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Um amor chamado Paredes du Coeur

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rita carmo

O festival do Alto Minho começa esta quarta-feira, na vila do mesmo nome, mas dura um ano no coração dos seus acólitos. Perceba porque é que este é um festival diferente de todos os outros

Lia Pereira

Lia Pereira

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Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

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Fotojornalista

A primeira vez que fui até Paredes de Coura ainda não trabalhava, o que significa que foi o puro prazer que me levou a subir até ao cocuruto de Portugal para uma noite de excelência e, sobretudo, de ecletismo musical. Aos Mr. Bungle, banda que, com o maravilhoso “California” ainda fresco, me levou a comprar bilhete e fazer a viagem, juntavam-se os excêntricos Flaming Lips, então em estreia no nosso país, a violenta prata da casa dos bracarenses Mão Morta e uns tais Coldplay, que panfletos distribuídos no recinto garantiam ser número 1 em Inglaterra.

Os courenses – de nascença e adoção, como o são todos os que, por estes dias, rumam ao Alto Minho – receberam-no como a todos os outros, ou seja, com uma pratada de exigência & carinho em iguais doses.

Naquele ano, lembro-me de reparar no ambiente pacífico e na facilidade com que, se abandonasse as primeiras filas para ir à casa de banho, a elas podia retornar sem conflitos com os demais festivaleiros. Voltei, contudo, ao Porto ao fim de um dia, pelo que apenas em 2004, já em trabalho, se pode dizer que vivi a experiência completa a que Paredes de Coura convida.

Coura não é para meninos

rita carmo

Os primeiros momentos foram espetacularmente desoladores: em agosto, as nuvens desabavam sobre o recinto como se nos tivéssemos enganado no calendário e estivéssemos em pleno inverno. O palco secundário, por onde uma ótima seleção de cantautores – Josh Rouse, Mark Eitzel, Old Jerusalem – devia ter desfilado ficou impróprio para consumo depois de um desses amorosos dilúvios. Iria o festival ser cancelado?, lembro-me de pensar, abrigada com uns companheiros de ofício junto às banquinhas do pão com chouriço.

Não o sabia então, mas Coura não é para meninos, e da adversidade se fez uma das mais memoráveis edições do festival. A rapaziada de guitarra acústica em punho, por exemplo, saltou para o palco principal, que se a memória não me falha foi estreado pelas manas CocoRosie; Bianca e Sierra Casady, abraçadas depois de, minutos antes, terem dado uma entrevista a fumar um charro, começaram a tocar e um arco-íris surge atrás delas, no meio do verde impossível do Minho. Os dias avançaram e a chuva não deu muitas tréguas: lembramo-nos de Ana Matronic, dos Scissor Sisters, a livrar-se dos sapatos para não cair enquanto dançava, ou dos pingos gelados que me entravam pelo kispo dentro, sem ainda assim conseguirem estragar o concerto dos Black Rebel Motorcycle Club.

rita carmo

A 20 de agosto, e depois de ter passado o festival com umas sapatilhas emprestadas, dois números acima do meu, e umas calças de aplicador de herbicidas compradas na vila, comprei mais um artefacto: a t-shirt oficial de Paredes de Coura 2004. Passada a tormenta, estava claramente apaixonada e pronta a repetir a dose.

Paredes du Coeur

Nos últimos dez anos falhei apenas, por motivos de força maior, uma edição e tenho visto com orgulho o festival manter a sanidade e o equilíbrio possíveis, num panorama de música ao vivo cada vez mais marcado pelo domínio dos patrocinadores e pela tentação paralela das ativações de marca. Em Paredes de Coura, como em qualquer outro canto do mundo ocidental, há quem fale durante os concertos e quem nos dê pisadelas (acima do Mondego, calcadelas); concertos bons e outros nem por isso; edições mais recheadas de grandes artistas e outras mais depauperadas. Mas, quando digo o nome que, há uns anos, algum campista inspirado adaptou para Paredes du Coeur, a primeira coisa que me ocorre é o verde, o cheiro a hortelã, a hospitalidade dos amigos cujo abraço vai transitando de ano para ano. E isso, para quem passa todo o santo ano na cidade, vale ouro.

Este ano, os regressados LCD Soundsystem (18 de agosto, às 00h20) têm tudo para coroar-se reis e senhores de um festival onde o guitarrista Ryley Walker (no mesmo dia, às 18h), os psicadélicos King Gizzard & The Lizard Wizard (19 de agosto, às 21h20) ou a promessa Cigarettes After Sex (dia 20, às 22h20) também nos abrem o apetite. No palco Jazz na Relva, contíguo ao campismo, haverá sessões de leitura com Gisela João & Samuel Úria (dia 18) e Capicua & Adolfo Luxúria Canibal (19), além do habitual bucolismo estival pintado pelos festivaleiros nas margens do Rio Coura.

Acima de tudo, em Paredes de Coura, de 17 a 20 de agosto, haverá Paredes de Coura. O que, numa era de festivais nómadas, mutantes e híbridos, tem um sabor e um valor especiais.