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Morreu o escultor José Rodrigues

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Lucília Monteiro

Internado há quase uma semana, o artista plástica morreu este sábado de manhã no Porto, onde foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore

Tinha 79 anos e morreu este sábado. Para o próximo mês completaria 80 anos e estava a ser-lhe preparada uma grande homenagem com a participação de dezenas de artistas plásticos. Era uma das referencias da cultura no Porto. Foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, esteve na fundação da Bienal de Cerveira e fazia parte dos “Quatro Vintes”, o grupo de alunos que pela primeira vez na história da Escola de Belas Artes do Porto concluiu a licenciatura com 20 valores. Chamava-se José Rodrigues, mas para todos o seu mundo podia resumir-se no carinhoso “Zé” com que os amigos o nomeavam.

Dizer “o Zé” era perceber a dimensão de um homem que, nascido em Luanda, Angola, a 21 de outubro de 1936, construiu em Portugal uma sólida carreira, embora sem jamais esquecer as raízes angolanas, afinal sempre muito presentes na sua obra.

José Joaquim Rodrigues era alguém para quem nada de quanto estivesse relacionado com as artes plásticas lhe era estranho. Fez memoráveis cenários nos tempos gloriosos do Teatro Experimental do Porto, em particular para peças como “Perdidos na Noite Suja”, “A Casa de Bernarda Alba” ou “Yerma”, de Federico Garcia Lorca.

Deixa desenhos com um poder expressivo difícil de igualar, até em resultado de uma variedade temática que poderia levá-lo de uma singular religiosidade a um fascinante erotismo. Na medalhística ou na cerâmica criou uma imagem única, ilustrou livros para Eugénio de Andrade, com quem tinha uma relação muito próxima, mas também para Vasco Graça Moura ou Jorge de Sena, entre muitos outros.

É, porém, na escultura que se expressa toda a sua grandiosidade. José Rodrigues é autor de obras hoje já icónicas, como o célebre Cubo da Ribeira (1976). Chamavam-lhe “mestre”, tamanha foi a influência exercida sobre jovens artistas nos mais diversos domínios. Durante muito tempo marcado por uma espécie de modernidade revolucionária no modo como materializava as suas concepções

artísticas, tinha da arte uma visão muito ligada à ideia de trabalho coletivo, de preferência desenvolvida numa oficina onde se misturassem os saberes dos mais novos com os do mais velho. Não por acaso, nos últimos anos ganhou enorme presença no Porto a Fundação José Rodrigues, um espaço cultural sempre aberto, não apenas a residências artísticas, como à disponibilização de espaços para a organização de exposições. Ontem mesmo foi inaugurada mais uma mostra na Fundação.

Representado em inúmeras coleções nacionais e em diferentes museus nacionais e estrangeiros, José Rodrigues foi um artista dificilmente acomodável ou acomodado. Soube sempre estar do lado dos que reivindicavam um mundo melhor, nunca perdeu uma certa atitude contestatária e, sobretudo, jamais abandonou uma máxima que só será entendida na plenitude do seu significado se lhe for retirada a leitura literal: “a arte deve ser o espaço dos jovens”.

O escultor e pintor marcou um tempo, na cidade e no país. Com Ângelo de Sousa, Armando Alves e Jorge Pinheiro fez parte do grupo de alunos que, em 1968, terminaram o curso de Belas Artes com a classificação máxima. Nunca foram um grupo artístico, mas ficaram para a história como o “Os Quatro Vintes”.