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“Contem o que se passa aqui”. Porto dá voz à arte palestiniana

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D.R.

A mostra de arte “Portugal Palestina” dá a conhecer a cultura e realidade de milhares de pessoas que vivem em territórios ocupados, pela perspetiva de alguns autores portugueses

André Manuel Correia

O Palácio de Bolhão, no Porto, servirá de casa entre entre terça-feira e domingo para uma mostra multidisciplinar da cultura palestiniana. Intitulada “Portugal Palestina: Arte pela Liberdade”, a iniciativa traz até Portugal uma companhia profissional de teatro palestiniana, a Freedom Theatre, que desenvolve o seu trabalho num campo de refugiados situado na Cisjordânia. Histórias reais de pessoas que vivem em territórios ocupados, derrubam muros e vão ecoar no Porto. Ao longo de quase uma semana, a programação inclui teatro, workshops, debates, um ciclo de cinema e artes plásticas.

O Freedom Theatre é uma companhia e escola de teatro com uma década de existência e que agora vai estar em digressão por Portugal. Após uma primeira paragem no Teatro A Barraca, em Lisboa, o coletivo de artistas chega agora ao Porto. Atualmente é dirigido por uma portuguesa, a atriz e encenadora Micaela Miranda. Chegou à Palestina há mais de oito anos, pois sempre procurou perceber qual é a finalidade do teatro e envolver-se em projetos com um caráter social e político.

Em entrevista ao Expresso, conta que a realidade que encontrou “foi uma enorme surpresa” e que “ninguém está verdadeiramente preparado”. Durante o dia, os raides militares e os ‘checkpoints’ são uma constante. Quando cai a noite, há o gás lacrimogénio e o som de tiros. “É um clima de muito medo”, descreve a atual diretora da companhia de teatro palestiniana.

Em 2011, o então diretor artístico do Freedom Theatre foi assassinado à porta do teatro. “Foi uma altura muito dramática para nós. Tivemos de ultrapassar e continuar com o projeto, porque caso contrário tudo teria sido em vão”, explica Micaela Miranda que, um ano mais tarde, viu a sua casa ser invadida pelo exército israelita. Casada com um palestiniano, a atriz – juntamente com a filha – viu o marido ser levado, às três da manhã, pelo exército que irrompeu no seu lar. Durante duas semanas não teve qualquer notícia. Na altura, denunciou o caso nas redes sociais, algo que “comoveu e mobilizou muita gente em Portugal”, relata Micaela ao Expresso.

“Se interpretássemos um soldado israelita, o público vinha atrás de nós”

Quando há cerca de oito anos começou a trabalhar no campo de refugiados de Jenin, muitas daquelas pessoas não sabiam o que era o teatro. Embora na Palestina houvesse tradição teatral desde o início do séc. XIX, a realidade fez com que a população quase a esquecesse por completo. “O público não sabia o que era teatro, embora haja muita tradição de contar histórias. No início, as pessoas acreditavam que as personagens eram mesmo reais. Se interpretássemos um soldado israelita, o público vinha atrás de nós quando saíamos do palco”, conta a responsável pelo Freedom Theatre.

Durante o seu tempo de atividade, a companhia e escola teatral tem trabalhado com a comunidade e formado profissionais que deram o salto para palcos internacionais, como Estados Unidos, África do Sul, Brasil e Austrália, entre outros. Agora, a companhia viaja até Portugal para apresentar o espetáculo “Regresso à Palestina”, uma peça que dá voz a histórias reais de pessoas que vivem em colonatos e campos de refugiados. “É uma reflexão sobre a força criativa que se tem de ter quando se vive sob ocupação”, afirma Micaela Miranda.

“Regresso à Palestina”, que será apresentado no Palácio do Bolhão na sexta-feira e no sábado (22h), foi criado durante uma digressão do Freedom Theatre por várias localidades palestinianas. A companhia teatral deslocava-se às vilas, colonatos e campos de refugiados para fazer uma forma de teatro interativo, em que improvisava pequenas peças com base nas histórias que as populações locais lhes transmitiam. “Contarmos histórias uns aos outros é uma forma de combater a ocupação e de aprender a resistir”, acredita a diretora Micaela Miranda. “As vilas estão tão isoladas umas das outras – por secções e colonatos – que não sabem as histórias umas das outras. É muito importante pegarmos numa história que ouvimos em Jenin e levá-la até Belém”, acrescenta.

Agora, essas histórias chegam a Portugal com um pedido embutido. “As pessoas da Palestina, quando sabiam que nós íamos viajar para tão longe, pediam-nos: ‘por favor, contem o que se passa aqui! Levem a nossa mensagem’”, conta a dirigente do Freedom Theatre.

Paralelamente, a mostra “Portugal Palestina” pretende dar a conhecer outros criadores portugueses que têm uma relação íntima com a cultura e identidade palestinianas. Exemplo disso mesmo é o realizador Frederico Beja, casado com a jordana Dália Abud Zeid. Em conjunto, são os autores dos documentários “Against The Wall” sobre o muro da separação e “Remember Us” que espelha a situação de refugiados palestinianos na Jordânia.

O ciclo de cinema integra igualmente o documentário “Roadmap To Apartheid”, com coautoria de Ana Nogueira, que estabelece um paralelismo entre as formas de segregação sul-africana e israelita. Na sala D. Maria II, a artista plástica Joana Villaverde apresenta a vídeo-instalação “3AM Birzeit December 2015, criada a partir de uma das suas múltiplas residências artísticas na Palestina.

Na sexta-feira, a eurodeputada portuguesa Marisa Matias vai ser a responsável por dinamizar uma conversa sobre a Palestina e que contará com a presença de Nabeel Al-Raee, Micaela Miranda, Frederico Beja, Ivo Gonçalves e Frank Barat.

Finalmente, no sábado, será inaugurada no Porto a Associação de Amigos do Teatro da Liberdade na Palestina, iniciativa que procura criar uma plataforma de intercâmbio cultural entre o Porto e a Palestina.

A programação completa pode ser consultada aqui.