Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O artista completo

  • 333

O regresso de Frank Ocean é dos mais aguardados dos últimos anos e confirma um talento que não precisa de validação

Um autorretrato de Frank Ocean que este publicou no seu tumblr

Um autorretrato de Frank Ocean que este publicou no seu tumblr

Frank Ocean

Quando ‘Novacane’, single com que se apresentou, se tornou uma das canções mais celebradas de 2011, o mundo estava longe de conhecer as verdadeiras potencialidades de Frank Ocean. Cinco anos volvidos, fãs de toda a parte desesperavam com os adiamentos sucessivos do segundo longa-duração do norte-americano, entretanto elevado a nome maior do r&b com o disco de estreia, “channel ORANGE”. ‘Pyramids’, ‘Bad Religion’ e, sobretudo, ‘Thinkin Bout You’ ajudaram a transformar o álbum de 2012 num clássico instantâneo e valeram a Ocean uma legião de admiradores — entre eles, ilustres como Adele, Kanye West ou Beyoncé — que passou os últimos anos a salivar por mais. “Blonde”, a resposta para todas as preces, fez-se esperar e acabou por chegar, após várias ameaças, integrado num plano que envolveu ainda o “álbum visual” “Endless” (disponível em exclusivo no serviço de streaming da Apple) e a revista “Boys Don’t Cry” que, entre outras curiosidades, inclui um poema escrito por West.

Muito terá mudado na vida de Ocean ao longo dos últimos quatro anos, mas a voz aveludada permanece a mesma, as suas canções continuam a aventurar-se em experimentações (sem perder de vista a natureza confessional) e a capacidade que tem de emocionar quem o ouve está ainda mais apurada. “Blonde” devolve-nos um músico cheio de garra, ciente do seu valor, apostado em fazer as coisas à sua maneira, mesmo que, neste caso, venha bem acompanhado. Seria fácil embandeirar o facto de ter nos créditos do disco nomes como Beyoncé, Pharrell Williams, Kendrick Lamar, André 3000 (Outkast), James Blake, Jamie xx ou o amigo de longa data Tyler, The Creator, mas Ocean não se deixa ofuscar por essas colaborações, apresentando uma coleção de canções que tem a sua impressão digital por toda a parte (na produção, inclusive). Outra decisão louvável prende-se com o facto de o músico ter os olhos postos no futuro. O que se ouve em “Blonde” é incomparável com o que ficou para trás, em “channel ORANGE” e na mixtape “nostalgia, ULTRA” (2011), e se o registo antecessor permanece fresco nos nossos ouvidos, aqui são apontados novos caminhos em canções que soam interdependentes. Ouvir “Blonde” de forma desprendida, em modo shuffle ou parcial, não é uma experiência tão gratificante quanto escutá-lo de fio a pavio.

Se qualquer dúvida quanto aos instintos transgressores de Frank Ocean não tivesse ficado desfeita nos quase 10 minutos da magistral ‘Pyramids’, ter-nos-ia sido difícil engolir ‘Nikes’, canção escolhida para cartão de visita — e abertura — de “Blonde”: só ao fim de três minutos ouvimos a sua voz sem manipulação digital. A batida sincroniza-se com o batimento cardíaco, a voz adulterada intensifica os níveis de ansiedade, mas a calma que sentimos quando finalmente ouvimos soltar-se o verso “we’ll let you guys prophesy”, é libertadora. E só após essa experiência, equilibrada entre a “chuva” e os “brilhantes”, estamos preparados para escancarar a porta de um dos álbuns mais misteriosos, intensos e honestos que ouvimos nos últimos tempos. A sensualidade tímida de ‘Ivy’ (não há verso tão pegajoso aqui quanto “I thought that I was dreaming when you said you loved me”) e as ondulações de ‘Pink + White’, valsa dançada a meias com Beyoncé (discreta, nas segundas vozes), dão continuidade à viagem de forma seguríssima. Quando chegamos a ‘Solo’, já não há como resistir. Entre temas guiados por cordas (tranquilas e oníricas em ‘Skyline to’ e ‘Self Control’, contundentes em ‘Nights’) e teclas (‘Solo’, ‘Good Guy’, ‘Godspeed’), Ocean vai empilhando, de forma exploratória, densas camadas de instrumentação (‘Pretty Sweet’, ‘Close to You’ e ‘Futura Free’, brilhante faixa de encerramento, são três dos momentos mais arriscados). Em suma, “Blonde” é um disco orgulhosamente assente em canções, que tanto falam de experiências dolorosas da juventude como apontam o dedo ao consumismo, carregando aos ombros uma capacidade sísmica capaz de derrubar as paredes que ainda separavam o homem que o assina das estrelas.

Blonde, Frank Ocean, Boys Don’t Cry

Blonde, Frank Ocean, Boys Don’t Cry

  • Vale a pena esperar quatro anos para ouvir uma cousa destas

    Passaram-se quatro longos anos desde a estreia de Frank Ocean – longos para os fãs, cuja impaciência ameaçava tornar-se incontrolável, e para ele, que teve tempo de construir duas versões do mesmo disco, um álbum visual, um videoclip e muita poesia. “Blonde” é um presente dele para nós (“Cantar estas músicas é terapêutico e eles pagam-me, mãe/ Eu é que devia pagar-vos, sinceramente”), envolto em muito mistério e num lançamento que parecia nunca mais acabar, para no final ficar apenas o que interessa: a música (e aquelas letras sobre o amor e o tempo, e aquela voz tantas vezes sozinha porque não precisa de acompanhamento). Ocean chamou a tropa de elite da indústria – nos créditos estão os nomes de Beyoncé, Kendrick Lamar, Andre 3000, Kanye West, Jamie XX, David Bowie ou James Blake – para compensar uma ausência demasiado longa. Este é um dos acontecimentos do ano - e o álbum é incrível