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Os mestres cantores

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INCLUÍDOS. O Serviço Educativo da Casa da Música tem sido um exemplo no combate à exclusão e na abertura a novos públicos. Na imagem o espetáculo “Viva Vivaldi” (2015), do ciclo Primeiros Concertos

FOTOS CASA DA MÚSICA

Em tempos não muito distantes as mulheres estavam impedidas de cantar nos locais de culto. A prática segregadora manteve-se até bem entrado o século XIX, e dela resultou o grande incremento dos coros infantis. Desde a Alta e Baixa Idade Média, aqueles coros surgiram como a solução para a interpretação de música sacra com exigências muito particulares na utilização de vozes capazes de atingirem celestiais níveis de agudos.

Ao longo dos tempos acabou por ser criado um importante reportório para este tipo de coros, e já não apenas de música sacra. Compositores como Mozart, Salieri, Gluk ou Brukner, entre muitos outros, assinaram inúmeras destinadas a estes agrupamentos infantis. Alguns, pelo seu rigor e qualidade, como o dos Meninos Cantores de Viena, atingem uma dimensão tal, que suscitam verdadeiras competições a nível mundial entre jovens rapazes ansiosos por integrarem aquele espaço onde se exploram até o limite as potencialidades de vozes efémeras.

A Casa da Música (CdM) anunciou esta semana ter resolvido investir na criação de um coro infantil. E fá-lo de um modo exemplar, através de um setor da Casa porventura responsável por alguns dos mais notáveis e inclusivos trabalhos da instituição, mesmo se na maior parte das vezes o faz longe dos holofotes da projeção mediática: o Serviço Educativo. É um dos mais fascinantes tesouros da CdM, cuja atividade está longe de ser entendida em toda a dimensão e esplendor.

A ideia de um coro infantil é já antiga na Casa. Só agora encontra condições para avançar, de modo a vir juntar-se, num futuro não muito distante, aos outros agrupamentos, como a Orquestra ou o Coro. Para a sua constituição, o Serviço Educativo adota a estratégia vista já como a sua imagem de marca. Trabalha a presença junto das comunidades e desenvolve um trabalho inclusivo. Ninguém é excluído e todos são bem-vindos.

“Border Control” (2010), do programa Ao Alcance de Todos, com utentes da Cerci

“Border Control” (2010), do programa Ao Alcance de Todos, com utentes da Cerci

foto casa da música

Assim, neste primeiro ano, estarão presentes em três escolas do ensino público básico. Vão trabalhar as vozes de crianças do 1º ao 4º ano. No final do alo letivo, em junho de 2017, deverão estar identificadas umas quarenta crianças. Passarão a ser integradas num trabalho já mais direcionado dentro das estruturas da Casa da Música, de modo a desenvolverem o trabalho vocal e musical. Os coros constituídos não se desintegram e em breve haverá um total de quatro coros a funcionar: os três constituídos nas escolas e o da CdM. Embora sejam autónomos, poderão vir a realizar trabalhos em conjunto.

O objetivo é cruzar o novo agrupamento com os já existentes, de modo a ser possível interpretar o vasto reportório coral e sinfónico que prevê a utilização de vozes infantis, ou vozes brancas. Um dos exemplos maiores será a “Paixão Segundo S. Mateus”, de J.S. Bach.

Com projetos artísticos e musicais cada vez mais ligados à comunidade, o Serviço Educativo tem desencadeado inovadoras formas de aproximação à música, mesmo nos setores mais inesperados.

Um dos grandes casos de sucesso é a Orquestra Som da Rua, um ensemble de inclusão social, concebido em 2009 para os sem-abrigo do Porto, numa parceria com instituições de intervenção social. Neste momento já engloba também pessoas fragilizadas e outros elementos, tem dezenas de apresentações públicas um pouco por todo o lado e ainda em julho esteve no Rio de Janeiro num evento paralelo aos Jogos Olímpicos. Com um reportório próprio muito assente na exploração da voz e construído dentro da própria orquestra, não deixa de utilizar instrumentos, sobretudo de percussão, quase sempre construídos a partir da reciclagem de objetos encontrados no lixo. O reportório canta a cidade, que todos aqueles elementos conhecem melhor que ninguém, embora haja já alguns textos e músicas de profissionais que ficaram sensibilizados pela iniciativa, como Carlos Tê ou Sérgio Castro.

“Ícaro” (2008), protagonizado por pessoas com paralisia cerebral e músicos e bailarinos profissionais

“Ícaro” (2008), protagonizado por pessoas com paralisia cerebral e músicos e bailarinos profissionais

foto casa da música

Uma das grandes batalhas do Serviço Educativo é a luta contra o preconceito e o estigma, muito presente no programa “Ao Alcance de Todos”, com o qual pessoas com necessidades especiais se transformam nos protagonistas de espetáculos marcados por uma rara sensibilidade. Criado em 2007, dinamiza projetos multidisciplinares desenvolvidos por profissionais nacionais e estrangeiros, aos quais se juntam vários grupos, instituições, onde são recrutados os mais improváveis dos participantes, desde pessoas com demência a mutilados de guerra.

São vozes outras. Vozes às quais é comum dedicar uma dolorosa indiferença. Ali ganham uma nova dignidade. São recuperadas. Fazem parte da vida que conta. Transformam-se em agentes de mudança. Nesse emotivo coro espalhado pela cidade, os sem-abrigo, os fragilizados, os desempregados, os portadores de deficiências várias, ocupam um luminoso palco onde não há espaço para a exclusão. Todos diferentes, todos contam. São eles os verdadeiros mestres cantores.