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A anedota extralonga

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Humor em ponto morto e a cultivar situações insólitas em “Carneiros”, do islandês Grímur Hákonarson

Uma comédia burlesca situada na Islândia rural, que segue à risca os manuais do género

Comecemos por notar uma anomalia estatística: a estreia entre nós, com uma semana de intervalo, de dois filmes islandeses (“O Grande Fusí”, de Dagur Kári, e “Carneiros”, de Grímur Hákonarson). O fenómeno é estranho e mais estranho parece tornar-se quando consideramos os vários denominadores comuns entre as duas obras (a sua aposta conjunta em protagonistas excêntricos e lacónicos, no humor em ponto morto...). Sobre as razões que explicam estas afinidades falaremos adiante. Para já, olhemos de frente para o trabalho que aqui nos traz: a segunda longa de ficção de Hákonarson.

O seu primeiro plano instala-nos no décor onde decorrerá boa parte da ação: uma quinta situada num remoto vale islandês. É aí que se recortam as personagens centrais: dois velhos irmãos solteiros que, partilhando embora a quinta, não se falam há quarenta anos. As sequências iniciais servem somente para pormenorizar — à custa de sucessivas vinhetas burlescas — o clima de tensão que existe entre estas figuras (que vão comunicando por um ‘cão-correio’). A única coisa que ainda os une é a sua dedicação incondicional aos carneiros que compõem os seus rebanhos, cuja sobrevivência se encontra ameaçada por uma epidemia de BSE.

Eis a base de um filme que, como “... Fusí”, se limita a seguir um receituário: o das comédias burlescas produzidas no norte da Europa (pensamos nas de Roy Andersson, nas de Rune Denstad Langlo…). De facto, “Carneiros” procura implantar-nos num território familiar, semeando para o efeito uma série de sinais que possibilitem o reconhecimento de um certo ‘modo de olhar’. Onde os detetamos? Na estagnação do ritmo narrativo e na redução dos movimentos de câmara (que se querem langorosos para traduzir o imobilismo das personagens), e, antes de mais, no sistemático cultivo de situações insólitas. O problema é que Hákonarson aprisiona as suas figuras no interior da superficial camada de exotismo que fabrica, reduzindo-as ao conjunto de anedotas cartoonescas que os seus corpos são capazes de gerar.

Tudo se passa como se as personagens só por ali andassem para ajudar a decorar uma vitrina de tiques, que se viram contra elas para as devorar (fora desses tiques, elas não existem). Claro está: o filme que assim as projeta precisa, para chegar onde quer, de escavar um fosso irónico entre elas e nós, isolando-as laboratorialmente no seu mundo caricato. É por isso que, quando, no fim, Hákonarson faz um desvio na direção do trágico — tentando então aproximar-se dos corpos que fez questão de pôr à distância —, a única coisa que sentimos é que já nada sentimos, porque as nossas sensações ficaram anestesiadas pela criação de uma espécie de anedota nórdica extralonga. Tão longa que, no final, já ninguém a está a ouvir.

Carneiros

De Grímur Hákonarson
Com Sigurður Sigurjónsson, Theodór Júliússon, Charlotte Bøving (Islândia/Dinamarca/Noruega/Polónia)
Comédia/Drama M/12