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“Arquitetura é um ato de generosidade”

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ARQUITETOS O casal francês Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal

FOTOGRAFIA LUÍS BARRA

Numa entrevista exclusiva ao Expresso, Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal contaram a aventura de realizar uma arquitetura económica e luminosa a partir de edifícios desativados, em ruínas, ou prestes a serem demolidos

A dupla francesa Lacaton & Vassal, pioneiros no modo de pensar a arquitetura a partir do património existente e consagrados pela renovação de obras icónicas como a do Palais de Tokyo em Paris, ou de um antigo edifício de arqueologia industrial nas docas de Dunquerque, ambos transformados em museus de arte contemporânea — passou por Lisboa para participar na 14ª conferência internacional da Docomomo (Comité Internacional para a Documentação e Conservação de Edifícios, Sítios e Espaços Públicos do Movimento Moderno).

“Nunca destruir, demolir, remover ou substituir. Sempre reutilizar e transformar. A proposta é mais importante do que a forma.” Este manifesto representa o vosso portefólio. Podem explicar?
Não existem lugares vazios. Quando partimos para um um projeto começamos por sentir e perceber o território onde vamos trabalhar, que já tem uma história, uma memória, uma temperatura, gente, e integramos essa preexistência no novo espaço que vamos criar. Às vezes nem é preciso fazer nada. Não é por sermos arquitetos que forçosamente temos de substituir o que já existe e construir de novo.

Numa casa que desenharam em Cap Ferret, no sul de França, encheram o interior de árvores.
O cliente tinha comprado um terreno com cinquenta árvores enormes, magníficas e, habitualmente, quando se constrói num terreno corta-se a maioria das árvores e deixam-se umas poucas para envolver a casa. Propusemos que nenhuma delas fosse destruída. Passaram a fazer parte da estrutura. Esse é o nosso modo de trabalhar. Devemos olhar a partir do que existe e não a partir da destruição do que já existia. Essa atenção é sempre integrada nos nossos projetos. Seja num terreno cheio de árvores em Cap Ferret, num museu que vai ser construído ou ampliado em cima de uma ruína, como o extraordinário Palais de Tokyo, que estava desativado e transformamos em museu de arte, ou em edifícios de habitação coletiva na periferia de Bordéus, que iriam ser demolidos e onde viviam 530 pessoas.

Casa de Cap Ferret, 1998

Casa de Cap Ferret, 1998

FOTOGRAFIA PHILIPPE RUAUL

Esse projeto tornou-se emblemático no manifesto da arquitetura Reuse, que propõe pensar a cidade a partir de uma economia de transformação e mais sustentável. A ideia de não demolir o edifício foi vossa?
Nunca construiríamos aqueles edifícios enormes, mas já que existem não há necessidade de demoli-los. É uma questão pragmática e até ecológica. Havia um programa de demolição de parte desses edifícios de alojamento social, enormes mas bem construídos, que tornaram tão desagradável a imagem das periferias. A ideia é que fossem demolidos, os seus habitantes desalojados e, sobre os terrenos vazios, construir de novo. Não estamos de acordo com este princípio. Concebemos um projeto que revestia de uma nova pele o edifício, acrescentava-lhe espaço ao construirmos grandes varandas envidraçadas, o que permitiu ganhar metros quadrados e criar uma nova circulação de ar. É uma forma muito simples de abrir o edifício para fora e trazer o exterior para dentro de casa.

Este modo de conceber, faz parte do programa “Mais barato é mais”?
Claro. O novo projeto ficou muito mais barato do que estava previsto no plano de demolição e nesta economia de custos é possível haver mais ambição e conforto para os habitantes. Nas cidades, o metro quadrado é muito elevado e nos alojamentos criados por promotores privados uma família de quatro pessoas vive em 50 a 80 metros quadrados. Mas quais são as condições de habitabilidade? O trabalho do arquiteto é, precisamente, encontrar soluções que por vezes parecem impossíveis.

Arquitetura também é um ato político?
É um ato político porque a questão económica está sempre presente e cada vez há menos dinheiro. Seja em Copenhaga, Berlim ou Madrid, a questão é sempre a mesma — como se evita construir pequenos apartamentos, mesquinhos, sem prazer ou com um conforto apenas funcional? Acreditamos que devemos manter a ambição do espaço e o prazer de habitar. É preciso integrar este modelo na economia.

É uma arquitetura sustentável?
Fala-se muito de sustentabilidade, mas depois constroem-se projetos muito ecológicos e demasiados dispendiosos em terrenos vazios. Ecologia são as pessoas. Às vezes as coisas estão escondidas, parecem ser quase interditas, mas são possíveis de realizar. Nas nossas estruturas não há matéria inútil. Utilizamos o que é justo e necessário, aproveitando o ar, a luz, ou a simples sensação de bem-estar e de abertura que se pode transmitir olhar a cidade a partir de um terraço e não de uma janela minúscula.

E muda a vida das pessoas?
Completamente. A maioria das pessoas vive dentro de um espaço como se estivessem aprisionadas. Uma senhora idosa prefere ficar a olhar para fora da sua pequena janela em vez de descer dez andares. Basta arranjar os elevadores ou acrescentar espaço através de novas varandas. É um processo muito rápido de transformação do edifício e os habitantes nem precisaram de sair das casas. Muitas destas pessoas queriam ser realojadas mas depois descobriram o prazer de habitar e diziam que nunca mais sairiam dali. Como se tivessem ganho uma nova casa. Umas remodelaram, outras fizerem pequenos jardins... Tudo isso alterou as relações entre vizinhança porque passaram a abrir as casas e a convidar. Em primeiro lugar a arquitetura deve ser um ato de generosidade.

Grand Parc, Bordéus, 2011

Grand Parc, Bordéus, 2011

FOTOGRAFIA PHILIPPE RUAULT

Começaram a traçar o vosso caminho no princípio dos anos 90 do século XX, numa altura em emergiam os arquitetos dos edifícios icónicos e a arquitetura tornava-se numa profissão de glamour.
Nunca foi a nossa maneira de trabalhar. Acreditamos que a arquitetura moderna é um espaço democrático e luxuoso, do qual toda a gente possa usufruir.

Os edifícios projetados para serem ícones não são espaços democráticos?
Os edifícios iconográficos como aqueles que são construídos em cidades como Xangai ou no Dubai, e que vemos nas revistas como espaços espetaculares, são feitos para ser olhados de fora. São imagens de representação. Arquitetura é outra coisa. É estar dentro. É habitar.

Como chegaram à vossa linguagem, que foi pioneira nesse tempo?
Fizemos juntos a Escola Superior de Arquitetura de Bordéus, em França, logo após o movimento de 68. Foram anos inacreditáveis. Tudo estava em aberto e era possível. Na escola tínhamos a impressão de não haver nenhum constrangimento em criar. Mas não era só a escola, todo o ambiente era assim. Éramos adolescentes e tudo isso marcou-nos imenso porque havia uma ideia de liberdade que permaneceu. Quando fazemos um projeto essa ideia de liberdade continua presente.

Entretanto o Jean-Philippe foi trabalhar para África, para a Nigéria. Como é que essa experiência mudou a sua visão do espaço?
Fui trabalhar num projeto de urbanismo no deserto, perto do Saara, que envolvia trazer as populações que viviam perto das dunas para uma zona onde havia água e perceber onde se devia construir a habitação, a escola... Foi uma experiência fortíssima. Sobretudo aprendi como é que se podem fazer grandes coisas com quase nada.

Neste momento estão a participar em concursos internacionais para dois museus, um em Londres outro em Berlim. Quando se projeta para o espaço público como é que as questões da segurança, que se tornaram fundamentais no quotidiano dos cidadãos, interferem no projeto?
É um grande desafio e é muito complexo. Ver alguém ao longe que se aproxima e não ter medo... É preciso encontrar o equilíbrio no espaço que protege e simultaneamente se abre ao exterior. Não podemos criar espaços que criem constrangimentos. A ideia é encontrar as soluções mais simples. Esse é o grande desafio da arquitetura deste tempo.

Luís Barra

As regras condicionam o projeto?
Dão muito trabalho mas há sempre solução. Uma grade numa janela, por exemplo, pode ser fixa ou pode ser móvel. Isso altera tudo e é um compromisso que é preciso ter em conta. Mas não devemos perder o otimismo da liberdade.

Dão aulas e realizam conferências em várias universidades internacionais. O que ensinam aos alunos?
A olhar e refletir. Esta é a chave da aprendizagem. Parece um cliché mas é uma coisa muito concreta. Ensinamos que é mais importante olhar para a cidade do que para o computador e que é preciso encontrarem as suas ideias não a partir da teoria mas da observação e da reflexão. Ensinamos a coragem de ter opiniões e a liberdade de pensar, de sonhar e de realizar o sonho. Muitas vezes, nas escolas impedimos o sonho de existir. Chega um professor e diz: “Isto não pode ser assim, nunca será autorizado”, e depois pode. Acreditamos numa arquitetura em que o sonho de realizar continua em permanência.

[Texto original publicado no Expresso Diário de 14 de setembro de 2016]