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Contos do tempo em que os animais falavam

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IMAGINAÇÃO E EMPREENDEDORISMO. As fábulas de Beatrix Potter há mais de 100 anos que fazem sonhar os mais novos. São também o sonho empreendedor de uma mulher que conseguiu vingar no seu tempo

FOTO TOPFOTO/AP

Pela primeira vez, os contos infantis da inglesa Beatrix Potter são traduzidos para português, no ano em que se comemora o 150º aniversário da autora

Setembro aproxima-se, as férias estão a terminar, procura-se de novo o aconchego do lar. Para muitas famílias, com crianças, é hora de voltar a estabelecer rotinas, procurar o sossego e nada melhor do que, antes do regresso às aulas, treinar a imaginação e a concentração à roda dos livros. A sugestão da “Estante de Livros” desta semana fala e escreve-se em português e, apesar de constar na prateleira da literatura infantil, agradará os miúdos e os mais graúdos, que certamente serão 'teletransportados' à sua infância através das imagens dos dóceis animais, coelhos, esquilos, gansos, ouriços-cacheiros, vestidos como humanos, que viviam em casas nos troncos da árvores e viviam aventuras nas hortas dos vizinhos — desenhados à aguarela, com traços ingénuos e realistas. Pela primeira vez, os contos da escritora inglesa Beatrix Potter são editadas em português, em quatro volumes, pela editora PIM, chancela da Europress e da Ponto de Fuga que nasce precisamente com este primeiro tomo de “Contos Completos I”.

A História do Pedro Coelho (1902), A História do Esquilo Trinca-Nozes (1903), O Alfaiate Velhote (1903), A História do Coelhinho Casimiro (1904), A História dos Dois Ratinhos Marotos (1904) e A História da Senhora Pica-Pisca (1905) são as fábulas que constam neste primeiro volume, lançado em julho passado, coincidindo com o nascimento (a 28 de julho) de Beatrix Potter. Embora o nome possa não dizem muitos aos portugueses, esta autora inglesa, nascida em 1866, certamente terá influenciado o seu imaginário infantil. A primeira personagem a que deu vida e corpo foi a Pedro Coelho, o coelhinho, de jaqueta azul, que, apesar dos conselhos avisados de sua mãe, se escapuliu para ir comer as hortaliças do quintal do Senhor Gregório — conto que já vendeu mais de 45 milhões de cópias e está traduzido em 36 línguas.

Entre setembro e novembro, serão lançados os restantes números da coleção da PIM em Portugal. Entretanto, no Reino Unido, em celebração do nascimento desta celebrada escritora, já estão em circulação dez novos selos, emitidos pelo Royal Mail, cada um representando uma personagem emblemática dos contos de Potter.

EFEMÉRIDE. No Reino Unidos, uma edição de selos com as personagens dos contos mais famosos de Potter foi lançada recentemente para marcar os 150 anos do seu nascimento

EFEMÉRIDE. No Reino Unidos, uma edição de selos com as personagens dos contos mais famosos de Potter foi lançada recentemente para marcar os 150 anos do seu nascimento

Pedro Coelho (Peter Rabbit) ganhou forma, pela primeira vez, num carta que Beatrix Potter enviou ao filho de uma antiga percetora. “Meu querido Noel, não sei o que escrever, por isso vou contar-te uma história sobre quatro coelhinhos cujos nomes eram Florinda, Melinda, Rabinho-de-Algodão e Pedro. Viviam com a mãe num banco de areia, por baixo ada raiz de um grande abeto”.

Da missiva a personagem literária amada por milhões, assim se tornou Pedro Coelho. E outras dezenas de personagens, que ganharam vida nas três dezenas de livros escritos e ilustrados por Potter.

Ainda hoje, a sua quinta, a Hill Top Farm, em Lake District, recebe a visita de milhares de visitantes, que procuram conhecer as fontes de inspiração da autora que tantas memórias lhes ofereceu.

Filha de uma abastada família burguesa, Beatrix é fruto do conservadorismo da era vitoriana. Enquanto o seu irmão mais novo pôde frequentar a escola, a filha mais velha dos Potter foi obrigada à reclusão, sendo educada pelas governantas e adquirindo conhecimentos formais, sobretudo Pintura e História Natural, com percetores contratados.

A literatura infantil como escape

As idas ao campo, sobretudo nas férias passadas na Escócia, e a observação da natureza foram os escapes desta mulher, que fervilhava em imaginação. Durante a adolescência, chegou a escrever um diário em código, descodificado nos anos de 1950 (anos depois da sua morte, em 1943), uma forma de preencher os tempos mortos e de exercitar o intelecto.

Potter foi uma mulher que, apesar de manter uma atitude conservadora perante a vida (no que diz respeito à família e às suas responsabilidades enquanto filha mais velha) e nunca quebrar o rígido código de costumes, surpreendeu pela sua visão empreendedora. Durante a sua adolescência, começou a desenhar postais, com animais, como forma de ganhar algum dinheiro.

Depois de seis editoras lhe terem recusado a publicação da história de Pedro Coelho, Potter decidiu fazê-lo numa edição própria de 250 exemplares, em 1901. Foram todos vendidos (um deles foi comprado pelo pai de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle). Outros 200 exemplares foram impressos e novamente esgotaram. Nessa altura, a Frederick Warne & Co, que anteriormente havia recusado a publicação, acabou por pegar no título, pedindo à autora para redesenhar as personagens, então a preto e branco, e dar-lhes cor. Num ano, vendeu 50 mil exemplares.

PEDRO COELHO. A personagem fundadora e mais conhecida da literatura de Beatrix Potter

PEDRO COELHO. A personagem fundadora e mais conhecida da literatura de Beatrix Potter

Percebendo a popularidade do “seu” Pedro, Potter patenteou a sua imagem e procurou rentabilizá-la ao máximo, através do lançamento de merchadising, incluindo jogos de tabuleiro, livros para colorir e puzzles.

A morte prematura do seu noivo, Norman Warne, levou-a, aos 39 anos, a viver no campo, na quinta do Lake District, hoje local de romaria. Este ponto é o antes e o depois da sua carreira. Aos 47 casou-se com William Werris e passou a dedicar a sua vida à conservação do património e à melhoria das condições de vida no campo. É, aliás, tida como a impulsionadora da preservação da raça ovina autóctone Herdwick e tornou-se uma das maiores proprietárias da região.

Faleceu a 22 de dezembro de 1943, aos 77 anos, de problemas cardíacos e pneumonia. Deixou como herança, ao National Trust for Places of Historic Interest or Natural Beauty, milhares de hectares de terra. Mas, mais importante, deixou vivo um legado de histórias, personagens e situações pitorescas que continuará a alimentar a infância de muitos. Agora, em português.

“Beatrix Potter — Contos Completos I”, Beatrix Potter, PIM Edições, 192 páginas, €16,60

“Beatrix Potter — Contos Completos I”, Beatrix Potter, PIM Edições, 192 páginas, €16,60