
Não. As cenas aqui são semelhantes ao que aconteceu. Claro que não retrato pessoas concretas da NSA, pois uso personagens compostas [que fundem várias pessoas numa só]. E o senhor Snowden dá-me um certo sentido da maneira como falam. Deve compreender que até hoje só hoje três pessoas que enfrentaram a NSA, queixando-se de atividades ilegais e sendo punidas por isso: Bill Binney, Thomas Drake e o próprio Snowden. Havia muito poucos insiders com quem se podia falar. É mesmo difícil. Checámos tudo o que podíamos com gente do mundo da intelligence, mas o senhor Snowden acabou mesmo por ser a nossa principal fonte.

Teve algum contacto com o governo americano? Houve dificuldades?
Quanto pedimos informação sobre a NSA, deram-nos o material de publicidade que normalmente entregam ao público.

E não houve mais nenhum contacto?
Visitámos o museu deles.

Sente alguma preocupação por eventuais efeitos negativos que as revelações de Snowden possam ter tido?
Eles dizem isso, mas nunca apresentaram quaisquer provas. Acho que a verdade é o oposto. Snowden mostrou ao mundo que estavam a exagerar, a ir demasiado longe. Não é preciso escutar o mundo inteiro para conseguir informações chave. A boa informação obtém-se da forma tradicional: uma boa rede de detetives e informadores, e os próprios grupos que levam a cabo atos de terror. Esses grupos cometem erros. Mas são muito espertos. Estão muito à frente do público no que toca aos dispositivos e métodos que usam.