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Vou ali e já faço

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A arte da preguiça

Um ensaio sobre a procrastinação. Com um final feliz

Naturalmente que existem coisas mais interessantes para fazer. É preciso escrever um texto? Bom, bom era ter uma entrevista para fazer... Ai, que aquele telefonema não pode mesmo esperar. Ah, que a loiça do almoço ainda está por lavar e, caramba, claro que só se pode trabalhar em paz depois de estar tudo limpo. Mas, se calhar, antes disso, ainda ia um cafezinho e duas páginas daquele policial sueco que está na mesa de cabeceira. Mais três páginas... Vá, avante até ao fim do capítulo, que isto de deixar coisas a meio não faz bem a ninguém. E agora é só fechar os olhos um bocadinho, ganhar forças antes de começar a escrever o texto... Mas se calhar o melhor é ir trabalhar para outro lado que, já se sabe, em casa há muitas distrações. Para onde ir? Se calhar aquela biblioteca... Não, é longe. Talvez o café. Não, que é barulhento. Já sei, o miradouro! Ala que se faz tarde! Tanto vento... Isto se calhar não dá para escrever. Já que cheguei até aqui o melhor é mesmo aproveitar. E o texto? Ah... À noite é que é!

Podia ser um texto, podia ser um livro, podia ser a limpeza doméstica, podia ser a preparação de uma reunião. O que fosse. O que importa aqui é a arte da procrastinação, o 'dolce far niente' que só mais dolce seria se não deixassem tantos sentimentos de culpa e a consciência pesada. Conhecemos tão bem este sentimento. Por isso, a proeza está em conseguir definir um objetivo — “o” grande objetivo — e terminá-lo com a consistência que desejamos, desejando que não nos leve mais tempo do que aquele que estipulámos. Se é para fazer é para fazer bem. E rápido, sem distrações.

No caso da jornalista de negócios do 'The New York Times', Phyllis Korkki, a façanha é enorme. Comprometeu-se a escrever um ensaio sobre a capacidade para atingir objetivos. Uma tarefa árdua, solitária e interminável, e o resultado é este. Voilá, um livro nas bancas. Missão cumprida.

A ideia de escrever um livro começou depois de ter assinado um texto, no jornal norte-americano, sobre prazos de entrega, os famosos 'deadlines'. Apesar de a ideia lhe agradar, de se sentir altamente motivada, Korkki sabia dos obstáculos que se lhe colocariam (e que ela própria se encarregaria de erguer): a preguiça, a procrastinação e todas as distrações possíveis imaginárias. Uma espécie de diário de bordo da missão a que se propôs, com um lado mais lúdico, quase anedótico, quando narra as suas dificuldades para se concentrar, as distrações mais triviais e as desculpas que sempre conseguiu encontrar, pelo caminho, para desculpar aquele desvio do objetivo. Explica como mudou as suas rotinas, os hábitos e outras afinações necessárias para chegar ao fim do último capítulo do livro.

Tem outro lado mais analítico mas sempre acutilante, fazendo lembrar o estilo de Malcolm Gladwell (autor de “Blink”), em que apresenta uma série de entrevistas que faz a psicoterapeutas, neurocientistas, psicoanalistas. Explicam porque a nossa mente se desvia tão facilmente dos objetivos, sobretudo à medida que vamos envelhecendo.

Korkki entrevista também uma série de profissionais, de escritores a cantores de reggae, procurando perceber como são os seus processos para atingir objetivos e superar os obstáculos da procrastinação.

“THE BIG THING — How to Complete Your Creative Project Even if You're a Lazy, Self-Doubting Procrastinator Like Me”Phyllis Korkky, HarperCollins Publishers, 233 páginas, €16,20 (preço na Amazon)

“THE BIG THING — How to Complete Your Creative Project Even if You're a Lazy, Self-Doubting Procrastinator Like Me”Phyllis Korkky, HarperCollins Publishers, 233 páginas, €16,20 (preço na Amazon)

Pelo meio, a jornalista fala também dos truques que foi aprendendo e utilizando para dar a volta à languidez e desânimo que, normalmente, vão assaltando o comum dos mortais, quando estes se propõem a grandes (mas também pequenas) coisas.

“Cada pessoa que trabalha na sua 'Grande Coisa' ('Big Thing') experiencia limites que podem ser aceites, mas também aproveitados. Mesmo que os limites pareçam ser negativos, podem ser transformados em algo positivo”, escreve Phyllis Korkki no seu livro. Mas tem de ser mesmo agora? Não tem, mas devia...