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A Biblioteca de todos os espantos

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RARIDADES. A Biblioteca Almeida Garrett mostra 100 tesouros da Biblioteca Pública do Porto. Na imagem, Missal Rico de Santa Cruz, século XVI

Em 1543 a Europa e o mundo assistiram a um momento verdadeiramente revolucionário. Um daqueles fragmentos de tempo capazes de questionar tudo quanto é dado por adquirido, ao ponto de poder entrar no domínio da blasfémia qualquer questionamento dessa ordem estabelecida. O astrónomo polaco Nicolau Copérnico (1473/1543) transformou-se no agente dessa mudança ao publicar, pouco antes de morrer, um tratado intitulado “De revolutionibus orbium coelestium” (“Das revoluções das esferas celestes”). Copérnico esperou trinta anos até considerar a possibilidade de revelar um trabalho que antevia no mínimo polémico, e de certeza causador de incómodos vários. Tinha todos os motivos do mundo para assim pensar. Sob a capa de um título tão genérico destruía a ideia de um universo geocêntrico e redefinia o papel da Terra, ao classificá-la, não como o centro do universo, mas tão só mais um planeta a girar em torno do seu eixo com uma órbita em torno de um sol fixo.

“Das revoluções das órbitas celestes” (1543), de Nicolau Copérnico

“Das revoluções das órbitas celestes” (1543), de Nicolau Copérnico

Não obstante o impacto de um livro tão marcante na revolução científica do século XVI, nos duzentos anos seguintes à sua publicação, raros foram os astrónomos a dar crédito à tão controversa teoria de Copérnico. A obra tem hoje um incrível valor monetário e pode ser vista por estes dias na Biblioteca Almeida Garrett, ao palácio de Cristal, no âmbito da exposição “100 Tesouros da Biblioteca Pública do Porto”, com curadoria de Fernando Pinto do Amaral.

Raras vezes uma expressão terá tido uma utilização tão adequada e verdadeira como a que dá título a esta mostra. Com a vantagem de haver aqui uma assinalável polissemia associada ao termo “tesouros”. São-no, de facto, não apenas por em alguns casos se tratar de obras cujo valor monetário estará para lá de qualquer cálculo razoável, mas sobretudo por constituírem luminosos exemplos do saber e da criatividade humana.
Desse ponto de vista, não haverá dinheiro algum capaz de cobrir a falha que a sua ausência constituiria no por vezes sinuoso, mas continuo progresso da humanidade a partir do questionamento, da dúvida, da ousadia, do maravilhamento perante o desconhecido.

Seríamos mais pobres sem obras como a “Fábrica do Corpo Humano”, de Vesálio, de que a Biblioteca portuense possui um dos raríssimos exemplares da primeira edição da obra fundadora da Anatomia moderna, assinada por Andries van Wesel (Brusexas, 1514-1564). Com quase 700 páginas ilustradas com 200 xilogravuras atribuídas a um discípulo de Ticiano, a obra é tida como um dos exemplos maiores das artes gráficas da Renascença.

Obra de Galileu datada de 1632

Obra de Galileu datada de 1632

Organizada em doze núcleos e concebida a partir das coleções de uma biblioteca com mais de 700 mil espécimes registados, desde códices medievais manuscritos, livros impressos ao longo de mais de 500 anos, mapas, partituras, jornais ou revistas, a exposição é um sobressalto de emoções. Quase não há momentos de pausa naquele ambiente de escassa iluminação, tão intensas são as emoções suscitadas por tão raros e sumptuosos documentos.

Logo a abrir estão os belíssimos códices medievais, muitos deles de teor religioso, datados de um tempo em que a caligrafia e a iluminura se assumiam como uma outra forma de arte. Na sua maioria são originários da chamada “Livraria de mão” do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, transferidos em 1834 para o Porto por Alexandre Herculano, após a extinção das ordens religiosas na sequência do triunfo dos liberais.

No núcleo das “Viagens”, impressiona a extraordinária cópia manuscrita da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499, provavelmente datada dos primeiros anos do século XVI. Transcreve um diário de bordo atribuído a Álvaro Velho e foi incluída pela UNESCO no património Memória do Mundo.

Cópia manuscrita do Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499

Cópia manuscrita do Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499

Não obstante ser este um núcleo com poucas obras, as que mostra, são de uma dimensão esmagadora, como as que mostram Marco Polo a percorrer a Rota da Seda, ou o portuense Silva Porto a explorar o interior de Angola, num percurso fascinante, recheado de relatos, estudos e imagens do Oriente e do Brasil.

A Biblioteca Pública do Porto sempre foi conhecida pela excelência das suas coleções de periódicos de todo o tipo. Se neste núcleo se impõe a referência às revistas literárias “A Águia”, “Orpheu” e “Presença”, não deixa de merecer relevo o peculiar periódico manuscrito pelo pintor António Carneiro enquanto jovem estudante: “O Mosquito” (1888).

Nesta deambulação há lugar ainda para uma raríssima primeira edição de “Terra de pecado”, o primeiro romance de José Saramago, um importante espaço dedicado a incunábulos, livros impressos nas últimas décadas do século XV, quando Gutemberg descobre e aperfeiçoa a imprensa de tipos móveis, uma área dedicada aos clássicos, com uma edição antiga de “Os Lusíadas” ou um exemplar da “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, além de obras de Damião de Góis, Descartes ou Erasmo de Roterdão.

A Águia: revista quinzenal ilustrada de literatura e crítica, Porto, 1910-1932

A Águia: revista quinzenal ilustrada de literatura e crítica, Porto, 1910-1932

Em cada momento há uma descoberta. Cada passo pode proporcionar a entrada num mundo novo. Nesta biblioteca de todos os espantos, o espanto maior reside no modo como o tempo passa, mas nem por isso diminui o fascínio por esta indescritível capacidade humana de fazer de cada desafio uma obra de arte.