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Escrever a cores

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d.r.

Reinaldo Serrano

Nascido galês, filho de noruegueses tornados gente de Cardiff, viu as cores do mundo pela primeira vez há 100 anos, mais exatamente aos 13 de setembro de 1916. Os olhos fechou aos 23 de novembro de 1990, na académica área de Oxford, no Reino Unido.

Se lembrássemos Pessoa, diríamos sem reserva que, entre a data do seu nascimento e a da sua morte, todos os dias terão pertencido a Roald Dahl. Mas tal não aconteceu na sua plenitude, pois que o notável homem de letras as juntou de forma tal que por muitos é apontado como um dos melhores contadores de histórias... da história da literatura. Graças a ela, com graça as lemos e as lembramos num universo pleno de criatividade, imaginação, fantasia e versatilidade – repartidas sem mácula entre as dezenas de obras dedicadas a adultos e aos que hão de sê-lo, entre contos, romances e poesia.

Apenas para os eventualmente mais distraídos, a quem o nome de Dahl nada diz, aqui se lembra o que escreveu: “Charlie e a Fábrica de Chocolate” (exemplo paradigmático de como o cinema nunca conseguiu alcançar a magia das palavras do autor), “James e o Pêssego Gigante”, “Matilde”, “O Fantástico Sr. Raposo” ou “O Amigo Gigante”, agora entrado nas salas de cinema pela mão de Steven Spielberg. Esclarecidos?

Sucede que a sempre atenta BBC não deixou passar em claro o centenário do nascimento de Roald Dahl e, por causa disso, brindou o público com um apetecível documentário biográfico a que justamente chamou “The Marvellous World Of Roald Dahl”. É recente (estreou em julho), é pedagógico, é divertido, despretencioso... e fascinante. Não tem sequer uma hora, mas a sua duração permanece na memória dos que assistem ao desfiar de uma vida recheada de peripécias, nomeadamente a da sua condição de piloto de caças na RAF, durante a II Guerra Mundial. O facto não é de somenos importância até porque, assim o demonstra o documentário, foi determinante para o seu arranque no mundo das letras: não por acaso, a sua primeira publicação foi “Shot Down Over Lybia”, registo escrito do susto passado pelo próprio Dahl, que quase lhe custou a visão.

Mas o documentário que aqui se sugere sem reticência mostra igualmente as facetas de Dahl no mundo da espionagem, bem como as suas aventuras no domínio da invenção – curiosamente, foi Dahl quem introduziu o a palavra “gremlin” na literatura de ficção, no romance homónimo que escreveu para o público infantil em... 1943, marcando a sua estreia num género em que alcançou um sucesso assinalável.

Assistir a “The Marvellous Of Roald Dahl” é entrar de modo privilegiado no universo de um autor indiscutivelmente bem sucedido, mas também indiscutivelmente pouco conhecido, situação que este trabalho de Andrew Thompson corrige, recorrendo a cartas, apontamentos, testemunhos (também do próprio Dahl, como é óbvio) e preciosas imagens de arquivo que nos ajudam a situar e a melhor entender o autor e a sua obra. Preciosa ajuda nesta (conseguida) tarefa é o testemunho de Sir Quentin Blake, notável ilustrador de obras infantis (ele próprio autor ocasional) e parceiro privilegiado de Dahl numa carreira que o levou a conquistar, em 2002, o prestigiado prémio Hans Christian Andersen. Através do cavalheiro de 83 anos mergulhamos num olhar único sobre o trabalho de Dahl, ao mesmo tempo que ansiamos por documentário semelhante sobre o próprio Sir Blake.

Resta acrescentar que a “voz” de Dahl neste excelente trabalho da BBC está a cargo da deliciosa narrativa de Robert Lindsay, que muitos recordarão de várias comédias, dramas e participações enquanto leitor e declamador, nomeadamente nos célebres BBC Proms.

Tudo somado, nada há realmente a subtrair deste objeto televisivo que prova sem que disso tivesse necessidade que o canal estatal do Reino Unido consegue, sem esforço, unir o reino do entretenimento com o da contínua aprendizagem. Para nosso contínuo deleite...