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Uma bela meia dúzia

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VALIOSAS. Gravuras que retratam as seis irmãs, vendidas pela Sotheby’s após a morte de Deborah por mais de 7000 euros

Para a rentrée, propomos uma biografia coletiva de seis mulheres que marcaram o século XX no Reino Unido

Uma nazi, uma fascista, uma comunista, uma romancista, uma mulher do campo e uma duquesa. Ou, numa abordagem mais familiar, Unity, Diana, Jessica, Nancy, Pamela e Deborah. Eis as míticas irmãs Mitford, figuras emblemáticas da Inglaterra do século XX e protagonistas de “The Six”, lançado por Laura Thompson nos Estados Unidos há dias e no Reino Unido há alguns meses com o título “Take Six Girls”. A autora compara os rótulos que vieram a colar-se à pele das suas biografadas com os que caracterizaram, séculos antes, as mulheres de Henrique VIII. Já a revista “New Statesman” chama-lhes “as Kardashian da sua era”.

Tina Brown, editora das revistas “Vanity Fair” e “The New Yorker”, considerou o livro “fascinante” numa crítica que escreveu para “The New York Times”. A seu ver, a autora captou o “magnetismo errático e a leveza” das seis mulheres sem esquecer a “trágica escuridão” de algumas das suas opções de vida. “As rivalidades das Mitford eram tão intensas como as suas lealdades”, conclui. Telenovelesco? Ou mais reality-show, dado que existiram mesmo?

Nascidas entre 1904 e 1920 na baixa aristocracia de Northumberland, as divergências políticas de umas, as obras dadas à estampa por outras e o estilo de vida glamoroso de quase todas tornaram as irmãs Mitford famosas. Já o único filho varão de seus pais, Thomas (morto em combate na II Guerra Mundial), caiu no esquecimento. Ensinadas em casa (o pouco que era suposto uma mulher do seu nível aprender), criaram uma língua própria para comunicarem entre si, a que chamaram “boudledidge”. Jessica recorda este e outros episódios em “Hons and Rebels”, um relato da sua infância.

Casamento na presença de Hitler

Foi no período entre guerras que se definiram os posicionamentos das irmãs face ao que se passava no mundo. Nancy era socialista e veio a trabalhar em Londres sob as bombas nazis. Diana, de “serenidade dinâmica e sorriso de esfinge”, trocou o primeiro marido por Oswald Mosley, líder dos fascistas britânicos, com quem casou em Berlim na presença de Hitler. Chegou a estar presa por partilhar os ideais do esposo. Unity adulava o ditador alemão ao ponto de ter tentado suicidar-se a tiro quando o Reino Unido declarou guerra à Alemanha.

Pamela não assumia preferências políticas, mas era antissemita. O próprio Thomas foi para a guerra, mas só contra o Japão Imperial, tendo-se recusado a lutar contra os nazis, de quem gostava. Já Jessica era comunista e foi viver para os Estados Unidos depois de ter casado em segredo com um sobrinho de Winston Churchill, também com simpatias estalinistas. Sem surpresas, estava de relações cortadas com Diana, com quem só se reuniu para visitar Nancy no leito de morte, em 1973. “Ser odiada não significa absolutamente nada para mim, como sabes”, escreveu à irmã Deborah, em 2001. As irmãs mantiveram, apesar das querelas, laços fortes, tendo trocado profícua correspondência que sobreviveu até hoje.

“The New York Times” destaca o retrato, neste livro, da “hiper-romântica” Unity, que “hoje poderia ser alvo de um recrutador do Daesh”. Ingénua e primária, na sequência da Noite das Facas Longas, em que Hitler ordenou a execução de dezenas de oficiais nazis, incluindo Ernst Röhm, Unity comentou: “Tenho tanta pena do Führer… é que Röhm era o seu camarada e amigo mais antigo”. Depois de tentar pôr fim à vida, viveu com incapacidades graves e morreu aos 34 anos.

The Six, autora: Laura Thompson, editora: St. Martin’s Press, páginas 400, preço: £22,32 (26,35€) na Amazon

The Six, autora: Laura Thompson, editora: St. Martin’s Press, páginas 400, preço: £22,32 (26,35€) na Amazon

O Natal da castelã

“The Boston Globe”, também elogioso com a obra, lastima que Thompson não consiga explicar o fascínio “repugnante” de tantas das Mitford por totalitarismos. Tina Brown reconhece que “talvez seja impossível”. Especula com a insegurança trazida pelo desaparecimento de uma ordem mundial segura e arrumada.

Nancy encontrou escape em Paris, onde tinha um círculo de amigos, “crème de la creme”. Publicou livros como “The Pursuit of Love” e “Love in a Cold Climate”. Jessica escreveu um livro de memórias, mas destacou-se com “The American Way of Death”, uma investigação sobre a indústria funerária nos Estados Unidos. Deborah, a mais nova, foi membro do Partido Social-Democrata, duquesa de Devonshire por casamento e, como tal, castelã da mansão de Chatsworth, ainda hoje das mais célebres casas senhoriais inglesas. Astuta, pôs o património a render: todos os anos a casa é abundantemente visitada, sobretudo na altura em que se enche de decorações natalícias. A última das Mitford, que também publicou memórias, morreu há dois anos, mas a obra permanece. A próxima temporada festiva começa já a 5 de novembro, com toda a classe e o encanto que caracterizaram o clã.