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“Cordel” une no TNSJ vidas de mulheres que não couberam nas convenções sociais

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João Tuna

Espetáculo no Teatro Nacional São João, no Porto, dá a conhecer as vidas de cinco mulheres, de diferentes épocas, que desafiaram convenções sociais e dogmas instituídos

André Manuel Correia

Estão de regresso os espetáculos ao Teatro Nacional São João, no Porto. A inauguração da nova temporada, esta quinta-feira, é feita com “Cordel”, uma peça encenada por José Carretas e que conta quatro histórias verídicas e uma ficcionada de mulheres que escandalizaram a sociedade portuguesa nas diferentes épocas em que viveram. Simultaneamente, a matriz da literatura de cordel, estilo popular entre o séc.XVII e XIX, é recuperada e reinventada. Em redondilha maior, com rimas cruzadas, interpoladas e emparelhadas, ao som de modinhas e lundus, “Cordel” resiste aos padrões convencionais e fica em cena até 25 de setembro.

O que há em comum entre a valentia de Antónia Rodrigues, que aos 15 anos fugiu de Lisboa para combater em Mazagão, tendo sido armada cavaleiro por Filipe II, e Luísa de Jesus, a última mulher condenada à morte por ter assassinado 33 crianças em Coimbra? O que une a história de Claudiana Natividade, noviça pouco dada às rezas e aos bordados e com mais apetência para a carpintaria, às peripécias de Henriqueta Emília da Conceição, líder de uma quadrilha de ladrões no Porto oitocentista até se apaixonar por uma mulher que a levaria a cometer um crime por amor?

Aparentemente muito pouco, mas em Cordel” estes quatro exemplos surgem unidos e juntam-se a Teodora, personagem fictícia, mulher cultivada que falava sete línguas e vencedora de duelos de conhecimento com os sábios do seu tempo.

Donzela Teodora é uma figura recorrente na literatura de cordel e neste espetáculo surge, literalmente, reconvertida às origens. À conversa com os jornalistas, José Carretas explica que a personagem é, na literatura tradicional, “uma versão cristianizada” da Sherazade da cultura árabe [narradora dos contos de “As Mil e Uma Noites”]. “Achamos que ela já estava demasiado cristã e devolvemos-lhe as origens. Era importante devolver a dignidade das mulheres árabes por volta do ano 1000, que eram, na época, mulheres mais instruídas do que as nossas”, sustenta o encenador.

“Cordel” – com dramaturgia de José Carretas e da escritora Amélia Lopes – parte de relatos documentados, notícias em diversos jornais, teses e artigos científicos que atestam a veracidade das vivências das quatro personagens reais. “Não são mulheres estranhas, mas que fogem ao que, muitas vezes, se julga ser o perfil da mulher”, considera Amélia Lopes.

A peça mostra exemplos femininos que excederam a regra, não cumpriram o seu papel habitual, fosse pela coragem habitualmente atribuída aos homens, ou pelo horror contrário ao instinto maternal, como no caso de Luísa de Jesus, queimada e garroteada publicamente em Coimbra por recolher e tirar a vida a mais de 30 crianças. No entanto, José Carretas frisa que o espetáculo “não é propriamente sobre a mulher ou sobre o género, apenas pretende mostrar estes exemplos e com isso levar o público a tirar as conclusões que achar por bem”.

A ideia de recuperar e reinventar a literatura de cordel surgiu há dois ou três anos, conta o encenador, que desafiou Amélia Lopes para corredigir os versos, em redondilha maior, que durante uma hora e meia desfiam o novelo da vida de cinco mulheres. “A literatura de cordel é um manancial e não muito explorada ainda”, explica José Carretas. Por sua vez, Amélia Lopes revela que explorar a literatura de cordel tem a ver com um certo prazer pessoal. “Nós gostamos de brincar com a língua portuguesa”, contou a escritora. E é isso que é feito em “Cordel”, onde histórias trágicas são narradas ao jeito popular, com rimas tipicamente portuguesas.

“Queremos contribuir para a dramaturgia portuguesa. Precisamos disso nesta Europa com tendência a unificar-se. É importante manter os particularismos de cada nação e de cada cultura”, afirma José Carretas.

A música é tocada ao vivo, com a presença de três músicos em palco. Ouvem-se modinhas e lundus que, na opinião do encenador, servem “para dar uma certa cerimónia e, ao mesmo tempo, um tom popular”.

O espetáculo integra ainda duas atividades paralelas. Este domingo, após a sessão, decorre uma conversa com José Carretas e com o escritor José Viale Moutinho. Para o público infantil, estará disponível até 25 de setembro uma oficina criativa, a decorrer no Teatro Nacional São João, que dá a conhecer aos mais novos a história da literatura de cordel.

A peça legendada em inglês pode ser vista à quarta-feira, pelas 19h, de quinta-feira a sábado, às 21h, e aos domingos, pelas 16h.