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Carmen vai às compras com Nabbuco

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ÓPERA. De género musical elitista está a conseguir tornar-se cada vez mais popular, graças à aliança dos grandes teatros com as novas tecnologias. Na imagem, “Giordano Bruno”, apresentada na Casa da Música

FOTOS CASA DA MÚSICA

A mais radical experiência por mim vivida enquanto ocasional espetador de ópera aconteceu-me há uns vinte anos em Savolinna, uma pequena cidade do sudoeste da Finlândia, situada no coração de Saimaa, uma região de lagos. Realiza-se ali, desde os primeiros anos do século XX, um grande e muito original festival internacional de ópera em condições e num cenário muito particular.

Naquele final de tarde de agosto tudo parecia confluir para um mesmo local. O programa era por demais aliciante. A Ópera de Tokyo apresentava “Madame Butterfly”, de Giacomo Puccini, no mais improvável dos cenários: o interior do castelo medieval Olavinlinna, construído em 1475 e com uma assombrosa vista sobre um dos lagos.

Cometi um erro fatal, não obstante a estranheza suscitada por ver como todos quantos se dirigiam para o castelo transportavam um pequeno volume cujo conteúdo não soube identificar. Percebi-o lá dentro, porventura muito antes do que pode considerar-se como o início do segundo ato. E percebi-o da pior das maneiras, desde logo por não ter sido sagaz ao ponto de prever as idiossincrasias de um princípio de noite em agosto próximo do polo Norte. Enquanto dos misteriosos embrulhos desabrochavam mantas com as quais todos se agasalhavam, eu, habituado aos agostos de um clima mediterrânico, tiritava de frio, mesmo se por nada abandonaria aquela récita.

De então para cá, a ópera tem vindo a conquistar novos espaços, novos públicos, embora sem ter conseguir, ainda e por completo, libertar-se do peso da catalogação como género musical elitista ao qual poucos terão acesso. Ver ópera no interior de um castelo medieval numa remota cidade finlandesa foi inesquecível, como inolvidáveis são os preços então cobrados pelos bilhetes, mesmo se tivermos em conta o alto custo de vida na Finlândia.

“Ring Saga”

“Ring Saga”

Um outro momento deslumbrante foi vivido há cinco anos, também num improvável local: a Casa da Música, no Porto, construída com a expressa indicação de que não seria sua função apresentar ópera. Na verdade não está preparada para programar encenações convencionais de espetáculos operáticos. Acontece, porém, que hoje há uma nova abordagem, não apenas ao modo de construção do espetáculo, como aos meios da sua difusão pública. E já por lá passaram espetáculos únicos e inesquecíveis, como a estreia mundial, em setembro do ano passado, da ópera “Giordano Bruno”.

Há cinco anos, porém, num só fim de semana, o palco da Casa da Música recebeu, no ciclo “Ring Saga”, as quatro óperas do Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, numa versão total de nove horas, concebida de propósito para aquele espaço e para um agrupamento musical – o Remix Ensemble – com apenas 18 instrumentistas. Num singular festival cénico, assumidamente distante de grandes produções como as do festival de Bayreuth, na Alemanha, a Casa da Música mostrava com memorável sucesso um novo caminho de aproximação ao grande reportório.

Na última década têm sido diversificadas as ações destinadas a tornar cada vez mais próximo do comum dos cidadãos um género musical cuja morte eminente com frequência tem vindo a ser decretada. Em julho passado, por exemplo, aconteceu em Espanha algo de inédito. Pela primeira vez foi transmitida uma ópera em direto através de uma rede social. Enquanto no Teatro Real de Madrid umas 1 700 pessoas assistiam à apresentação de “I Puritani”, de Vincenzo Bellini, uma ópera de 1834 que não estará, sequer, entre as 100 mais solicitadas ou representadas, mais de 170 mil internautas conectavam-se com o Facebook, em Espanha e um pouco por todo o mundo, para durante três horas acompanhar os desenlaces daquelas atribulações românticas.

“Nabucco”, no Teatro Nacional S. Carlos

“Nabucco”, no Teatro Nacional S. Carlos

d.r.

É toda uma panóplia de novas possibilidades que se abrem. A esta disponibilidade dos encenadores e responsáveis pelos teatros para se abrirem a outros meios de difusão não é alheia a crescente diminuição de apoios e fundos públicos destinados a viabilizar um espetáculo que, pela sua própria natureza e especificidade, tem elevados custos de produção.

Há uma necessidade absoluta de novas receitas. Ainda ninguém pôs Carmen a ir às compras com Nabucco, nem serão necessárias subversivas miscelâneas desse tipo. Há, porém, uma óbvia necessidade de explorar o glamour associado a novas estrelas, que já não podem ser apenas bons cantores ou cantoras. Têm de assumir a pose de estrelas de cinema, com tenores sedutores e sopranos belíssimas, como cada vez mais se vêm nos diferentes palcos.

Neste caminho de procura, há novos passos a serem dados. Começaram de forma titubeante há nove anos, quando pela primeira vez, e a título experimental, o Gran Teatre del Liceu de Barcelona decidiu transmitir uma ópera em “streaming” numa sala de cinema. Talvez ninguém o tivesse previsto na altura, mas em poucos anos esta passou a ser uma forma económica e popular de acesso a fabulosas produções de grandes teatros.

“Giordano Bruno”

“Giordano Bruno”

Às vezes em direto a partir da Metropolitan Opera de Nova Iorque, como acontecerá a 14 de janeiro na Gulbenkian, em Lisboa, com a transmissão de “Nabucco”, de Verdi, ou já inserido em programações dos cinemas. No próximo dia 15, o UCI Arrábida, em Gaia, exibe “Turandot”, a última obra de Puccini, pela Opera Austrália.

A aliança entre grandes teatros e novas tecnologias não apenas destruirá qualquer puritanismo remanescente, como poderá operar uma surpreende e real popularização de um espetáculo que não tem de permanecer um exclusivo de elites endinheiradas. Carmen não tem de ir às compras com Nabucco.