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Desafio-te a perceber o que faz de mim uma mulher

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ANGEL OLSEN. Lindíssima, poderosíssima

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Era uma cantora folk, agora é uma mistura de folk-country-rock-pop e por isso mesmo recusa etiquetas. Era uma miúda que deslumbrava com os primeiros passos, agora é uma mulher segura de si (“perdoo-vos por serem antiquados e me colocarem limitações”, diz aos pais, amantes e colegas que a tentam diminuir ou rotular). Achava que não sobrevivia a um desgosto amoroso, mas agora percebe que é forte sozinha (e que os desgostos se podem converter em versos preciosos). Este é o mundo de Angel Olsen, que sempre foi uma miúda talentosa e agora mostra ao mundo que é uma cantora, compositora, realizadora e mulher independente. E tem disco novo, “MY WOMAN” (assim mesmo, em maiúsculas)

Quase toda a gente já sofreu pelo menos um desgosto amoroso na vida. Estamos a falar de um daqueles de caixão à cova, de jurar que nunca mais se apaixona daquela maneira, de precisar de longos períodos de luto e de introspeção apenas para voltar a cair exatamente no mesmo erro – ou não – daí a uns tempos. Toda a gente sabe isto e Angel Olsen, a cantora e compositora que costumava ser catalogada nos géneros folk e country, também o sabe – a diferença é que ela consegue como ninguém refletir e cantar sobre o amor, a perda, a esperança e a independência.

“Desafio-te a perceber o que faz de mim uma mulher”, canta ela no novo disco “MY WOMAN”, que já é considerado um sério concorrente a álbum do ano na indústria musical e que é para ela uma espécie de segunda revelação – já toda a gente sabia o que ela valia e já muitos a respeitavam graças aos seis anos de carreira como cantora folk, mas com este novo trabalho vale a pena repensar tudo o que pensávamos sobre Angel Olsen (e apaixonar-nos de novo por ela e pelos versos honestos que assina).

Ela canta sobre o amor e a desilusão amorosa, mas podia estar a cantar sobre qualquer coisa, porque as reflexões profundas desta jovem de 29 anos são uma espécie de manual para a vida – é que Angel teve dois anos para pensar desde o seu álbum de 2014 “Burn Your Fire For No Witness” e desde os 120 dias que então passou em digressão, gozando o estado de graça em que o álbum a colocou na indústria da música (“é um álbum quase perfeito”, relembra agora a “Consequence of Sound”).

Mas ela não se acomodou - as etiquetas de folk e de country não lhe chegaram, como nenhumas lhe chegam, e Angel decidiu explorar mundos diferentes de pop, sintetizadores e guitarras aceleradas (porque, lembra ela à revista “Fact”, “nem toda a gente quer acordar e ouvir um álbum de Leonard Cohen inteiro todos os dias”) com óbvio sucesso. Mais do que isso – quando a cantora e compositora se decidiu livrar de rótulos e classificações também se livrou de tudo o resto que a rodeava e que não era essencial, para ficar ela, uma mulher segura de si (ou não tivesse o título do álbum, “MY WOMAN”, funcionado como uma reivindicação da sua independência), sozinha com a sua música, os seus vídeos e as suas ideias. “Decidi fazer algo que não se pudesse classificar numa palavra, que não se pudesse descrever como folk ou country”, explica em entrevista à revista “W”.

A necessidade de ser independente e de impor a sua vontade na sua música fica patente nos créditos de dois dos singles do novo álbum, “Intern” e “Shut Up Kiss Me”, ambos com vídeos realizados e protagonizados por Angel e a sua peruca prateada que nos lembra que ela também sabe ser pop (mesmo que seja uma pop vintage a lembrar os anos 1950 e 1960 e o glamour de Hollywood, nem tanto uma pop similar à das suas contemporâneas). “Não é algo narcisista”, justifica ela à “Consequence of Sound” sobre o seu papel central em todo o trabalho que desenvolveu para “MY WOMAN”. “Prefiro construir uma personagem e ser mal interpretada por toda a gente do que ficar frustrada ou desapontada com a imagem que outra pessoa projeta de mim”, acrescenta à “W”.

O lado A (pop, animado) de Olsen

Talvez por isso “Intern” seja a faixa escolhida para abrir este “My Woman”: cada nota esclarece ao que vimos e prepara-nos para algo totalmente diferente do que esperaríamos de Olsen. É uma reflexão sobre as ambições e obrigações do comum mortal (“não importa quem és ou o que já fizeste / continuas a ter de acordar e ser alguém”) para se distinguir da multidão e frisar: “Toda a gente tem o seu próprio ideal / eu só quero estar viva, fazer algo real”. As ilusões ficam para outra altura neste som que é um dos mais pop de todo o álbum, dando início a uma espécie de lado A mais acelerado e vivo: “Não importa quem és ou o que fazes / alguém no trabalho vai fazer pouco de ti”.

As pistas sobre as histórias de amor que aqui se contam já tinham sido deixadas no ar em versos de “Intern” (“apaixono-me e juro que é a última vez”), mas chegam em força com as reflexões e a guitarra bem disposta de “Never be Mine e já não voltam a abandonar-nos durante as oito faixas que se seguirão. “O céu chega quando vejo a tua cara / fico cega de todas as vezes”, desabafa uma Angel deslumbrada, para depois relatar uma desilusão que é impossível forçar a não ficar no ouvido o resto do dia: “achava que já tinha passado por isto / Deus sabe que tenho tentado/ tu nunca vais ser meu” (e esse “nunca vais ser meu” repete-se vezes sem conta, para ela se convencer e para nos deixar a trautear o refrão orelhudo).

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A terceira canção mantém o tom de “Never Be Mine” e parece uma continuação da mesma história de desgosto, mas nesta “Shut Up Kiss Me” há uma insistência teimosa própria de quem está apaixonado: “Não vou desistir esta noite (…) Este coração ainda bate por ti, porque é que não consegues ver isso?”. O som de pop clássico, a lembrar a voz profunda de Siouxie Sioux, brinca com versos atrevidos (“pára de fingir que não estou aqui quando é claro que não vou a lado nenhum / se não estiver à vista volta a olhar, ainda estarei por aí à espera de ser encontrada”). No vídeo correspondente, temos Angel a olhar, Angel sentada num bar, Angel sentada no carro, Angel a apertar os patins – tudo é sobre ela e tudo se resume a ela, como aprenderemos no final desta lição em dez faixas, apesar de no momento tudo parecer confuso, apaixonado e perdido.

Estamos a antecipar uma conclusão, mas cedo vai começar a aperceber-se dela, mais ou menos a meio do álbum, porque antes tem para ouvir a guitarra elétrica em crescendo de “Give it Up” (“sempre que estás ao meu lado estou a morrer (…)/ desisto de tudo por ti”). Contudo, com “Not gonna kill you” volta o tema do início do álbum (“sou só mais uma, viva com planos impossíveis”) mas também chega uma espécie de ponto de rutura com os sentimentos que a torturam. “Este é o tipo de amor que sempre sonhei ter / mesmo que seja doloroso, deixo-o quebrar-me / até não ser nada além do sentimento, tornar-me verdadeira”. “Não te vai matar, não te vai quebrar, só te vai agitar”, murmura ela, ultrapassada pelo par cúmplice formado pela guitarra e pelo sintetizador.

E agora para algo completamente diferente

É com estas confissões de mágoa acompanhadas de sons mais ligeiros que acaba a primeira metade do álbum, uma etapa com início e fim óbvios porque Angel assim o decidiu (“Queria escrever algo como uma playlist. O lado A é para quem está a ter um dia animado. O outro é para quando as coisas acalmam e tu queres refletir”). Chegou a altura de escutar com atenção as lições de “Heart Shaped Face”, em que uma guitarra paciente abranda o ritmo até agora imparável do disco – “vi-te mudar e envelhecer / aprendi a virar a cabeça e ir embora / e a verdade nunca vive realmente na história das palavras que contamos”.

É a metade de “Sister” e de “Woman”, ambas hinos com quase oito minutos de duração, introduções épicas e ideias sussurradas (“o desfile está quase no fim e eu continuo a ser o teu palhaço”, lamenta, os traços de uma nostalgia estilo Lana del Rey a sobressair por entre cada nota). Também é altura para fechar o álbum com uma das peças mais honestas, “Pops”, em que Angel se faz acompanhar pelo piano e traça algumas das confissões mais importantes do álbum: “Vou ser a coisa que vive no sonho quando ele morrer”. Em “Pops”, ela parece implorar: “Estas pessoas não me veem (…) não as conseguia amar mesmo que tentasse / ninguém me percebe como tu”. Mas a voz melancólica esconde uma força clara (“já não estou a brincar, já fiz tudo isso antes”), e se dúvidas houvesse, voltemos a meio do álbum para ouvir uma das conclusões que melhor o definem: “Não há nada de novo / a dor no coração acaba e começa de novo”.

Há algo de novo na carreira de Angel – algo de refrescante na voz, no som e nas ideias desta mulher de 29 anos que há nove se mudou para Chicago e decidiu trabalhar num bar enquanto compunha música para pagar as despesas, conhecendo os seus primeiros colegas de banda. Nove anos depois, a banda está coesa atrás de si, mas Angel está no comando e sente-se mais confortável do que nunca com isso. O mesmo se aplica à relação com o produtor do álbum, Justin Raisen, que já trabalhou com artistas como Charlie XCX ou Santigold e por quem Angel admite ter-se sentido intimidada ao início – uma sensação que acabou por ultrapassar. “[Disse-lhe:] Justin, só para que saibas, não vais escrever nenhuma canção por mim, e nenhuma canção neste álbum. Comigo não será assim”, relata à “W”.

É que para a autora de “My Woman”, na indústria musical as coisas ainda estão desequilibradas para o lado das mulheres: “Faltam mulheres que façam as entrevistas e trabalhem nas discográficas”, lamenta, explicando que muito deste disco tem a ver com o perdão que as mulheres têm de conceder a tantas das pessoas que amam e com quem se relacionam. “Para mim, as mulheres têm de fazer isso todos os dias – com os seus pais, amantes, colegas de trabalho cuja intenção não é diminuí-las ou rotulá-las. Perdoo-vos por serem antiquados e me colocarem limitações”. Com “My Woman”, Angel decidiu deixar de pedir desculpa por ser quem é, e mostra-se mais segura, talentosa e independente (para isso, precisa de passar pelos desgostos e perceber que sobrevive bem sozinha) do que nunca.