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A pior cantora de ópera de sempre cantava com o coração. Não é suficiente?

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DIVA. Os dotes vocais de Florence Foster Jenkins era admirados, pelas boas ou más razões

Quando nos Estados Unidos estreia o novo filme de Stephen Frears, com Meryl Streep no papel de Florence Foster Jenkins, um novo lançamento editorial dá a conhecer mais pormenores da vida daquela que ficou conhecida como a pior cantora de ópera de sempre

“De todos os cantores que aparecem diante do público nos dias de hoje, apenas Madame Jenkins aperfeiçoou a arte de acrescentar entusiasmo a uma frase escrita através da improvisação em quarto de tom, sempre acima ou abaixo das notas musicais. Pense nas dificuldades envolvidas para tornar possível tal coisa.” Assim rezava uma das críticas, a de Robert Bagar, no “New York World Telegram”, ao concerto que a diva Jenkins, então já com 76 anos, acabara de dar na famosa e cobiçada sala Carnegie Hall. Outras críticas terão sido certamente mais devastadoras para a reputação da cantora, mas nenhuma dá conta, de forma tão sensível e emocionada, daquilo que se passou no palco. Porque Florence Foster Jenkins, conhecida mundialmente pelo terrível mas sincero epíteto “a pior cantora de ópera de sempre” (basta uma busca no YouTube para perceber por que razão o rótulo se colou tão bem à personagem), cantava mal, é certo. Mas era tão sincera na sua vontade de cantar, tão ardentemente ciosa das suas qualidades vocais, que se tornou numa estrela amada pelo público. Ao ponto de ter esgotado o concerto no Carnegie Hall, onde a esperava uma plateia em apoteose, sempre pronta a premiar com palmas a nota mais esganiçada, o tom mais desafinado, o vibrato mais desconcertante da “Madame”, como assim era mimosamente chamada.

A fama continuou nos anos após a sua morte (apenas um mês depois do famoso espetáculo, vítima de ataque de coração). E não apenas pelo riso que o seu esforço, nunca em vão, provoca. “The Glory of the Human Voice”, assim se chamava ironicamente o álbum lançado quase duas décadas mais tarde com uma seleção das gravações que deixou, era um dos álbuns preferidos de David Bowie, que sobre ele disse: “Mudou a minha vida”. Não ignoremos, portanto, uma das influências do inolvidável Bowie.

Trucidar publicamente Mozart, Verdi e outros tantos compositores, reduzi-los a escombros e a trinados impossíveis de ouvir, ridicularizar cada uma das palavras estrangeiras com uma pronúncia incompreensível, são feitos associados a Jenkins, que, no entanto, era amada por isso. Durante muitos anos foram apreciados por uma vasta multidão, que seguia assiduamente os concertos que a socialite nova-iorquina ia fazendo um pouco pelos clubes femininos da cidade. As doações eram frequentes e a Florence ofereciam joias e outras prendas que, como boa patrona das artes, ela oferecia a instituições e músicos. Sempre com um sorriso e uma alegria contagiante. Numa outra nota do crítico Bagar, citada pelo “The Guardian”: “Ela era imensamente feliz no seu trabalho. É uma pena que tão poucos artistas o sejam, e a sua felicidade era comunicada, como que por magia, para a sua audiência.”

Livro e filme

Darryl W. Bullock é músico e alimenta o blogue “The World's Worst Records”. Foi obviamente nestas suas deambulações pelo que pior se faz e fez na história da música que encontrou Jenkins. Na verdade, a personagem já tinha dado origem a diversas obras, sobretudo teatrais, mas Bullock decidiu que haveria de escrever a sua história. Não num livro de 600 ou 700 páginas, tão grosso como a maioria das biografias, mas num modesto produto de pouco mais de 200 páginas. “É o tamanho certo para aqueles que querem saber mais sobre a pior cantora de ópera de sempre, mas não querem saber absolutamente todos os detalhes”, avança o “The New York Times”.

A CAMINHO DOS ÓSCARES Meryl Street dá vida e voz (desafinada) a Florence Foster Jenkins e Hugh Grant faz de seu marido e admirador no novo filme de Stephen Frears

A CAMINHO DOS ÓSCARES Meryl Street dá vida e voz (desafinada) a Florence Foster Jenkins e Hugh Grant faz de seu marido e admirador no novo filme de Stephen Frears

O livro, publicado no final do primeiro trimestre de 2016 no Reino Unido, acaba de ser lançado nos Estados Unidos ao mesmo tempo que estreia nos cinemas o filme sobre a vida desta personagem. Meryl Street dá vida e voz a Florence Foster Jenkins, ladeada por Hugh Grant e dirigida por Sthepen Frears (realizador de filmes como “A Rainha”), num filme que já se fala como presença certa na passadeira vermelha dos próximos Óscares. Street descreve Florence como “aspiracional e terrível, comovente e divertida”. Ela não era apenas má, “era má com todo o seu coração”, diz a atriz.

Uma vocação... imperfeita

Jenkins nasceu em 1868, numa família rica da Pensilvânia. Desde cedo que o seu amor às artes foi notório e, no que ao piano diz respeito, parecia mesmo dotada. Tocou o seu primeiro recital público aos 80 anos e, conhecida como “Little Miss Foster”, tocou para o presidente Rutherford B. Hayes na Casa Branca. Graduou-se em Ciências Musicais e, para fugir à vontade do pai, que a muito contragosto ia pagando a sua formação, casou-se com um médico, muito mais velho do que ela.

A união acabou rapidamente em divórcio e, com a morte do pai, acabou por herdar uma fortuna que lhe permitiu passar a residir num hotel em Manhattan e dedicar-se à sua vocação musical. Tornou-se uma ‘socialite’ nova-iorquina.

Acompanhada Do segundo marido, o britânico St. Clair Bayfield, a “Madame”, como já então era conhecida no meio, começou a cantar em clubes privados até fundar o seu próprio, o Verdi Club. Aparentemente, e talvez devido ao zelo do marido, Jenkins nunca soube realmente como a sua voz soava. Porque a muitos divertia e porque eram poucos os que se atreviam a dizer-lhe a verdade - nesta coisa da vida social, bastava que alguém arriscasse uma palavra contra ou crítica contra a “Madame” e mecenas para que facilmente arriscasse o seu estatuto na alta sociedade. E a todas as críticas nos jornais Jenkins soube dar a “sua” versão: “Os críticos dizem que eu não devia cantar, mas não dizem que eu não sei cantar”, terá dito.

“Florence! Foster! Jenkins!” é uma das leituras sugeridas para este verão pelo “The Guardian”. Sobre a figura de Jenkins, o autor do livro já disse: “A história de Florence é sobre a crença em si própria. É sobre a ideia que qualquer pessoa pode atingir os seus objetivos desde que acredite neles. Obviamente, ajudou o facto de ser tremendamente rica, mas isso não é tudo. Ela mergulhou na sua arte desde uma idade muito jovem: para ela, a música era a sua vocação, não uma coisa que fazia pela fama. Como os verdadeiros artistas, ela sentia-se compelida a praticar a sua arte. Claro que as pessoas riam dos modos ridículos de velha senhora, dos seus fatos absurdos e do seu terrível canto; nestas situações, ou encontramos diversão naquilo que o artista nos oferece ou sentimos repulsa pela sua inaptidão. No caso de Florence, a maioria das pessoas viu a diversão que ela tinha, não a miséria da performance”.
Quando Florence subiu ao palco do Carnegie Hall, ainda a Segunda Guerra Mundial parecia estar longe de acabar, muitos procuravam uma distração do horror, uma razão para se sentirem bem, darem umas gargalhadas, baterem palmas e sentirem-se mais em paz. Foi isso que, aos 76 anos, Florence Foster Jenkins lhes deu.

Florence! Foster! Jenkins!!! The Life of the World's Worst Opera Singer, de Darryl W. Bullock, 240 páginas, a partir de €18 (na Amazon)

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