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Um passeio pelos telhados

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À CATA DE TESOUROS. A Rua Anchieta, no Chiado, com as bancas dos alfarrabistas dos sábados

NUNO BOTELHO

Reinaldo Serrano

O título da crónica deste dia que passa fui buscá-lo de forma despudorada mas reverencial a um programa de Ricardo Saló na desaparecida Rádio Universidade Tejo (RUT) que, entre 1986 e 1988, preencheu os sonhos e as aspirações de um punhado de gente de boa vontade que viu no éter uma possibilidade real de ser alternativa ao “status quo” que imperava nas rádios mais convencionais, ainda assim abaladas pela proliferação à época das estações locais. A RUT foi uma delas, o Instituto Superior Técnico a sua sede.

O programa supracitado propunha-se viajar sobre algumas capitais e, através dessas viagens, refletir a música que delas emanava, sobretudo aquela que normalmente não tinha espaço nas rádios dos países de origem e, por maioria de razão, nas ondas que por cá eram emitidas.

Permanece o título na crónica para dele nos socorrermos ao sugerir um passeio pelos telhados de Lisboa, ou do Porto, ou de outra qualquer cidade, vila ou aldeia, onde haja a possibilidade de acesso facilitado à leitura. Em tempo de férias, o corpo mais ou menos são carece de uma mente que mais sã pode ficar graças à paulatina graça de um livro. É por este motivo que, contrariando um pouco o espírito deste espaço semanal – onde as sugestões do que pode ser feito em casa são a tónica essencial – me atrevo a recomendar um passeio pela aventura dos alfarrabistas.

Ei-los que ao sábado preenchem a quase totalidade da Rua Anchieta, curta e ironicamente situada à direita de quem esteja a encarar de frente a lendária Livraria Bertrand, no Chiado. Outrora chamada Rua da Figueira, são outros os frutos que nos dias de hoje se apresentam ao passante daquela artéria da Baixa lisboeta. Lá descobri, por exemplo, diversas obras de mestre Aquilino Ribeiro, em primeiras edições, assinadas pelo autor e com dedicatória sentida a Urbano Tavares Rodrigues; custo de cada exemplar (em perfeito estado de leitura): 5 (cinco) euros!

Percorrer as escassas dezenas de metros de um sábado na Rua Anchieta, é partir ao encontro da surpresa em cada passo. Há preços de abertura fácil, jogos antigos, postais, medalhística e numismática, raridades d´aquém e d´além-mar, revistas da segunda guerra mundial, vinil, banda desenhada aos quadradinhos de um tempo que foi infância, livros infantis, juvenis, ensaios, poesia, ciências e informalidade: não tem preço trocar dois dedos de conversa com a gente que ali expõe uma parte ínfima de um espólio que se revela semana após semana, e que no verão (depois de um capilé tomado na Bénard) assume particular prazer enquanto fazemos do tempo aquilo que queiramos que seja.

De Jorge Amado a Konsalik, de Ferreira de Castro a Ruth Rendell, da Anita (que agora se chama Martine) à História da Grã-Bretanha, tudo pode ser encontrado, tudo merece ser procurado, entre a sépia imaginária que povoa a lateral da Bertrand, ela própria a merecer assídua visita. Mas há mais: a meio da (ben)dita rua, há uma pequena “toca” que é, ela própria, merecedora de visita – para os que procuram fusão entre o velho e o novo num espaço bem agradável e enriquecido por funcionário ancião e atento ao recheio que mostra livros, gravuras, posters, fotografias e objetos de um passado nostálgico mas não menos interessante em matéria de decoração cultural.

Em frente à rua, há outra boa notícia: a Livraria Sá da Costa mantém as portas abertas até tarde, na montra que ali se encontra piscando olho ao transeunte vai para 103 anos! Depois de avanços e recuos quanto ao futuro do espaço fundado em 1913, a Sá da Costa continua a mostrar longevidade e história, traduzida no impressionante espólio que merece visita demorada por entre os corredores ladeados de estantes que sustentam anos sem fim de raridades, curiosidades e opções verticais e horizontais para os amantes de um bom livro. Pena é que que o preçário nem sempre seja convidativo, mas é inequívoco que esta livraria, a par de outras dedicadas ao livro antigo e manuseado, preenchem um espaço único em matéria de oferta e diversidade literária que se deseja longa e próspera, para gáudio dos que veem no pó dos livros uma espécie muito particular de limpeza da alma.

Porque o estio vai a meio, meio descanso já foi mas, para o que der e vier, um passeio pelos telhados desta terra que é a nossa, pode significar o encontro inesperado com o que de melhor adormeceu num qualquer sótão, com o que de melhor pode despertar-nos para o usufruto do tempo que passa nas linhas tornadas palavras saídas da mente de um génio que por nós espera.