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Pranto por Garcia Lorca

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LORCA. Há oitenta anos, na madrugada de 18 de agosto de 1936, o poeta era fuzilado nos arredores de Granada

d.r.

Era de noite e levaram-no. Havia um camião. E havia o ódio. E havia a ânsia de escarrar a raiva. E havia a bebedeira do poder. E havia a sanha da vingança. E havia a aversão pelo outro. E havia a repulsa pela diferença. Havia um camião. Havia armas. Havia o desejo de morte. Era de madrugada e fuzilaram-no. Tinha 38 anos. Chamava-se Federico Garcia Lorca.

Aconteceu há 80 anos. Na madrugada do dia 18 de agosto de 1936, num campo nos arredores de Granada, os seguidores do golpe desencadeado por Francisco Franco contra a República Espanhola mergulharam em mais uma matança. Entre quantos para sempre desapareceram estava um homem depressa transformado em símbolo maior dessa imensa tragédia chamada Guerra Civil de Espanha.

O crime hediondo ficou para sempre como um buraco negro na galeria dos horrores de um conflito cujas feridas continuam por sarar. Nunca até hoje foi encontrado o corpo “do desaparecido mais famoso e mais chorado do mundo, símbolo máximo do horror e da repressão fascista, bem como das mais de 100.000 vítimas que, para vergonha de Espanha, jazem ainda em fossas e valas comuns”, como escrevia há dias no jornal El País o conceituado historiador britânico Ian Gibson, autor de fundamentais livros de referência sobre a Guerra Civil de Espanha e de uma monumental biografia sobre o poeta, intitulada “Vida, pasión y muerte de Federico Garcia Lorca”.

Republicanos em posição de combate

Republicanos em posição de combate

FOTO STF/AFP/GETTY IMAGES

A procura dos restos mortais de Lorca e de tantos outros republicanos mortos permanece uma questão em aberto. Historiadores, arqueólogos, geólogos oriundos de universidades de Espanha, Argentina ou Reino Unido têm dirigido diferentes escavações, a partir de pistas mais ou menos consistentes. Sempre sem resultados. Nunca foi, sequer, construído um simbólico túmulo dedicado ao poeta no Palácio de Alhambra, como chegou a sugerir Antonio Machado.

Autor marcado por uma grande universalidade, Lorca, num curto espaço de vinte anos, soube construir uma espantosa obra poética, um impressionante corpus de obras teatrais, ao ponto de inúmeros dos seus versos, cenas ou títulos das suas peças continuarem a assegurar lugar na memória e num certo imaginário coletivo. “Yerma”. “Verde que te quiero verde”. “Bodas de Sangue”. “Eran las cinco en punto de la tarde”. “Llanto por Ignacio Sánchez”. “Poeta em Nova Iorque”. “Amor Brujo”. “A casa de Bernarda Alba”.

Nascido em 5 de junho de 1898 em Fuente Vaqueros, uma aldeia próxima de Granada, Lorca era o filho mais velho de um abastado proprietário de terras e da professora da aldeia. Revela desde muito novo uma especial vocação para a música. Estuda piano com o maestro e compositor Antonio Segura Mesa até a morte do professor, em 1916. No ano seguinte abandona os estudos musicais em conflito com o pai por não lhe permitir a mudança para Paris, para onde peregrinavam os espanhóis que queriam ser alguém na música.

Cursa direito na Universidade de Granada e em 1919 muda-se para Madrid, onde vai encontrar, na Residência de Estudantes, dois jovens com quem passa a conviver de forma intensa e a partilhar experiências de vida, experiências sexuais, experiências artísticas, e com os quais acaba por ter uma relação de amor-ódio: Luis Buñuel e Salvador Dali.

O cineasta Luis Buñuel, parceiro de aventura surrealista S

O cineasta Luis Buñuel, parceiro de aventura surrealista S

FOTO AFP/GETTYIMAGE

Não é possível compreender a obra de Lorca sem ter em conta aquilo que Gibson classifica como “algo de tão óbvio e fundamental na hora de entender o poeta”: a sua homossexualidade, durante demasiado tempo abafada, negada. Até porque, diz ainda Gibson, “assumir a sua condição (de homossexual) numa sociedade intolerante foi uma luta quotidiana nunca resolvida até os fascistas lhe terem acabado com a vida aos 38 anos de idade”.

Comprometido com todos os que sofrem, com os marginalizados, com os rejeitados, com os perseguidos, o autor de “Romancero Gitano”, afirmava, porém, que os ciganos eram tão só um tema. Detestava ficar prisioneiro de uma classificação. Odiava a propositada confusão entre a sua vida e o seu caráter.

O fuzilamento de Lorca assumiu proporções inimagináveis. Daí o manto de silêncio que sempre a ditadura franquista quis lançar sobre o sucedido. A partir de um dado momento era como se Federico nunca tivesse existido e, como consequência, nunca o crime tivesse sido cometido. Francisco Franco deixou muitos filhos, enteados ou aparentados. Oitenta anos após o crime, em Granada, terra do poeta governada pelo Partido Popular, continua a não existir uma rua, uma praça com o nome de Federico Garcia Lorca.

“Minha mãe, quando eu morrer,
que se informem os senhores.
Põe telegramas azuis
que cheguem do Sul ao Norte”.

(Garcia Lorca, poema “Morto de Amor” in “Romancero Gitano”, tradução de José Bento – Antologia Poética/Relógio D’Água 1993)