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Voz, violão e opinião

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Franco Origlia/Redferns/GETTY IMAGES

Caetano Veloso voltou a Lisboa para dois concertos e falou ao Expresso sobre a língua portuguesa, o Brasil e o futuro

As histórias de Caetano Veloso e do Coliseu dos Recreios cruzaram-se há 35 anos, quando o músico brasileiro pisou pela primeira vez o palco português, e desde aí os encontros multiplicaram-se, em vários formatos e com presenças diversas. Esta semana, o músico apresentou-se apenas com voz e o violão, numa escala desejada de uma digressão que já se iniciou em Paris, e segue depois para Seul, Osaca e Tóquio, terminando a tournée em Nova Iorque, sempre acompanhado por Teresa Cristina, intérprete carioca que Caetano considera fazer parte da “aristocracia do samba”.

Qual é a importância de voltar ao Coliseu de Lisboa só com voz e violão, 35 anos depois de se ter estreado assim naquela sala?
É sempre importante voltar ao Coliseu porque eu amo muito esse lugar, e Lisboa como um todo. Mas regressar assim, para fazer um espetáculo ao violão, sozinho, como eu comecei ali, tem um significado especial para mim, mesmo.

Que recordações tem daquela noite, há 35 anos? Era importante para um artista brasileiro atuar num palco português?
Olha, eu me lembro que foi uma maravilha para mim, que foi uma coisa muito intensa. Mas não me lembro de mais detalhes do que a impressão geral. No entanto, para mim é sempre importante atuar em Portugal, especialmente porque tenho uma paixão pela música portuguesa e pelo vosso país desde criança. Então era uma coisa que eu tinha na minha cabeça, de ouvir de perto a canção portuguesa cantada por portugueses e também tentar cantar alguma coisa portuguesa em Portugal. Eu dou uma importância muito grande ao facto de o Brasil falar português e ter sido colonizado por portugueses. Eu acho que é uma coisa de suma importância para nós, até porque define a nossa originalidade nas Américas.

Franco Origlia/Redferns/GETTY IMAGES

Como é que define essa originalidade?
De maneira muito profunda, se deve ao facto de nós falarmos português. É um dos fatores mais essenciais da originalidade do Brasil, a língua portuguesa.

Mesmo para a música, Caetano?
Mesmo para a música. O samba é a música nacional, é o ritmo nacional brasileiro por excelência, e é sempre ligado à África. Mas, evidentemente, se nós não tivéssemos sido colonizados por portugueses não seria o samba. Sem a língua portuguesa, não haveria samba.

E não haveria MPB...
Não. Se falássemos espanhol, outra coisa apareceria. Mas tudo o que aparece se deve de forma essencial à língua portuguesa.

Continua muito atento a tudo o que se escreve e se faz em termos musicais em Portugal?
Ouço, mas menos do que quando era jovem, apenas porque não tenho tempo. Não acompanho com extensão e frequência suficiente que me permitam responder sobre tudo o que se passa aí em música ou em literatura.

Como vê a colaboração cada vez mais intensa entre músicos portugueses e brasileiros?
Sempre gostei. Já participei de iniciativas que impulsionassem isso, em décadas passadas — e em determinados momentos já mencionei o próprio fado em letras de canções minhas. Agora vejo com muita alegria essas reuniões como a de Carminho com Marisa Monte ou António Zambujo gravando música de Chico Buarque. Acho todas essas coisas muito importantes para nós todos.

O que considera hoje mais importante na música brasileira, a melodia ou a mensagem?
Eu acho que é a combinação de melodia com mensagem. É quando a mensagem se torna melodia e a melodia se torna mensagem. Quando as duas coisas nascem juntas, se transmitem juntas e, principalmente, quando são captadas juntas por quem ouve.

Olha com apreensão para a situação política e social do seu país?
Sem dúvida, é um momento muito difícil e que já vem se arrastando por um tempo bastante longo. É que não sabemos quando vamos poder voltar a acreditar que podemos melhorar. O Brasil é um lugar curioso, meio maluco. Quando a gente está falando de música, a gente fala que o Brasil é original, mas quando se fala de política tem de se dizer que é maluco. Esse período tem exposto muita coisa ruim da vida brasileira, da organização da vida brasileira, da política. E é preciso desatar o nó, que é um nó múltiplo, só que nós ainda não sabemos como isso se faz, como será feito isso. Mas acredito que tem de ser feito e que será feito.

O Caetano já interveio socialmente com a sua música. Quais são as situações e os problemas que mais o preocupam agora?
Principalmente como desandou a economia. Uma economia em refreação, sem que se veja ainda quando vai deixar de estar, aponta para o pior nas oportunidades de emprego para as pessoas que precisam de trabalhar, o que pode aumentar a sensação de insegurança. As pessoas podem muito mais facilmente se entregar à vida violenta. Esse aspeto é o mais profundamente preocupante, mas o outro lado dessa moeda — que é o pensamento e a ação política — também está muito embaraçado.

O que pensa?
Está difícil apresentar algum comentário ou contribuir com alguma observação política que seja útil e que não venha apenas aumentar a confusão ou a falsa definição de posições. Porque parece que ou você fica entregue a uma incapacidade de definição dos acontecimentos ou você é imediatamente assimilado publicamente por um dos lados desse embate.

E onde fica a corrupção?
A corrupção está bem no meio disso tudo. Não é que o Brasil seja o país mais corrupto do mundo, mas é um país em que a corrupção se tornou um tema mediático, do qual a imprensa fala todos os dias. Mas também não se pode querer resumir toda a paixão brasileira à corrupção, porque evidentemente, no momento em que esse esforço de enfrentamento da corrupção cresceu e se mostrou nitidamente, o alvo principal estava no governo do PT. Não houve quem não tivesse sentido, mesmo apoiando, que esse era um meio de o Brasil livrar-se do PT. Eu não sou pêtista, nunca fui pêtista e só votei Lula quando ele se elegeu para ser presidente. E uma vez num segundo turno contra Fernando Collor. Mas eu não tinha engajamento com o PT. Achava só que o PT era um partido realmente baseado numa ideologia clara, parecendo agir a partir de uma visão ideológica da vida política no Brasil, e que era muito mais nobre do que os partidos que arranjam um jeito para conseguir coisas.

Ficou dececionado?
Mais ou menos, mas não como muitos pêtistas. Esses sim, ficaram dececionados. Mas agora, com essa ofensiva contra a corrupção que no momento em que aconteceu se mostrou mais apontada no PT, há essa desconfiança que tudo era feito contra o partido. E que talvez depois disso acabe a luta contra a corrupção. Existe esse medo, não infundado, no Brasil. Eu acho que a luta contra a corrupção não pode resumir-se a isso e tem de ser levada até ao fim.

Voltando à sua música, como é que vê o futuro? O que é que ainda gostava de fazer?
Eu queria ainda fazer algumas coisas que me deixassem seguro de que valeu mesmo a pena eu me dedicar à música popular. Desde novo eu amava a música popular, mas nunca me senti dotado musicalmente para exercer essa função de maneira profissional. Houve duas vezes em que tive a certeza de que ia deixar de fazer isso para fazer outras coisas, mas o destino não quis. E fiquei em dívida para comigo mesmo, em dívida para com o mundo. Acho que tenho coisas que são relevantes e outras que são agradáveis, outras que são importantes, mas nada que seja suficiente aos meus olhos — ou aos meus ouvidos.

Está a planear alguma dessas coisas para breve?
Eu quero ver se faço alguma coisa, mas eu não sei se sou capaz. Eu quero tentar, ou seja, ou em composição ou em modo de cantar, tocar e gravar. Eu tenho vontade. Quando comecei a tocar com Jaques Morelenbaum fiz umas investidas muito interessantes, coisas mais ousadas, mais ambiciosas do que fazia antes, para ver se criava um corpo de trabalho. Naquela altura eu via claramente o que precisava de fazer, via que aquilo que eu tinha feito era meio mal feito. Tem coisas que são feitas de maneira altamente relaxada, descomprometida, e que são na verdade muito boas por outras razões. Eu tenho, de vez em quando, essas crises de querer consertar o meu jeito de fazer.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de setembro de 2016