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Marcelo Mirisola é pouco otimista sobre os caminhos da literatura

FOTO JOSÉ CARIA

Brasileiro, 50 anos, mais de uma dúzia de livros, Marcelo Mirisola desperta paixões e ódios. É publicado pela primeira vez em Portugal

A língua é comum e uma parte da história também. Apesar disso, a divulgação da literatura do Brasil em Portugal é precária. Se há, porém, editora que vem paulatinamente oferecendo aos leitores a possibilidade de a conhecer é a Livros Cotovia: Machado de Assis, Milton Hatoum, Sérgio Sant’Anna, Nelson Rodrigues, Bernardo Carvalho... O paulista Marcelo Mirisola é o mais recente. Descendente de italianos, lá para trás ficam um tetravô com sangue português e uma tetravó índia: “O resto é tudo italiano, gente da Sicília e da Calábria. Coisa ruim mesmo!” Encontramo-lo em Lisboa, Rua Nova da Trindade, uma tarde de calor, uma gata da casa que se passeia entre livros.

São dois os títulos publicados: “O Azul do Filho Morto” e “Bangalô”. Textos ruins. Cruéis. Indigestos. O contrário de textos digest. O autor reconhece: “‘Bangalô’ tem uma atmosfera de desgraça, é terrível, meio demente...” Confirmo. E acrescento: o lirismo que chega a espaços, como rajadas de luz, não lhe amacia a dureza. Com bibliografia que inclui romance, conto, teatro e crónica — agora mesmo saiu no Brasil “A Vida Não Tem Cura” —, o escritor explica-nos que a opção pelos dois romances, respetivamente de 2002 e 2003, foi inteiramente do editor: “Ele apenas me informou do seu interesse em publicar. Por acaso, são dois dos meus melhores livros.” Acordada a publicação, André Jorge foi avisando: “Estes livros serão um fracasso, não vão entender nada aqui em Portugal. Guimarães Rosa, vá lá, você é ilegível.” Mirisola adorou o elogio: “Ele gostou do livro, vai publicar. Para mim, é perfeito. Porque eu não tenho ilusão que vou ganhar dinheiro vendendo livro, nem aqui, nem no Brasil, nem em lugar nenhum. O leitor de literatura é hoje um animal em extinção.”

O leitor-sobrevivente abre os livros e estranha. A língua comum é uma pauta sinuosa que tergiversa em sonoridades incomuns, construções extravagantes, por muito que os fãs do Acordo Ortográfico vendam o contrário: “Não ligo para isso”, resume. E acrescenta: “A recíproca serve para o leitor brasileiro lendo um autor português. O estranhamento é o mesmo.” Leu pouco de Portugal. Miguel Esteves Cardoso, Pessoa, que toda a gente lê, Sá Carneiro. Tentou Mia Couto, Agualusa. Descobriu Carlos de Oliveira, “Uma Abelha na Chuva”, e ficou “besta. Aquilo lá é um monstro. Estou atordoado até hoje”.

Atordoados nos confessamos com “O Azul do Filho Morto” e “Bangalô”. O embate é violento. A linguagem escatológica, a sordidez do protagonista, o grotesco das situações. Resistimos. Depois, abandonamo-nos ao texto, percebemos que nada ali é gratuito. O escritor explica-se: “As palavras estão lá para servir as necessidades das palavras. A mesma coisa com as situações. Não dá, se você quer ser escritor, fugir das situações. Vamos falar sobre compaixão, ódio, crueldade, lirismo. Um escritor não pode abrir mão de nada quando está escrevendo. Eu me convenci que era escritor em ‘O Azul...’, que tem alguns trechos em que eu me disse: não posso escrever isto. E aí pensei: se não escrever, não sou um escritor, que diabo! Tive de passar por cima de alguns pudores, houve situações em que tive de ser mais forte do que meus pudores, ou faço isso ou mudo de atividade... Quer dizer, há escritores que têm uma vocação, uma mão boa para escrever, mas não escrevem o que tem de ser escrito. Não foi fácil. Mas a partir daí eu entendi que os sentimentos de vingança, de revanchismo, de ódio... tudo isso passou a ser ferramenta. Eu não me permito até hoje ficar alheio a nada do que está à minha disposição.”

O radicalismo perante a coisa literária não lhe trouxe muitos amigos. Houve quem dissesse que era o escritor mais odiado do Brasil. Mirisola não desarma: “Os autores brasileiros contemporâneos não assumem a sua condição de classe média. Não assumem esse ponto de vista, fogem disso como diabo da cruz, escrevem do ponto de vista do Pantanal, ou do marginal da favela, ou do cara que vive nos arrabaldes da cidade...” Ele acredita ter encontrado a sua voz: “Tem autores que levam uma vida inteira para achar uma voz imitando a voz dos outros. Eu acho que é fundamental para o artista encontrar a sua expressão, a sua assinatura, a sua diferença no mundo. Acredito que consegui, mas isso cabe também ao leitor dizer.”

Quanto à fama de encrenqueiro, remete-a para a falta de debate e crítica: “No Brasil não há debate, trocam-se afagos, gentilezas. Então, eu sou um ponto fora da curva, uma coisa esquisita. Agora a Frankfurt foram 70 autores. Indagaram o curador porque não tinham me chamado. ‘Ai, não, o Mirisola vai causar confusão.’ Como se eu fosse um cara mal-educado, algum troglodita... Não, eu sei manusear os talheres, sei dar bom-dia, boa-tarde, por favor, muito obrigado... O que acontece é que não existe mais crítica literária, quem avalia são os curadores. Então, se você tem amizade com os curadores, você tem uma grande chance de ser um grande escritor.”

Influências? Nega a de Bukowski que alguns teimam em colar-lhe. Reconhece a de Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Junichiro Tanizaki, Luciano de Samósata, já se afastando bastante. Céline tem na mesa. Tolstói é um caso à parte. Fala com paixão de Borges e da Argentina. Sobre a situação política do Brasil, acha que “o assunto passou dos limites, não vejo hora de acabar essa história”. Recorda Ernesto Sabato: os jornais deviam ser publicados uma vez por século: “As notícias são todas as mesmas, o que é que aconteceu: Colombo desembarca na América. O resto é bobagem. Você vai sair, política, você conversa com sua mãe, política. Cansou, não é? E, ao mesmo tempo, essa crise de representatividade...” Lamenta: “O Brasil, o país do futuro e o que aconteceu. Nossa, como é que pode? Uma tristeza, isso daí.”

Pouco otimista sobre os caminhos da literatura, Mirisola está convencido de que “o escritor não tem mais importância nenhuma, a literatura ficou um objeto fetiche. Ela era elitista, mas ela irradiava, agora não irradia, qualquer entretenimento tem mais tentáculos, atinge mais pessoas, influencia mais gente. Quem é que se mata hoje por causa de um Werther?”