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Dessa guerra tantas vezes silenciada

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Médico. Lobo Antunes chega a Angola como alferes médico miliciano. A experiência desta guerra irá marcá-lo para sempre

“Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, um espantoso filme sobre o amor, devolve-nos a uma guerra que nunca nos esforçámos por recordar. António Lobo Antunes é o cicerone deste regresso ao Ultramar. Talvez porque, ao longo de todos estes anos, o escritor foi a voz de uma (in)consciência que desde 1979 cerca dolorosamente as feridas por curar do que resta do “nosso impensado”, como lhe chama Eduardo Lourenço

Sessenta e poucas páginas depois da primeira frase de “Os Cus de Judas”, António Lobo Antunes acusa o mal-estar que lhe desperta o silêncio que sucedeu à guerra e à descolonização: “Porque camandro é que não se fala nisto? Começo a pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não existiram nunca e lhe estou contando um romance de mau gosto impossível de acreditar (...).” O segundo livro do jovem escritor, psicanalista, médico em Angola durante a guerra colonial, irrompe inesperadamente num Portugal que prefere evitar as feridas da guerra, da qual acabou de sair, a enfrentá-las. O país fá-lo-á por muitos mais anos. Já a voz de António Lobo Antunes, essa, nunca se calará. Antes possibilitará o regresso à tragédia, 37 anos depois, ao tornar-se fonte e inspiração do filme “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, em estreia esta semana.

Em 1979, ano da publicação de “Os Cus de Judas”, com o país atarefado a ensaiar a democracia e a tentar chegar a consensos, nas famílias, nas empresas, nas cooperativas e até nos jornais, o jovem escritor revelação obtém a atenção dos leitores. Comprovam-no as vendas dos primeiros livros. Mas António Lobo Antunes demora muito mais tempo a convencer a crítica literária. Rodrigues da Silva é o primeiro jornalista a publicar uma longa entrevista, dividida em duas partes. Inicia-a a 18 de outubro de 1979, no suplemento Letras-Artes do “Diário Popular”, a propósito de “Memória de Elefante”, o primeiro romance de Lobo Antunes. Um livro no qual as reminiscências da guerra, de que o escritor dará conta de forma frontal no romance seguinte, ainda não confiscam cada uma das páginas. A grande descrição do horror que viveu em África estará para vir. Filmável até, como ele sugere num artigo de jornal que explora a vontade anunciada de Matos Silva, o cineasta de “O Mal-Amado” (1974), adaptar “Memória de Elefante”, apenas dois meses depois de o romance ter sido publicado. “Agradar-me-ia mais que fosse feita uma adaptação cinematográfica do segundo livro, ‘Os Cus de Judas’, que para mim toca o problema da guerra colonial muito mais a fundo e que eventualmente eu penso que poderia ser um filme mais importante”, devolve Lobo Antunes a Matos Silva. Mas os dois filmes ficarão por fazer. O cinema terá raros encontros/confrontos com a guerra colonial nos anos seguintes, apesar de casos como “Um Adeus Português”, de João Botelho, em 1986, ou de “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, de Manoel de Oliveira, em 1990.

Cartas de Guerra. Imagem do filme de Ivo M. Ferreira

Cartas de Guerra. Imagem do filme de Ivo M. Ferreira

Lobo Antunes continuará a contar a sua guerra além de “Os Cus de Judas”, fazendo aquilo que Eduardo Lourenço considera ser “a verdadeira psicanálise visceral, não mítica, de Portugal”. É muitos anos depois que outro elemento desta história se intrometerá. Trata-se de um livro que não nasce da vontade do escritor. Mas do seu consentimento. “Cartas da Guerra — D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto”, editado pelas filhas Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, responde ao desejo da principal destinatária dos aerogramas que Lobo Antunes escreve durante o tempo em que cumpre a comissão militar em Angola — Maria José Xavier da Fonseca e Costa, a mulher grávida de quem se despediu no dia 6 de janeiro de 1971 e com a qual se casara no verão anterior. A primeira e, durante muitos anos, única leitora daqueles trezentos “gritos de amor sufocados”. As filhas, que os publicam anos depois da morte dela, terminam o prefácio do livro dizendo: “Este é o amor dos nossos pais, de onde nascemos e do qual nos orgulhamos. Nascemos de duas pessoas invulgares em tudo, que em parte vos damos a conhecer nestas cartas. O resto é vosso.” Esse “vosso” acaba por se alargar e contaminar muita outra gente. Facto que não suscitará surpresa às irmãs: “Quando começámos a ler as cartas e a transcrevê-las para o computador percebemos que era um documento histórico, que as cartas eram mais do que cartas do nosso pai para a nossa mãe. Eram documentos de uma época, o que foi determinante para a decisão [de as publicar]”, explica a filha Maria José. Em “Os Cus de Judas”, António Lobo Antunes diz: “E eu escrevia para casa Tudo vai bem, na esperança de que compreendessem a cruel inutilidade do sofrimento, do sadismo, da separação, das palavras de ternura e da saudade, que compreendessem o que não podia dizer por detrás do que eu dizia e que era o Caralho caralho caralho caralho caralho (...).” Editadas em 2005, as cartas recebem o nome que Lobo Antunes escolhera para o seu primeiro romance mas que fora rejeitado pela editora; e tiveram a magia de um abracadabra. Deram entrada num novo velho mundo, que Lobo Antunes primeiro expressara em “Memória de Elefante”, “Os Cus de Judas”, “Conhecimento do Inferno”, e levaram-no de volta ao “todo o cais é uma saudade de pedra”. O lançamento dos aerogramas reunidos, obsessiva e diariamente enviados com palavras de amor, esperança e algum desespero, devolvia “o doutor” aos braços da Companhia de Artilharia 3313, com quem tinha cumprido os 27 meses de serviço. “O reencontro com os camaradas [na Gare Marítima de Alcântara, de onde tinham partido décadas antes] foi um momento extraordinário. Houve uma aproximação do meu pai e de nós enquanto filhas à vida daquelas pessoas”, conta Maria José, Zezinha para estes militares, tendo em conta que mãe e filha chegaram a viver com Lobo Antunes durante o segundo ano de comissão em Angola, no posto recuado de Marimba.

Angola. António Lobo Antunes parte para Angola no dia 6 de janeiro de 1971, depois de se licenciar em Medicina, integrando a Companhia de Artilharia 3313, como alferes médico miliciano. A 22 de janeiro segue para o leste de Angola, cumprindo o primeiro ano de serviço entre Gago Coutinho, Ninda e Chiúme. Passará o segundo ano no posto recuado de Marimba, regressando a Portugal em 1973. Nas fotos, retiradas de “Cartas da Guerra” (Dom Quixote, 2005), além dos camaradas está uma menina que Lobo Antunes quase adotou

Angola. António Lobo Antunes parte para Angola no dia 6 de janeiro de 1971, depois de se licenciar em Medicina, integrando a Companhia de Artilharia 3313, como alferes médico miliciano. A 22 de janeiro segue para o leste de Angola, cumprindo o primeiro ano de serviço entre Gago Coutinho, Ninda e Chiúme. Passará o segundo ano no posto recuado de Marimba, regressando a Portugal em 1973. Nas fotos, retiradas de “Cartas da Guerra” (Dom Quixote, 2005), além dos camaradas está uma menina que Lobo Antunes quase adotou

As irmãs começam a ir aos almoços anuais dos combatentes e com o tempo Maria José decide fazer uma tese de doutoramento, na área da antropologia, para contar “uma história” daquela companhia. “O que me interessa não é o que aconteceu mas sim de que forma se recorda e se esquece aquilo que aconteceu”, escreve no livro “Regressos Quase Perfeitos — Memórias da Guerra em Angola”, que publicou em 2015 na editora Tinta da China. Sem esquecer as cartas do pai à mãe, a investigadora socorre-se de outras fontes, nomeadamente da história oral de 31 camaradas de Lobo Antunes e dos registos militares. Quase no final do livro, Maria José Lobo Antunes explica: “A voz do escritor, a sua pessoalíssima e literária visão dos acontecimentos é incorporada na narrativa que os homens da CART 3313 vão construindo e repetindo nos almoços anuais. Às suas palavras é reconhecida a capacidade de representação da experiência.” Quase simultaneamente, Ivo M. Ferreira decide pegar nas cartas — ao ouvir a mulher grávida, Margarida Vila-Nova, lê-las em voz alta — e dar-lhes uma nova vida num filme, a que chama precisamente “Cartas da Guerra”. “E se essa tem sido a justificação que se tem repetido vezes sem conta na imprensa”, como reconhece o realizador, a verdade é que é ele o primeiro a dizer que o interesse pela guerra colonial era anterior a esse momento. Com um pai quase da mesma idade que a dos companheiros de Lobo Antunes, o realizador, de 40 anos, é filho de um exilado que só regressa ao país depois da Revolução dos Cravos.

O pai foge de Portugal, ainda estudante, para não fazer parte de uma guerra que considera absurda e injusta. O filho ouve-lhe a história ainda em criança, mas também não se esquece do que um tio lhe diz: “O teu pai deve-me dois anos, três meses e 28 dias por não ter estado na guerra!” De uma forma simplista, e natural a um miúdo, o realizador confessa que chega a pensar que quem tinha ido à guerra do Ultramar era mau, porque o pai dele não o tinha feito: “Nessa fase embrionária não percebia que todos eram vítimas.” Edgar Medina, de 39 anos, coargumentista de “Cartas da Guerra”, continua: “O 25 de Abril rompe com a ditadura do Estado Novo e lança a guerra colonial para o passado. A partir daquele momento, Portugal já é outro. Está ocupado com a maravilha da democracia, com a possibilidade de desenvolvimento económico, com a festa de Abril, mais tarde com a CEE e depois com a União Europeia. O silêncio abate-se sobre os combatentes. Estes homens parecem fantasmas no meio de uma festa.” O que é irónico, como o argumentista lembra, tendo sido o 25 de Abril feito por militares que não queriam dar continuidade a essa guerra.

“Uma má consciência”

Se até ao 25 de Abril se acreditava que a censura impedira muitos livros de saírem e muitos génios literários de se revelarem, depois da revolução faltavam os ditos manuscritos, que muitos imaginaram guardados durante décadas no fundo das gavetas, conta Assírio Bacelar, um dos fundadores da Assírio & Alvim e o primeiro editor de António Lobo Antunes na Vega, editora que fundou em 1976. Até 1974 não faltaram referências à guerra colonial na poesia de Manuel Alegre, património da resistência ao regime. “O Canto e as Armas” foi um símbolo de rejeição à guerra, contra a qual Manuel Alegre também lutara por outros meios. Um livro censurado que não deixou de correr ilegalmente de mão em mão. Na mesma época, e no teatro, Raul Solnado ocupava-se a inventar uma guerra (adaptando um texto espanhol de Miguel Gila) que apesar de nunca ter existido não podia de facto parecer-se com outra que não a nossa. Para todos menos para a censura, que por ignorância não compreendia que guerra ridícula era aquela, a de 1908. Em 1977, “O Que Diz Molero”, de Dinis Machado, iniciava a crítica e a discussão sobre o que somos. E Fernando Assis Pacheco optava por deslocar a guerra de que queria falar, e onde estivera em 1965, para o Vietname. Na poesia, faria o ajuste já depois da Revolução dos Cravos, transformando em 1976 o poema ‘Câu Kiên: Um Resumo’, inicialmente editado em 1972, em ‘Katalabanza, Kilolo e Volta’. No romance “Walt” (1978), o poeta, escritor e jornalista não dispensaria, porém, a camuflagem: “Meto na prosa soldados, civis, incivis, chulos e putas, eu próprio estou lá disfarçado de narrador-alferes, choro à bruta (...) apetecia-me mandar o país Portugal ao tota, mas em segunda leitura sou um tipo basto moral e paro a meio palmo do traço proibido.” Fernando Dacosta, escritor e jornalista atento, desde o primeiro romance, ao talento de Lobo Antunes, recorda ao Expresso outras ousadias da época. Como a de Natércia Freire (editora do suplemento de letras do “Diário de Notícias”), que publica nos anos anteriores à revolução poemas contra a guerra, ou a de Amália Rodrigues a cantar ‘Senhora do Livramento’, que falava de uma jovem rapariga cujo namorado a iria deixar pela vida de soldado. Dacosta sabia, no entanto, por experiência própria que o 25 de Abril não tornara a guerra assunto fácil de abordar. Em 1978, estreara-se como dramaturgo com uma peça sobre a guerra colonial (“Um Jeep em Segunda Mão”, que a RTP premiou e produziu mais tarde), gerando mal-estar entre os militares: “Havia uma má consciência, um grande preconceito e até quem dissesse que a guerra pertencia a um género literário menor.”

Saudade. E solidão, como tantas vezes escreve em cerca de trezentos “gritos de amor sufocados”. É nos aerogramas, obsessivamente enviados dia após dia para a mulher que deixara grávida em Portugal, que António Lobo Antunes dará conta de que por lá anda “como alma penada”, às voltas com a revolta. Durante anos, os aerogramas ficam na posse da mulher, que antes de morrer expressa às filhas, Maria José e Joana, a vontade de as ver publicadas. O seu desejo realizar-se-á em 2005 em “Cartas da Guerra”

Saudade. E solidão, como tantas vezes escreve em cerca de trezentos “gritos de amor sufocados”. É nos aerogramas, obsessivamente enviados dia após dia para a mulher que deixara grávida em Portugal, que António Lobo Antunes dará conta de que por lá anda “como alma penada”, às voltas com a revolta. Durante anos, os aerogramas ficam na posse da mulher, que antes de morrer expressa às filhas, Maria José e Joana, a vontade de as ver publicadas. O seu desejo realizar-se-á em 2005 em “Cartas da Guerra”

O problema seria menos literário que outro. Na verdade, não havia qualquer heroísmo a reconhecer a quem falasse do que aconteceu em África, confirma Manuel Alegre: “O 25 de Abril, enquanto golpe militar, criou condições políticas para acabar com a guerra, mas a guerra não acabou dentro das pessoas. Ninguém queria ouvir falar daquelas situações de isolamento, emboscada, bombardeamento de napalm, cabeças cortadas. Incomodava os que cá ficaram e nada sabiam e os que de lá tinham voltado.” O poeta conta que um dia em Braga uma menina fez um desenho a partir do seu poema ‘Nambuangongo, Meu Amor’ e que ao chegar a casa, e ao mostrá-lo ao pai, este se desfez em lágrimas. Nunca a filha soubera nada sobre a guerra colonial, de que o pai fizera parte, como de resto aconteceu com muitos outros filhos dessa geração culpabilizada. Firmino Alves, camarada de Lobo Antunes, foi dos que preferiram o silêncio. Durante pelo menos 25 anos a guerra não fez parte das conversas: “Havia os que ao regressar lhes faziam festas na aldeia... Punham-se a contar histórias. A mim não me apetecia.” Nessa época, o omissão pareceu-lhe sempre menos dolorosa, mesmo que a guerra nunca o tenha abandonado: “Ainda hoje acordo sobressaltado à procura da minha G3. Porquê? Porque sem a G3 não éramos nada.” A início evitava o tema: “Nas cartas para a família eram só maravilhas!” Queria resguardar-se do desgosto de ter perdido dois companheiros a dois dias de terminar a comissão e esquivar-se da hipótese de ser visto como um assassino, como lhe aconteceu durante uma missa: “Depois de ter ouvido o sermão do padre tive de lhe ir dizer: Então eu andei lá a dar o corpo, sujeito a morrer, e chego cá e levo com isto? Eu não tinha pais que me mandassem para França. Não ia fugir. Não sabia como fugir... Naquela altura, nem sabia quem era o Karl Marx... Estávamos numa ditadura.” A única vez que dera conta à família do horror fora na véspera de partir para Gago Coutinho, a terra em Angola para onde a companhia tinha sido destacada. Depois de ser chamado pelos militares mais antigos para ver que carga levava a última viatura apressou-se a escrever ao irmão: “Foge! Foge para França! Que isto aqui é o fim do mundo!” A camioneta ia carregada de caixões.

A vedeta e o título impronunciável

Um dia, Firmino Alves descobriu os livros de Lobo Antunes, as palavras que o poderiam amparar. Algo que já acontecia nesses primeiros anos com muitos outros portugueses sem que fosse necessário nenhuma manobra de marketing. Em março de 1980, o “Diário Popular” dava conta do “fenómeno” Lobo Antunes: “O público pega num autor sem passado, à revelia da crítica, da publicidade e das regras de como subir na vida através da Literatura e faz dele uma vedeta em menos de três meses.” A guerra mudara o croché mental de Lobo Antunes, desfizera a pequenez do bibelô na qual fora criado em Benfica: “Foi há seis anos [que saiu da guerra] e perturbo-me ainda.” A vontade de Lobo Antunes se fazer escritor começara muita antes da experiência em África, para a qual parte deste “país estreito e velho”, com a família convencida de que a tropa o faria homem, depois de o terem criado “num acanhado universo”. Angola introduzira-lhe novos temas e uma consciência política amadurecida sobre assuntos que antes não existiam. Mas tendo em conta os chamados autos de fé que tinha por hábito fazer às obras que foi alinhavando durante anos, é provável que o romance “Os Cus de Judas” nunca tivesse sido publicado ou mesmo sobrevivido enquanto manuscrito sem a intervenção e incentivo do psiquiatra Daniel Sampaio, seu amigo. É através de um psicólogo, sócio da editora Vega e próximo de Sampaio, que os livros de Lobo Antunes chegam às mãos de Assírio Bacelar. “Memória de Elefante” é lançado em julho, “uma época péssima para editar livros”. Mas no regresso das férias a primeira edição já está esgotada. “Foi vertiginoso, funcionou o feeling”, conta Assírio Bacelar nos escritórios da editora Vega, com os primeiros exemplares em cima da mesa, nos quais estão inscritas “as dedicatórias bonitas” que o escritor lhe fez na altura. A editora avança para a segunda edição em dezembro desse mesmo ano e acompanha-a da primeira de “Os Cus de Judas”. Logo a seguir, em fevereiro de 1980, o primeiro livro alcança a quarta edição e “Os Cus de Judas” a terceira. Ao todo, os dois livros terão nove edições cada um, na mesma Vega, editora que Lobo Antunes acabará por trocar mais tarde pela Dom Quixote. A publicação dos romances não se faz sem algumas complicações. Logo na primeira abordagem à tipografia, que é a da Rádio Renascença, Assírio Bacelar vê “Memória de Elefante” ser rejeitado. Para “Os Cus de Judas” já nem volta a bater à mesma porta. Procura nova tipografia. Até o título era um problema, lembra o editor: “Na primeira Feira do Livro onde ele apareceu, as pessoas não ousavam pronunciar o nome do livro por causa do natural conservadorismo da época.” Apesar disso, “Os Cus de Judas” impõe-se e rapidamente desperta o interesse de uma importante editora norte-americana, a Random House. Assírio Bacelar ainda negoceia os direitos (assunto que mais tarde causará diferendo entre editor e escritor): “Era o primeiro livro que incidia sobre a guerra colonial e foi por isso que mereceu o interesse da Random House, que assim lhe abriu portas para a internacionalização.” Bacelar afirma mesmo que “Os Cus de Judas” é o primeiro livro de ficção portuguesa a ser publicado nos EUA e até faz anúncios na imprensa a anunciar o facto.

“Não houve nada. Não se passou nada”

A dimensão da mobilização de efetivos para África, lembra Maria José Lobo Antunes, citando John Cann, “teria sido equivalente aos Estados Unidos colocarem 2,5 milhões de homens no Vietname, em vez de 500.000”. Como escreve a investigadora, em 1961, o número de homens enviados para Angola subiu rapidamente de 3 mil para 33 mil, aos quais as novas frentes de combate na Guiné, em 1963, e em Moçambique, em 1964, terão acrescentado um efetivo militar estimado em mais de 800 mil homens. Com tamanha dimensão e impacto num país tão pequeno seria possível ter tido mais livros, mais acontecimentos literários? Mais escritores a abordar o assunto? Mais filmes? Ou temos o que é possível num país pouco alfabetizado, no qual foram poucos os escritores, os realizadores a ir à guerra e ainda menos os que estiveram em combate? A realidade era de facto outra, era a de muitos homens, jovens de 20 anos, analfabetos, que dependiam dos companheiros para poder escrever à família ou para arranjar correspondência com madrinhas de guerra; ainda que as cartas, ou a falta delas, como diz Manuel Alegre, gerassem mais protestos do que a fome e a falta de mantimentos. Para o poeta foi mais no cinema que se sentiu a falta deste assunto (“devíamo-lo ter entregue aos norte-americanos) do que na escrita. Mas é de sublinhar o tempo que a literatura leva. “A Costa dos Murmúrios”, de Lídia Jorge, foi publicado 14 anos depois do 25 de Abril, enquanto “Era Uma Vez Um Alferes”, de Mário de Carvalho, e “Autópsia de Um Mar em Ruínas”, de João de Melo, são lançados uma década depois. O autor de “O Canto e as Armas” lembra outros nomes, como o de Carlos Vale Ferraz, ex-comando que publica romances, colabora no argumento do filme “Capitães de Abril” e dá matéria literária a António-Pedro Vasconcelos para fazer o filme “Os Imortais” (2003) (sobre um grupo de comandos que decide assaltar um banco). Para Eduardo Lourenço falta sobretudo o texto fundamental que deveria pertencer aos atores desta história: “Não sabemos os problemas de consciência que os atores tiveram. Sabemos que os tiveram. Só não sabemos quais foram.” No gabinete da Gulbenkian, numa destas tardes de agosto, Eduardo Lourenço encontra um exemplar de um livro que recolhe 40 anos de reflexões que em muitos casos não publicou, “a conselho de amigo”, e que escrevia para si mesmo “para não perder um comboio que já estava perdido”. A edição de 2014 é organizada por Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Recebeu o título “Do Colonialismo como Nosso Impensado” e começa com um texto escrito em cima dos primeiros relatos da rebelião em 1961, impregnados de uma atmosfera moral de cruzada, face à qual Eduardo Lourenço se indigna. Atmosfera que se irá manter, no entender do pensador, durante os 13 anos seguintes e que o levará a chamar a esta guerra “a última cruzada” portuguesa. O livro, alerta o filósofo, é dedicado à memória de Ernesto Melo Antunes (militar e figura-chave do Movimento das Forças Armadas, com várias pastas nos governos após o 25 de Abril) e a António Lobo Antunes, amigos e companheiros em Angola. Como dissera, anos antes, num colóquio, África foi o espelho no qual António Lobo Antunes pôde ver melhor o delírio da experiência portuguesa. Um delírio em que “se viveu uma guerra nunca confessada, onírica, com ração suplementar de cadáveres reais ao amanhecer. E da mesma maneira, oniricamente terminou (sem na verdade ter existido como prática confessa da Nação), numa certa manhã, quando, incrédula, a Metrópole acordou outra”. Tal como Salazar insistia, e Lourenço recorda, apenas dez anos depois do 25 de Abril: “Não houve nada, não se passou nada.”

Família. Maria José e António Lobo Antunes conheceram-se e começaram a namorar no verão de 1966. Casaram-se em 1969, meses antes de o médico e escritor partir para Angola. No segundo ano de comissão, Maria José e a filha, também Maria José (a bebé das fotos), juntam-se a António Lobo Antunes no posto recuado de Marimba, no qual a família viverá até 1973. De África, Maria José regressará grávida da segunda filha do casal, Joana. Estas fotos foram publicadas em “Cartas da Guerra”

Família. Maria José e António Lobo Antunes conheceram-se e começaram a namorar no verão de 1966. Casaram-se em 1969, meses antes de o médico e escritor partir para Angola. No segundo ano de comissão, Maria José e a filha, também Maria José (a bebé das fotos), juntam-se a António Lobo Antunes no posto recuado de Marimba, no qual a família viverá até 1973. De África, Maria José regressará grávida da segunda filha do casal, Joana. Estas fotos foram publicadas em “Cartas da Guerra”

O filósofo José Gil, autor do famoso “Portugal Hoje — O Medo de Existir”, acredita que a falta de obras literárias e cinematográficas não quer dizer que as pessoas individualmente não pensassem na guerra colonial: “Há uma razão geral que não é só portuguesa. Houve outros países que durante muito tempo mantiveram essa denegação da guerra, como a Alemanha. A guerra é um trauma que não se quer reavivar e que abrange toda uma população. Houve um sofrimento enorme, múltiplo. Depois, o império não tinha uma existência nos portugueses. Salazar tratou o império como a nossa quinta.” Para o filósofo, a guerra ganhou invisibilidade perante a existência de uma matriz mental solidificada por Salazar: “O salazarismo entranhou profundamente na história portuguesa algo que passa pelo facto de o português não se querer reconhecer a si próprio como responsável. Há uma culpabilização, que já aparece em Antero de Quental, e que faz com que cada um de nós se sinta responsável mas que ao mesmo tempo não aceite que alguém lhe diga que é responsável. O país é uma choldra. Mas eu não sou a choldra.” Se se falou pouco sobre a guerra, continua José Gil, é porque não temos a capacidade de nos reconhecermos responsáveis por acontecimentos condenáveis: “Um povo capaz de dizer ‘eu sou responsável’ é superior, para usar as palavras de Nietzsche, mas aqui não houve essa grandeza.” Uma descolonização relâmpago trouxe uma passagem de um estado a outro, sem a existência de um ritual simbólico. Essa terá sido, para José Gil, a segunda principal causa: “A sociedade portuguesa não quer conflitos. Não quer agressividade. Somos uma sociedade de consensos. Precisávamos de ter tido um rito de passagem, necessário para nos fazer sair do salazarismo. Em vez disso, antigos dignitários do regime tornaram-se dignitários da nossa democracia. Há uma promiscuidade social em Portugal que faz com que todos sejam todos, que os homens de negócio sejam os homens políticos, que os homens políticos sejam professores universitários... É tudo igual. Todos se conhecem.”

“E o que vão fazer?”

Ivo M. Ferreira e Edgar Medina partiram para a adaptação das “Cartas da Guerra” de Lobo Antunes ancorados em todos os outros romances e crónicas do escritor sobre o seu passado angolano com a certeza de que o cinema português “se limitou a silenciar a guerra colonial do mesmo modo que a sociedade o fizera” ao abordar este assunto escassas vezes e muitas de forma indireta.

Os Príncipes. No lançamento de um livro, alguém se lembrou de dizer que Lobo Antunes tinha vivido em Angola rodeado de homens humildes. Ao que ele prontamente respondeu: “Não são homens humildes; são príncipes”, conta a filha no livro que escreveu sobre a Companhia de Artilharia 3313, de que o escritor fez parte. Até hoje, é assim que aqueles homens se veem, reconhecendo nas palavras do camarada e escritor a sua guerra. Esta foto foi publicada em ”Regressos Quase Perfeitos — Memórias da Guerra em Angola” (Tinta da China, 2015)

Os Príncipes. No lançamento de um livro, alguém se lembrou de dizer que Lobo Antunes tinha vivido em Angola rodeado de homens humildes. Ao que ele prontamente respondeu: “Não são homens humildes; são príncipes”, conta a filha no livro que escreveu sobre a Companhia de Artilharia 3313, de que o escritor fez parte. Até hoje, é assim que aqueles homens se veem, reconhecendo nas palavras do camarada e escritor a sua guerra. Esta foto foi publicada em ”Regressos Quase Perfeitos — Memórias da Guerra em Angola” (Tinta da China, 2015)

Arquivo de José Jorge

O projeto do filme não se inicia sem o selo “impossível”, até porque Ivo M. Ferreira não prescinde de uma rodagem em África. O segundo confronto é com a suspeita. As intenções do realizador geram perguntas: Porque é que o vão fazer? Como é que o vão fazer? As pessoas, em geral, os combatentes, em particular, que foi conhecendo através de Maria José Lobo Antunes, tinham receio de serem maltratados. “Há toda uma tendência na história literária portuguesa do pós-25 de Abril de tratamento do soldado como um executante de uma política de mal. É o que justifica que nos últimos 40 anos grande parte da bandeira dos combatentes tenha sido levantada por uma direita com um discurso anacrónico, serôdio, patrioteiro...”, explica Edgar Medina. Tal como “Os Cus de Judas” e “Cartas da Guerra”, o filme constrói um monólogo. Do outro lado está sempre o silêncio. A visão de António Lobo Antunes é unilateral. Não dá o outro lado da guerra. Para José Gil, é como se em “Os Cus de Judas” se definisse a antítese do ecrã que Salazar criou: “Segundo o discurso salazarista, o ecrã estava destinado a refletir-nos como grandes quando éramos pequeninos. A imensidão do império era a nossa grandeza, mantendo-nos pequenos e humildes. Este ecrã encobria por completo realidades. É interessante ver que num livro no qual se faz um relato sobre a guerra colonial em Angola só aparecem três linhas sobre os indígenas. Lobo Antunes apenas inverte a função do ecrã...” De facto, o escritor não esconde o confronto entre a cartilha salazarista e o que vê naquilo que escreve no próprio romance: “A ideia de uma África portuguesa, de que os livros de História do liceu, as arengas dos políticos e o capelão de Mafra me falavam em imagens majestosas, não passava afinal de uma espécie de cenário de província a apodrecer na desmedida vastidão do espaço, projetos de olivais sul que o capim e os arbustos rapidamente devoravam, e um grande silêncio de desolação em torno, habitado pelas carrancas esfomeadas dos leprosos.” A luta do protagonista não é com o inimigo que não vê, mas com ele mesmo, com o mundo onde cresceu, “em dois anos de angústia, de insegurança e de morte”, e até com o que lhe reservam no regresso a casa: “Se a revolução acabou, percebe, em certo sentido acabou de facto, é porque os mortos de África, de boca cheia de terra, não podem protestar, e hora a hora a direita os vai matando de novo, e nós, os sobreviventes (...) nos apercebemos que estamos mortos como eles, acomodados nas urnas de chumbo que o capelão benzia (...).” Ivo M. Ferreira e Edgar Medina não escondem que nunca foi sua intenção ir além das cartas, ir além do universo de Lobo Antunes. “Essa seria outra história. Pepetela, é curioso, estava do outro lado... Quem quiser pode fazer o filme do outro lado”, diz Ivo M. Ferreira, enquanto Edgar Medina acrescenta: “O facto de o Ivo não ter filmado o inimigo, não o ter presente, e de ter posto aquele grupo de pessoas tão frágeis, no meio daquele espaço tão imponente, perdido no meio do nada, acaba por ser uma metáfora muito poderosa sobre a guerra colonial, o projeto imperial e colonial português. Todo este absurdo, de se estar a travar uma guerra fora de tempo, numa área que é 20 vezes o tamanho de Portugal, com um exército diminuto.”

Na companhia de que António Lobo Antunes fez parte há uma frase da autoria do escritor muitas vezes repetida: “Somos quem fomos.” Para José Gil, é muito claro o que fazer com o passado: “Enquanto não reconhecermos o que fizemos, assumirmos a nossa história, a nossa verdade, vamos estar institucionalmente e socialmente doentes. Vivemos 40 a 50 anos numa realidade que não era verdadeira e dizíamos sempre outra coisa. A verdade histórica é deslizante, mas nós estamos sempre a querer escapar.” E é nesta necessidade de regresso ao nosso impensado, como diz Eduardo Lourenço, que o cinema nos pode valer? Será “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, uma forma pequena mas válida de nos lembrar que já deveríamos ter criado um ritual de passagem que, como José Gil sugere, nos tornaria um país adulto e amadurecido? Mais uma gota de água para que o esquecimento não vença a memória, como diz Manuel Alegre? Ou apenas a história de uma guerra que se intromete e interrompe um admirável amor? Mas mesmo que seja “apenas”, também isso não fará diferença. Como diz Manuel Alegre, a guerra é sempre contra o amor.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 setembro de 2016