Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A orelha de Getty e o burro de Guerra Junqueiro

  • 333

COLECIONADORES. O “Jardim das Delícias” é uma das joias do Museu do Prado graças à paixão pelas artes de Filipe II de Espanha, I de Portugal

d.r.

Um dia, o milionário J. Paul Getty, com fortuna feita no negócio dos petróleos, recebeu em casa, por correio, a orelha de um neto. O miúdo fora raptado e Getty recusara-se a pagar um resgate. Fartos de esperar, os raptores decidem enviar aquele sinal ao homem que, não obstante gastar milhões de dólares a comprar arte ou a construir o Getty Museum de Los Angeles, optara por não mexer um dedo e libertar umas migalhas monetárias para recuperar o neto.

Calouste Gulbenkian, outro magnata com fortuna construída no negócio dos petróleos, consolidou ao longo dos anos uma fabulosa coleção de arte, que guardava de um modo muito cioso, ao ponto de chamar “filhos” aos trabalhos artísticos. Diz-se que por norma recusava emprestar arte aos museus e não permitia visitas porque os seus “filhos” não podiam ser incomodados. Todavia, quando morreu, em 1955, deixou a sua preciosa coleção para a constituição em Lisboa de uma fundação com o seu nome, onde todos podem, hoje dela usufruir.

A uma escala bem mais modesta, pode ver-se no Núcleo de Arte da Oliva uma grande exposição baseada na Coleção Norlinda e José Lima, depositada na Câmara Municipal de S. João da Madeira em regime de comodato, construída a partir do início dos anos de 1980 por aquele empresário sanjoanense. Com mais de mil obras, inclui peças de Andy Wharol, Joseph Beuys, Paula Rego, Antoni Tàpies, Malangatana ou Damien Hirst, entre outros.

Obra de Paula Rego

Obra de Paula Rego

d.r.

Os exemplos poderiam multiplicar-se “ad infinitum” e sempre esbarraríamos numa questão para a qual não há uma resposta fácil: o que faz com que alguém se decida a colecionar arte? Convém desde já estabelecer uma diferença de conceitos e não confundir com uma outra espécie muito comum nos nossos dias, composta por simples ajuntadores de arte. Porventura incluem-se aqui quantos vêm na arte apenas uma oportunidade de negócio como outra qualquer. Um investimento à espera de bom e rápido retorno. Um caminho para uma fácil e eficaz lavagem de dinheiro.

Importam os outros. Aqueles para quem o colecionismo compreende uma espécie de desígnio, assente num sólido e coerente discurso artístico. Até podem começar por fazer demasiado privado, como aconteceu com Gulbenkian, um gosto que, mais tarde ou mais cedo, não resistem a partilhar com todos. Só assim se completam. Só assim conseguem o que, afinal, talvez sempre tivessem procurado: criar sólidos laços com as comunidades. Fazer da partilha um programa torna-se uma marca de identidade.

Raros são os que, mesmo endinheirados, trilham este caminho durante o qual, ao absorverem vários discursos e formas de expressão artística, estão eles próprios a construir um legado capaz, não apenas de os definir, como de encenar uma imagem com impacto social. E isso conta. E isso fica.

Casa Museu Guerra Junqueiro

Casa Museu Guerra Junqueiro

RUI DUARTE SILVA

Há quem o tente, apesar de escassas serem as posses para a dimensão da ambição. Um caso paradigmático poderá ser o do poeta Guerra Junqueiro (1850-1923). Fez da vida uma permanente busca, em tudo quanto era sítio, de peças, obras de arte capazes de enriquecerem aquele que veio a tornar-se um importante espólio artístico e arqueológico.

Ganhou terreno, até, a caricatura de um Junqueiro, homem viajado, representado como um judeu sovina a atravessar a fronteira portuguesa acompanhado de um burro carregado de antiguidades. Casou rico, beneficiou da herança da mulher, em parte gasta na compra de peças de arte religiosa, quadros, louça portuguesa do século XVI, ou peças italianas ou hispano-árabes. Também negociou. Fez algumas vendas polémicas, como quando o aveirense Francisco Homem Cristo, político republicano, polemista, professor universitário, um dos militares envolvidos na Revolta de 31 de janeiro de 1891, o acusou de, ao rei Dom Carlos e à rainha Dona Amélia, ter vendido como preciosidades, objetos sem valor.

Ao escritor Raul Brandão queixava-se por vezes da atrapalhação da vida em resultado da míngua de fundos. Entre 1895 e 1903 vendeu mesmo uma parte substancial das suas coleções artísticas por precisar de dinheiro para as plantações de vinha nas suas propriedades.

O que ficou é muito e pode ser visto no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, ou na Casa Museu Guerra Junqueiro, no Porto, cuja visita é indispensável para compreender o percurso e as motivações de um colecionador singular.

Estatuária na Casa Museu Guerra Junqueiro

Estatuária na Casa Museu Guerra Junqueiro

RUI DUARTE SILVA

O acervo da Casa Museu, na Rua D. Hugo, é constituído por impressionantes coleções de artes decorativas, nacionais e estrangeiras, com cerâmica, pratas, armas, vidros e cristais, arte do metal, mobiliário, tecidos e tapeçarias. Ao MNAA legou esculturas, cruzes e turíbulos, bem como uma estante gótica de ferro forjado.

Tal como muitos outros antes e depois dele, Guerra Junqueiro pode ter colecionado para satisfazer um gosto pessoal. As voltas da vida, porém, tornaram público o que poderia não passar de um vício privado.